quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

TinTin, um jovem que faz hoje 90 ano



Foi no dia 10 de Janeiro de 1929 que surgiu pela primeira vez Tintin, acompanhado desde logo pelo seu inseparável cão Milou, um fox-terrier.


A sua primeira aventura do jovem repórter apareceu nas páginas do suplemento semanal Le Petit Vingtieme, e intitulava-se “Tintin no país dos soviéticos”.


O suplemento pertencia ao jornal belga, católico e conservador , “Le XX.e  Siécle”,no qual o jovem Georges Rémi começou a trabalhar em 1925 como empregado encarregado das assinaturas, e onde criou a sua primeira personagem, Totor, em 1926, adoptando desde logo o pseudónimo de Hergé.

Rémi nasceu em  Etterbeek em 1907  e estudou num colégio católico onde, desde logo, mostrou as suas qualidades como ilustrador.

Foi depois de cumprir o serviço militar e regressar àquele jornal em 1927, agora como fotógrafo, letrita, ilustrador e desenhador que fundou e dirigiu, a partir de 1928, o suplemento para jovens onde nasceu TinTin que aí surgiu no nº 11 dessa publicação.


Um ano mais tarde criou para esse suplemento a série Quick et Flupke, cujas aventuras humorísticas foram publicadas pela primeira vez  em 23 de Janeiro de 1930.


A suas primeiras aventuras eram ainda pouco elaboradas, com um desenho quase naif .

Mais tarde Hergé proibiu a publicação e edição daquela primeira história de TinTin, ainda marcada por um anticomunismo primário, e que, alvo de várias edições pirata ao longo do tempo, só veio a ser reeditada já depois da morte do autor, pois, com, o fim da União Soviética, ganhou uma nova actualidade, tendo a sua reedição acores numa edição pirata em 1992.


Naquele suplemento publicou ainda várias aventuras de TinTin, como “Tintin no Congo” em 5 de Junho de 1930 (que veio, mais tarde, as sofre uma reedição revista, já que foi acusada de racista), “Tintin repórter em Chicago” em 1931, reeditada mais tarde como “TinTin na América” e “Os Cigarros do Faraó” em 1932. Foi neste último álbum que apareceram duas das personagens mais famosas da série, os irmão Dupond e  Dupont.

Mas foi com “Tintin no extremo oriente” , publicado em 1934 ( reeditado mais tarde como “O lótus Azul” ) que se deu a consagração de Hergé. Foi o seu primeiro trabalho de folego, com uma investigação cuidada, a primeira originalmente publicada a cores e que contou com a colaboração do jovem estudante chinês Tchang Tchong-jen, que tornou um amigo para a vida e personagem da própria aventura.

Até ao inicio da 2ª Guerra e ao lingo dos anos trinta, desenhou mais três aventuras: “A Orelha Quebrada” (1937), “A Ilha Negra”(1938) e o “Ceptro de Ottokar”(1939).

Foi mobilizado no inicio da guerra, mas escapou ao serviço militar por razões de saúde. A Bélgica foi rapidamente ocupada pelas forças nazis em 1940 e Hergé encontrou trabalho no jornal “Le Soir”, jornal mais tarde acusado de “colaboracionista”.

Ao longo da Guerra publicou mais 4 aventuras de TinTin: “O Caranguejo das Tenazes de Ouro” em 1940-41, onde surge o icónico capitão Haddock, “A estrela Misteriosa” em 1941-1942, “O Segredo do Licorne” em1942-1943 e “O Tesouro de Rackham o Vermelho “ e “as Sete Bolas de Cristal”,  ambos em 1943.

Em 1942 começou a publicar em álbum as aventuras até aí editadas em jornais e revistas, colorindo  e melhorando o desenho e cenários das que tinham sido editada as preto e branco, contando com a colaboração de uma equipa de desenhadores como Edgar-Pierre Jacobs,  Bob de Moor, e Roger Leloup, entre muitos outros.

Após a libertação todos os redactores do “Le Soir, acusados de colaboracionismo com os nazis, são presos e Hergé passa uma noite na prisão e sujeita-se a um penoso processo em tribunal, remetendo-se ao silêncio, havendo quem pensasse que ele tinha falecido.

Regressa com a criação da revista belga “TinTin” em 1946, onde lança mais uma aventura do seu personagem,  “O templo do Sol”.

Dois anos depois estreia-se a aventura “TinTin no País do Ouro Negro”, no lançamento da edição francesa do “TinTin”.

Em 6 de Abril de 1950 cria os estúdios Hergé que está na origem da chamada “escola de Bruxelas” ou da chamada “linha clara”.

Depois das sua premonitória aventura “TinTin na Lua”, editado em duas partes, com os títulos “Destino  Lua” (1950) e “Caminhando sobre a Lua” (1952 a 1953) e de mais duas aventuras,  “O Caso Tournesol” (1954 a 1956) e “Carvão em Stock” (1956 a 1958), Hergé atravessa um período de crise pessoal e existencial, interessando-se pela filosofia oriental e questionando o seu trabalho anterior.

Dessa nova fase surgem “Tintin no Tibet” em 1958-1959 e aquele que é considerado por muitos a sua obra prima, “As Jóias de Catasfiore” (1961-1962).

Segue-se “Voo 714 para Sidney” (1966), uma aventura envolvendo o mundo das artes, e o seu derradeiro álbum, talvez o mais politizado, “TinTin nos Pícaros” de 1975, inspirado nas memórias de Regis Debray.

No final da sua vida realizou o sonho de visitar os Estados Unidos, o que aconteceu em 1971, onde foi recebido como verdadeira estrela pelos autores norte-americanos.

Recebeu ainda o Grande Prémio Saint Michel 1973 e a Medalha do Festival de Angouleme em 1977.

Em 1979 iniciou aquele que veio a ser o seu álbum inacabado” Tintin e o Alph’Art”, publicado em esboço, a título póstumo, em 1986, já que Hergé faleceu em 3 de Março de 1983.


Em Portugal as aventuras de TinTin surgiram pela primeira vez na revista “O Papagaio”, no seu nº 53 de 16 de Abril de 1936. A primeira aventura aí publicada foi “Tim-Tim Na América do Norte” (com este título) e o aportuguesamento do nome do herói, e a designação de  Rom-Rom para o cão Milou, designações que se mantiveram assim em quase todas as edições da série noutras publicações até ao aprecimento, em 1968, da edição portuguesa da revista “TinTin” (ao capitão Haddock chamou-se Capitão Rosa).

Essa primeira edição portuguesa, a primeira num país não francófono, foi colorida pela editora de “O Papagaio”, ainda antes da série original ser a cores.

A série voltou a conhecer edição portuguesa nas revistas “Cavaleiro Andante” (em 1952), “Foguetão” (em 1961), “Zorro” (em 1962) e “TinTin” (em 1968).

Em 1971 o jornal “Diário de Notícias” publicou a série nas suas páginas em tiras diárias, uma inovação. Só em 1988 teve lugar a primeira edição portuguesa de um álbum do TinTin.

Da rica galeria de personagens que habitam as aventuras de TinTin destaca-se o Português Oliveira da Figueira (ou Serafim Lampião), o típico comerciante e bugigangas que apareceu em três das aventuras da série (Os Cahrutos do Faraó, No País do Ouro Negro e Carvão no Porão.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Morreu Stan Lee, o argumentista que tornou os super-heróis humanos


Stan Lee  nasceu em Nova Iorque como Stanley Martin Liber, em 28 de Dezembro de 1922, filho de imigrantes judeus da Roménia, falecendo ontem, dia 12, em Los Angeles.

Filho de um alfaiate, viveu em relativa pobreza, juntamente com os seu irmão Larry, nascido em 1931, vivendo num bairro pobre do Bronx.

Começou a trabalhar muito cedo, em trabalhos esporádicos, escrevendo obituários em jornais, vendendo sanduiches ou como arrumador num teatro.

O seu grande sonho era tornar-se romancista, mas enveredou como argumentista de “comic’s” quando o seu tio Robbie Solomon lhe arranjou trabalho na efitora Timely Comic, a antepassada da Marvel.

O seu primeiro trabalho foi um conto ilustrado por Jack Kirby (1917-1994), intitulado "Captain America Foils the Traitor's Revenge" , publicado em Captain America Comics #3 (de maio de 1941).

Foi então que adoptou o pseudónimo de Stan Lee, pois ainda sonhava com a carreira de romancista e não queria ver o seu nome associado à Banda Desenhada, género então considerado desprestigiante. 

Mais tarde, já nos anos 70, acabou por alterar legalmente o seu apelido para “Lee”.

Nos finais de 1941, apenas com 19 anos, foi nomeado editor interino da Timley Comic.

Entretanto, com a entrada dos Estados Unido na 2ª Grande Guerra, ingressou em 1942 nas Forças Armadas, na área das comunicações e escrevendo panfletos de propaganda.

Terminado o conflito regressou, em 1945, à Timley Comic, que mudou o nome para Atlas Comic.

Para essa editora escreveu histórias de vários géneros, do Western à Ficção Cientifica, do terror ao humor.

Em 1950 juntou-se ao desenhador Dan De Carlo (1919-2001) e iniciou a publicação de uma “tira” de jornal intitulada “My Friend Irma”, baseada numa comédia radiofónica.

No final dessa década, numa altura em que pensava abandonar a BD, foi convidado a responder ao desafio da editora rival, a DC Comic, que criou a “Liga da Justiça”, recuperando velhos heróis com o Super-Homem e Batman, tornando-se um grande sucesso editorial.

Lee juntou-se ao desenhador Jack Kirby e responderam ao desafio criando, em Novembro de 1961, o “Quarteto Fantástico”, o mesmo ano em que a Timley adoptou o nome de  Marvel Comic.

O êxito da série relançou a empresa, e nos anos seguintes o talento de Lee e dos desenhadores da Marvel viu nascerem mais séries que se tornaram icónicas no universo da agência:

Em 1962 cria, com o recentemente falecido (em 27 de Junho) Steve Ditko (1927-2018) o “Homem Aranha”  e com Kirby “O Incrível Hulk” e “Thor”.

No ano seguinte junta um novo conjunto de super-heróis , “O Home de Ferro” e “X.Men” com Kirby e “Doutor Estranho” com Ditko.

Em 1964 acrescenta a esta galeria que vai conduzir a Marvel ao êxito, a série “Demolidor” com Bill Everett (1917-1973).

Em 1972 Lee torna-se dono da Marvel e ao longo da sua vida criou mais de 300 personagens.

Muda-se para a Califórnia em 1981 para acompanhar a produção de filmes para a TV e para o cinema baseados nos personagens da Marvel, a maior parte criados por si.

É aliás nesta década, em 1988, que se dá uma das mais improváveis colaborações. Numa feira do livor de uma cidade da Califórnia Lee conhece Moebius, aliás Jean Giraud (1938-2012), um dos mais conceituados criadores da Banda Desenhada franco-belga, como a série Tenente Blueberry ou, como “Moebius”, várias BD’s de ficção científica, sendo igualmente fundador da revista Metal Hurlant, e com ele lança a série “Surfista Prateado”, editada nesse mesmo ano.



Lee, em conflito com a Marvel pelos direitos de autor, colabora com a rival DC Comics em 2001, ao mesmo tempo que fez breves aparições nos cerca de 40 filmes produzidos com base nos personagens que criou.






Lee, muito imbuído no espirito da década de 1960, o período do auge da sua carreira na BD, introduziu nas suas séries um carácter mais humano, filosófico e político nas histórias que escreveu, afastando o mundo dos super-heróis das características  mais infantilizado e por vezes reacionário que caracterizavam o género.

Ainda de falecer, ontem, em Los Angeles,  deixou filmadas cenas onde vai aparecer nos próximos três filmes ainda por estrear com heróis da Marvel (“Capitão Marvel”, “Vingadores 4” e “Homem-formiga e a Vespa”).

Stan Lee revelou a importância de um elemento geralmente secundarizado no mundo criativo da banda desenhada, o argumentista.

Stan Lee foi o argumentista que aproximou os super-heróis do lado humano.