
Para além de suplementos, como
o dominical do Primeiro de Janeiro, o "Quadrinhos" (uma 1ª série
entre 28 de Fevereiro de 1971 e 1972, uma 2ª série entre 1972-1974 e uma 3ª
série entre 1980 e 1982) de A Capital, A Mosca do Diário de Lisboa, desde 12 de
Abril de 1969, o "Pim-Pam-Pum"(1925-1978) de O Século ou a "Nau
Catrineta"(14 de Dezembro de 1963 a 1975) do Diário de Notícias, a Banda
Desenhada e o cartoon, lutando muitas vezes contra a censura, ocupava um lugar destacado nas edições
diárias da imprensa portuguesa.
Existiam ainda vários
semanários dedicados à BD, com destaque, nessa altura, para as revistas
“Falcão” (1960-1987), "Mundo de Aventuras" (1949-1987), “TinTin”(1 de
Junho de1968 a 1981) e “Jornal do Cuto”(7
de Julho de 1971 a 1978).
(capa da revista Falcão da semana do 25 de Abril de 1974)
(revista Jornal do Cuto no pós 25 de Abril)
Embora não tivessemos
encontrado na nossa colecção a edição do Primeiro de Janeiro do dia 25 de
Abril, temos connosco as edições do Diário de Notícias e do Século, do Jornal
de Notícias, de A Capital, do Diário de Lisboa, do Diário Popular, do
República, do Sempre Fixe, do Expresso, do Século Ilustrado, da Flama, da Seara
Nova e do Tempo e o Modo. Tivemos ainda possibilidade de consultar na
Biblioteca Nacional de Lisboa (BNL) o Primeiro de Janeiro dessa data. Contudo,
algumas dessas publicações não apresentaram as suas edições habituais nesse
dia, não editado os habituais catoon’s, tirinhas ou páginas de BD, para terem
espaço para divulgarem os acontecimentos do dia, como aconteceu, em especial,
com o jornal República.
Recordamos aqui,
reproduzindo-as a partir da nossa colecção pessoal, do site da Hemeroteca de
Lisboa, de uma consulta na BNL e a partir de fotografias da colecção Ephemera, as
tirinhas e, em menor número, as pranchas de BD e os cartoon´s que se publicaram
nas páginas desses jornais nesse dia 25 de Abril ou nos dias seguintes, ficando
assim com uma idéia do panorama da BD e do cartoon que se publicava na imprensa
da época.
Jornais da manhã:
O Século
O jornal “O Século” publicava
semanalmente o suplemento Pim-Pam-Pum, onde a BD preenchia grande parte da
edição. Esse suplemento era um dos mais antigos da imprensa nacional, começando
a ser editado em 1925, até 1978. Refira-se que as primeiras ediçãos desse
suplemento, até à década de 1940, estão acessíveis no site da hemeroteca.
Contudo, no dia 25 de Abril e nas semanas seguintes esse suplemento não se
publicou.
A primeira edição do dia desse jornal não fazia ainda qualquer
referência aos acontecimentos do dia, publicando nas suas páginas a tirinha “Os Silvas” de Barry Appleby, na penúltima página, e, na última páginas a tirinha
“Ele e Ela” de “Adam”.“Os Silvas” eram, na sua
origem “The Gambols”, série britânica
criada em 16 de Março de 1950 por aquela cartoonista britânico, para o
Daily Express. As situações humorísticas da série baseavam-se na vida familiar
do autor e contou com a colaboração da esposa do autor, Dobs. Esta faleceu em
1985, mas a série continuou a publicar-se até 1999, até três anos depois da
morte do seu criador.
No dia seguinte, dando já
grande destaque ao 25 de Abril, “O
Século”, para além de uma nova tirinha de “Os Silvas”, publicava duas tirinhas,
publicadas em continuação, da série realista Rex Morgan criada por Dal Curtis
(1911-1991), pseudónimo do psiquiatra Nicholas Dallis. Este era o responsável
pelo argumento, mas a série era desenhada por Frank Edgington e Marvin Bradley.
Esta série norte-americana foi criada em 10 de Maio de 1948 e era passada em
ambiente hospitalar. Dal Curtis foi responsável por outras duas séries , Judge
Parker (desde 1952) e Apartment 3-G (1961-1991). As duas primeiras séries
continuaram a ser publicadas até aos nossos dias por outros autores, após a
morte do seu criador.
Diário de Notícias
O “Diário de Notícias”
mantinha uma tira diária das aventuras de Tintin, em continuação, na última
página que aparece na 2ª edição desse diário no dia 25 de Abril. A aventura em
publicação era “A Ilha Negra”.
“A Ilha Negra” foi a sétima
aventura de TinTin, publicada pela primeira vez no “Le Petit Vingtiéme”, entre
1937 e 1938, sendo redesenhada em 1966, tendo originando, antes desta data, em
1957, a primeira adaptação ao cinema de animação da célebre série de Hergé.
Esse diário publicava, aos
Sábados, o suplemento “Nau Catrineta”, desde 1963, e que terminaria a sua
publicação em 1975.
Pensamos que o primeiro número
desse suplemento juvenil, onde se publicavam séries de BD em continuação, no
pós 25 de Abril, foi o nº 537 do XIº ano, publicado nas páginas desse diário em
11 de Maio de 1974. Publicava duas pranchas em continuação, sem indicar
autoria, “Alice no Páis das Maravilhas”, numa versão da escola franco-belga, (a
adaptação mais famosa é da de Walt Disney, não sendo este o caso) e uma do
western da mesma escola “Um Inocente no Inferno”. Publicava uma tira em
continuação “Bessy em o Homem e a Serpente” e uma prancha humorística
intitulada “História Muda”, para além de jogos e textos didáticos.
Dessas várias séries, as
aventuras da cadela colie Bessy, passadas no oeste norte-americano, é a mais
famosa. A série baseou-se na série Lassie. O seu criador, o belga Willy Vandersten
(1913-1990), é o mais importante autor da chamada escola flamenga de Banda
Desenhada, conhecido pela autoria de várias séries humorísticas, como Bob et
Bobette, socorrendo-se, para esta série humorística, da colaboração do
desenhador Kane Verschuere, ficando com a responsabilidade pelo argumento. Bessy,
criada em 1952, publicou-se até 1984.
Jornal de Notícias
O diário do Porto publicou, na
sua “edição especial” do 25 de Abril, as tirinhas humorísticas “Senhor
Cândido”, assinadas por “Mena”, e “Lola” de “Listeq(?)”, esta de origem
espanhola, e outras tirinhas de séries realistas, em continuação: “Agente
Secreto X-9” (Al Williamson), “Dick – o Goleador” por José Luís Salinas e “Dr.
Kildare” por Ken Bald e na última página, um Cartoon intitulado “Humor de
Miranda”. Este Miranda era um cartoonista português “residente” nas páginas
desse diário, António Miranda, nascido naquela cidade em 1935. Publicou os seus
primeiros trabalhos na “Voz dos Ridículos”, colaborou no Diário de Notícias,
mas foi no “Jornal de Notícias” que desenvolveu a maior parte da sua
actividade, como jornalista e cartoonista, entre 1955 e 1996.

A série “Agente Secreto X-9”
foi criada em 1934 pelo famoso escritor de policias Dashiell Hammet
(1894-1961), argumentista e por uma figura histórica dos “comic’s”, Alex
Raymond (1909-1956). Este último foi também o criador das famosas séries Flash
Gordon, também em 1934, e Rip Kirby, em 1946. Al Williamson (1931-2010) , que
assina a tirinha daquela série nas páginas do JN, foi um dos muitos
desenhadores que continuaram a série, sendo responsável por ter alterado o nome
do principal personagem da série de “X-9” para “Agente Secreto Corrigan”.
“Dick, o goleador” foi crido
em 1971 por um dos mais famosos autores de BD da argentina, José Luís Salinas
(1908-1985). A série foi criada quando o desenhador argentino se encontrava
emigrado nos Estados Unidos, situação vivida desde 1949. A série baseou-se no
argumento de Alfredo Grossi e foi continuada por outros autores após a morte
daquele autor.
A série “Dr. Kildare”, da
autoria de Ken Bald (Kennet Bruce Bald) (1920-2019), baseou-se na série
televisiva do mesmo nome. Bald foi responsável pela série de BD entre 1962 e
1984, tendo sobrevivido à própria série televisiva, que durou até 1971. Aquele ilustrador
começou a sua actividade desenhando várias séries da Marvel e outros
comic-books, chegando mesmo a desenhar episódios do Capitão América.
No dia seguinte, na sua edição
de 26 de Abril, esse diário publicava as mesmas séries, com uma alteração, em
vez de “Lola” publicava a tirinha humorística “Tecas e Lecas”.
O Comércio do Porto
Este diário portuense
publicou, nesse dia 25 de Abril uma única
tirinha humorística: “O Maravilhas”, de autor desconhecido.
Primeiro de Janeiro
Este diário do Porto,
desafecto ao regime, tinha uma longa tradição de publicar BD nas suas páginas,
com destaque para as suas páginas dominicais a cores, onde se destacava a
edição das pranchas coloridas de “O Príncipe Valente” (até 1995), do “Reizinho”
de Otto Soglow, do “Corisco” da Disney e
das versões em BD, publicadas por altura do Natal, dos desenhos animados da
Disney.
No dia 25 de Abril, podemos
encontrar nas suas páginas várias séries em tirinhas e alguns cartoon´s:
- Curiosidades da Natureza, da
Disney, cartoon´s de teor pedagógico;
- O Coração de Julieta de Stan
Drake (1921-1997), criada em 1953 como “The Heart of Juliet Jones” no original,
uma das séries norte-americanas com maior êxito, publicada em mais de 600
jornais. Esta série surgiu do objectivo de dar continuidade à série Blondie
crida em 1930 por Chic Young (1901-1973);
- O Corisco de Walt Disney
(1901-1966). Corisco é um dos “filhos” da célebre dupla de “A Dama e o
Vagabundo”. Filme animado de 1955, também conhecido como Banzé.
- A Cara Metade de Don Tobin
(1916-1995). Don Tobin trabalhou para os estúdios da Disney e em 1953 criou
esta série, no original “The Little Woman” (em francês Cette Chêr Emile), uma
saga humorística de família, e que durou até 1982;
- O “Zé do Boné”, o
aportuguesamento da famosa série britânica Andy Capp, criada em 1957 por Ray
Smythe (1917-1998);
- A Dona Gira por jolita, tira
humorística familiar. Trata-se da série norte-americana “Little Eve”, criada em
1954 pela cartoonista, de origem indonésia, Jolita Haberlin e que foi publicada
até 1974.
Em 27 de Abril aquele jornal
publicou a cores outra série habitual nas suas páginas, “O Estranho Mundo de Mr. Mum” por Irving Phillips (1904-2000). Esta série humorística
quase surrealista, foi criada nos Estados Unidos em 1958 e publicou-se até
1974, para que o seu criador se dedicasse ao argumento televisivo.

As páginas do primeiro
Suplemento dominical do PJ, "Domingo", publicado depois de 25 de
Abril, em 28 de Abril incluíram várias séries a cores, em prancha inteira, como
as já mencionadas “Corisco” e “Coração de Julieta”, e as célebres pranchas a cores de “O Principe
Valente” da Hal Foster, uma das séries mais famosas da história da BD. Hal
Foster era o pseudónimo de Harold Rudolph Foster (1892-1981), nascido no
Canadá, mas a viver desde tenra idade nos Estados Unidos. Em 1929 ilustrou a
versão em BD da Tarzan, de Burroughs,,abandonando a série em 1937, para dar
lugar a Brune Hogarth. Nesse mesmo ano de 1937 criou a série Príncipe Valente,
pela qual foi responsável até 1971, entregando-a depois ao cuidado de John
Cullen Murphy (1919-2004), mas
continuando a escrever os argumentos da série até ao seu falecimento.

A Versão em Banda Desenhada do
desenho animado da Disney “Gata Borralheira”, estreada nos écrans em 1950, em
prancha colorida, continuava outra tradição dessa página, a de apresentar em
continuação as versões em BD dos filmes da Disney. Nessa mesma página, também a
cores, registava-se mais uma prancha a cores da célebre série “O Reizinho”, uma
das mais populares das publicadas nas páginas do Primeiro de Janeiro. O “The
Litle King”, na versão original, um dos raros casos em que a tradução
portuguesa respeitava o título original, foi criado em 1934 por Otto Soglow
(1900-1975), importante cartoonista norte-americano que foi fundador do “New
Yorker”. Essa página completava-se com uma tirinha humorística, a preto e
branco ,“O Senhor Calisto” de Martin, sobre a qual pouco conhecemos, apesar de
ser uma das tirinhas mais populares das publicadas nesse jornal.
Jornais a Tarde:
Se a maior parte dos jornais
da manhã desse 25 de Abril, pelo menos nas suas primeiras emissões, ainda
denotavam alguma “normalidade”, mantendo a paginação gráfica habitual, em
relação aos jornais da tarde registaram-se maiores alterações , em relação à sua publicação habitual, relegando
muitas vezes as suas páginas de BD e de cartoon’s para edições posteriores, a
fim de ganhar espaço para a grande noticia do dia
A Capital
O jornal A Capital sempre deu
grande destaque à Banda Desenhada, sendo responsável por um dos melhores
suplementos dedicado à 9ª arte na imprensa portuguesa, o Quadrinhos, que
conheceu 3 séries, uma entre 4 de Outubro de 1971 e 14 de Fevereiro de 1972,
outra entre 1972 e 1974, mas que terminou poucos dias antes do 25 de Abril (a
última edição deste suplemento foi em 15 de Abril de 1974), e uma 3ª série já
entre 1980 e 1982.
Por altura do 25 de Abril
encontrámos várias séries de BD , a maioria em tirinhas, espalhadas pelas suas
páginas:
Nesse dia publicou, na página
6, um conjunto de 4 séries realistas em tirinhas e em continuação:
- James Bond, de Ian Fleming e
Horak. Esta série baseou-se na obra de Ian Fleming (1908-1964), criada em 1957,
surgindo em BD nesse mesmo ano nas
páginas do britânico Daily Express, adaptada no argumento por Henry Gammidge
(1915-1981) e desenhada por John McLusky (1923-2006), série interrompida em
1963, pouco tempo depois da primeira adaptação cinematográfica dessa série, em
1962. Em 1964 a empresa criada para gerir comercialmente a série decide voltar
à BD, confiando os argumentos ao norte-americano James Duncan Lawrence (1918-1994)
e desenhada agora por Yaroslav Horak (1927-2020) (conhecido por Larry Horak),
um russo-tcheco naturalizado australiano, sendo este o autor da série que
aparece nas páginas de “A Capital”;
- No Palco, de Leonard Starr
(1925-2015). No original “On Stage”, esta série foi criada em 1956,
publicando-se até 1979, e é considerada uma das melhores “comic strip”
româmticas. O seu criador colaborou em várias revistas europeias, como no
TinTIn, no Pilote e no Charlie Mensuel, tendo criado, com argumento de Michel
Greg (1931-1999), conhecido argumentista e autor de BD franco-belga, a série
Kelly Green;
- Terry de George Wunder
(1912-1987). Esta série é a continuação de uma outra série famosa, Terry e os
Piratas, criada em 1934 por Milton Caniff, (1907-1988) que a abandonou em 1946.
O norte-americano Wunder continuou-a até 1973, mas a série perdeu o seu fulgor
inicial e este autor abandonou a BD para se dedicar à pintura, actividade que
manteve até ao seu falecimento;
- Jeff Hawke, de Sidney Jordan,
autor britânico, nascido na escócia em 1931. Tendo sido militar na força aérea
criou esta série em 1955, uma das mais famosas de origem britânica, com a
colaboração de outros dois colegas do mesmo ramo das força armadas, Eric
Souster e Jim Gilbert. A série suspendeu a sua publicação no Daily Express em
1976, retomando-se no ano seguinte, mas nos Estados Unidos;
Mais à frente, na página 8, uma
tira humorística, “Os Marginais”, de Howard Post (1926-2010) e, duas págnas
depois,a tirinha “B.C.” de Johnny Hart
(1931-2007).
“Os Marginais”, originalmente
“The Dropouts”, foi uma “comic strip” criada em 1968 e que se publicou até 1981.
Já a série “B.C.” , criada em
1958, passada numa imaginária “Idade de Pedra”, é uma das mais famosa “comic
strip” de sempre, tendo sobrevivido à morte do criador, continuando a
publicar-se ainda hoje. Hart foi coautor, com Brant Parker (1920-2007), de outra
série famosa e bastante divertida, “The Wizard of Id” (o Feiticeiro de Id),
editada a partir de 1964 e que também foi divulgada nas páginas deste jornal.
Na página 23, essa edição de
“A Capital” reunia mais 4 séries em tirinhas:
- “Li’L Abner”, de Al Capp,
pseudónimo do ilustrador norte-americano
Alfred Gerald Caplin (1909-1979), que criou essa imaginativa série em
1934, continuando a desenhá-la até 1977;
- “Modesty Blaise”, de Peter
O’Donnell (1920-2010), argumento, e Jim
Holdaway (1927-1970), desenho. Esta série, criada na Grã-Bretanha em 1963, foi
vista, inicialmente, como uma réplica feminina de James Bond. Em 1966 a série
foi adaptada ao grande écran pelo cineasta Joseph Losey. Com a morte de Jim
Holdaway em 1970, a série passou a ser desenhada pelo espanhol Enrique Balia
Romero, nascido em 1930 e recentemente falecido, em 15 de Fevereiro de 2024;
-“Dick Tracy”, de Chester
Gould (1900-1985) , série criada em 1931, mantida por Gould até 1977, sendo
continuada por vários outros autores. Esta foi uma das mais criativas e famosas
séries policiais norte-americanas de BD;
- “O rei do Colt” de Harry
Bishop (1920-2015). Este Western, com o título original de “Gun Law”, foi criado para o jornal britânico Daily
Express em 1956, continuando a publicar-se até 1970. O seu autor criou muitas
outras séries, ambientadas no velho oeste americano e chegou mesmo a ilustra
algumas histórias de Tarzan;
A publicação de tirinhas de BD
completava-se, na página 26, com a série
humorística norte-americana “Ricardinho, o Desportista”, de Rouson. O
norte-americano John Henry Rouson (1908-2000) criou essa série, intitulada
“Little Sport”, em 1948, que durou até 1976:
Publicava ainda, nessa mesma
edição, vários cartoon’s humorísticos, como “O Amigo da Onça”, série brasileira
oriunda do jornal “O Cruzeiro” e uma coluna com 5 cartoon´s e uma fotomontagem,
genericamente com o título “Humor”. Na última página o célebre “O Amor é”.
Pelo meio a publicação de uma
série com texto ilustrado por 3 imagens, a lembrar os primórdios da BD, “O
Crime não compensa”, com texto de P. Gordeaux e desenho de Mant.
Há ainda, nesse número, uma
referência à passagem de Quino, o pai da Mafalda, por Lisboa, em Dezembro de
1973, onde anunciava que ia deixar de desenhar aquela personagem.
Como vemos, este jornal dava
grande destaque à 9ª arte.
Diário Popular
Na edição desse dia 25 de
Abril podemos encontrar no Diário Popular e edição de várias tirinhas e
histórias ilustradas:
- “Dona Rita e Zé Catita” de Chic Young (1901-1973), um clássico do comic
norte-americano. Na origem, a série, crida em 1930, intitulava-se “Blondie, The
Family Foursome”. Chic Young (pseudónimo de Marat Bernard Young) desenhou a
série até à sua morte, tendo sido continuada pelo seu filho Dan;
- “Batman” de Platino
Ellsworth. Batman é uma das mais famosas séries norte-americanas, com várias
adaptações ao cinema. Criada inicialmente pela dupla Bill Finger (1914-1974) ,argumento,
e Bob Kane (1915-1998),desenho, esta dupla deixou-a em 1968, sendo a série
continuadas até à actualidade por alguns dos mais conceituados autores
norte-americanos de comic’s. Paltino Ellsworth, ou Al Platino foi um dos
continuadores da série, na qual já colaborava em 1966;- “Aventuras de Rufino”, série
humorística francesa e sobre a qual nada mais conhecemos;
- Histórias ilustradas em
contimuação: “A Guerra das mulheres”, francesa, inspirada num romance de
Alexnadre Dumas, e “Fronteiras da Ciência”, com o tema “A Vida fora da Terra”.
Nessa edição inclui ainda uma
página a cores, no suplemento “Quinta-feira à tarde”, e sob o título de “Ria
connosco!”, com 7 cartoon’s.
No dia a seguir, para além das
séries referidas, inclui, no suplemento “Doutor Sabichão” uma tirinha de “Max o
explorador”, de Bara e, a cores, uma prancha da série humorística “Zuca e
Bazaruca”, de Dick Browne.
Max o Explorador foi uma série
francesa criada por Guy Bara,(nascido na
Lituânia em 1923, mas naturalizado francês, país onde faleceu em 2003) em 1954
para o “France Soir”, série que passou mais tarde pelas páginas das revistas
“Spirou” (a partir de 1964) e “TinTin” (a partir de 1968), onde se publicou até
1976.
Quanto ao “Zuca e Bazaruca”,
chamava-se no original “Hi and Lois”, série criada nos Estados-Unidos por Dick
Browne (1918-1989), juntamente com Mort Walker (1923-2018), este último famoso
pela criação de Beetle Bailey em 1950, conhecido entre nós por “Recruta Zero”.
Browne foi também criador em 1973 de outra série famosa, o viking Hagar “the
Horrible”.
A série “Aventuras de Batman”
já editada no dia anterior, era publicada, desta vez, com 4 tiras, formando uma prancha.
No dia seguinte, dia 27,
inclui uma prancha da série “Tarzan” e uma ilustração de Carlos Marques para a
série “O Fotógrafo estava lá”.
A prancha de “Tarzan” vem
datada de 1948. Sabendo-se que Brune Hogarth (1911-1996) desenhou a série desde
1936 até 1950, e embora não esteja identificado o autor dessa edição no jornal,
tudo parece apontar para que o seu autor seja Hogarth.
Embora José de Lemos
(1910-1995) tenha sido um dos melhores cartoonistas portugueses, colaborador de
sempre de ilustrações e cartoon’s do Diário Popular, nessas datas não
encontrámos a sua habitual colaboração nas páginas desse vespertino.
República
Jornal conotado com a
oposição, as suas várias edições do dia 25 de Abril não incluem um único
cartoon ou uma única tirinha de BD.
Nesse mês a única BD publicada
surge num anúncio, da autoria de Augusto Cid, cartoonista desse jornal.
Só em 29 de Abril são
retomadas as tirinhas habituais publicadas nesse jornal:
- “Senhor Bigodes”, série
humorística de Hanan. Trata-se da famosa
série humoristica britânica “Louie”, criada em 1945 por Harry Hanan
(1916-1982);
- “Jebb Cobb” série realista
de Pete Hoffman (1919-2013).Esta série norte-americana sobre um jornalista de
guerra, foi criada em 1954 e durou até meados dos anos 60 do século XX;
- a série portuguesa de
critica social e politica “No País do Cegos” de Fred.
Sob a designação de “humor sem
palavras” são publicados vários cartoon´s.Sem censura, surgem ao longo
dos primeiros dias do pós 25 de Abril várias caricaturas e cartoon’s
retractando a actualidade politica, de autores portugueses como Frei Sousa,
Vasco, Augusto Cid, Pedro e Pat.
Diário de Lisboa
O Diário de Lisboa, publicando
regularmente algumas tiras de agências, é o que publica maior quantidade de
cartoon’s e bandas desenhadas de autores portugueses, muito graças à
colaboração desses autores no mítico suplemento humorístico “A Mosca”, que se
editava desde 1969. Contudo, a BD e o
cartoon apareciam de forma esporádica nesse suplemento.
No dia 25 de Abril publicava,
na mesma página:
- As tirinhas “Peanuts” de
Charles Schulz , “Carol Day”, série realista de David Wright, e uma série
humorística com um personagem de bigode, mas sem título.
Os Peanuts dispensam
apresentação, famosa série norte americana criada em 1950 por Charles Monroe
Schultz (1922-2000), e que teve um breve ensaio inicial em 1947 com o nome de
Li’l Folks.
Carol Day é uma série
britânica, criada em 1956 por David Wright (1912-1967), inicialmente com a
colaboração de Peter Meriton (1891-1961), para o Daily Mail, caracterizando-se
por algum erotismo soft.
Em baixo das tiras dessas
séries, em estilo de pequena prancha, a série portuguesa humorística “Os
Kolan”, de Duarte. Esta série, da autoria de José Luís Duarte, deu origem a um
dos primeiros álbuns de BD portuguesa editado em liberdade, em Agosto de 1974,
“Kolanville”.
Também surgem alguns cartoon´s
clássicos.No dia 28 de Abril sai uma
página dominical a cores, partilhada por uma história de meia página dos
“Peanuts” e outra de “Os Kolan” de Duarte.
Ao longo do mês de Maio surgem
vários cartoon’s, alusivos à situação política, da autoria de João Abel Manta
(n. 1928).
O primeiro suplemento de “A
Mosca” a sair depois do 25 de Abril data de 11 de Maio e inclui dois cartoon’s
da autoria de Zep + Zé Carlos e de Luís.
É na edição seguinte de “A
Mosca” que surgem algumas BD’s de autores portugueses, como Baarm, a ilustrar a
1ª página desse suplemento, José Cottinelli e Monsanto. Recorde-se que na primeira
edição desse suplemento, em 12 de Abril de 1969, se tinha estrado o cartoonista
Sam.
Jornais e revistas semanais:
Sempre Fixe
Era um semanário ligado ao
Diário de Lisboa, com colaboradores comuns, nomeadamente no que à ilustração e
cartoon dizia respeito.
Logo na sua primeira edição
pós 25 de Abril, Sábado 27 de Abril, essa jovem publicação (ia na sua 4ª
edição) anuncia para as páginas anteriores uma “selecção de desenhos cortados
pela Censura em 1969” da autoria de João Abel Manta, que preenchem 4 páginas
dessa edição.
Na sua edição seguinte, de 4
de Maio, toda a sua primeira página é preenchida com um cartoon de João Abel
Manta, “Sem Mãos a Medir”, um dos mais icónicos cartoon´s alusivos à data, uma
referência aos “vira-casacas”. Essa edição inclui ainda 4 posters a cores do
mesmo autor, que tinham sido censurados.A sua edição de 11 de Maio inclui outro cartoon famoso
desse período, da autoria do cartoonista francês Siné, que se tinha deslocado a
Portugal para acompanhar a revolução.
Seara Nova
Um dos mensários mais
conhecidos da oposição e um dos mais perseguidos pela censura publicou, no seu
primeiro número do pós 25 de Abril, um cartoon de Sam, que tinha sido
censurado.
O cartoon é editado tal como
tinha sido “carimbado” pela censura. O cartoon era alusivo ao 1º de Maio,
destinava-se à edição daquela revista desse mês, e foi submetido à censura em
10 de Abril, devolvido como “proibido”.
Sam, de seu nome Samuel Torres
de Carvalho (1924-1993) tinha criado em 1972 uma das séries mais famosas de
Portugal, o Guarda Ricardo, que se publicou até à morte do deu autor.
O Tempo e o Modo
Outra revista da oposição,
ilustrava a primeira página da sua primeira edição pós 25 de Abril com um
cartoon, não assinado, alusivo à tendência maoista dessa publicação
Flama
Semanário de grande expansão
nacional, esta revista publicava, na sua edição de 10 de Maio, uma das
primeiras editadas após o 25 de Abril, um cartoon da série “Crocodilo”, alusivo
à situação política.
Século Ilustrado
A primeira edição desse
semanário pós 25 de Abril publicava duas bandas desenhadas, de página inteira,
“ABC criminal”, com desenhos de José Ruy (1930-2022) e texto de Artur Varatojo,
e “As Triples”, assinada por Homero.
Mundo de Aventuras
A edição do Mundo de Aventuras da semana do 25 de Abril de 1974 publicava uma aventura completa da séie Flash Gordon:
Tin Tin
Por último referimos aquele
que era o semanário juvenil de Banda desenhada, o mais importante publicado em
Portugal, o “TinTin”.
O primeiro editado após o 25
de Abril foi o nº 49 do 6ª ano, publicado com a data de 27 de Abril.
A sua capa era preenchida com
uma referência à série “Bernard Prince” de Herman e Greg e o anuncio de uma
história completa, publicada em 7 páginas no interior, a humorística , passada
na Idade Média, o “Cavaleiro Beloiseau”, de Mike.
O seu interior é preenchido
com duas histórias humoristicas, de uma página, “Benjamin” de Hachel, e
“Cubitus” de Dupa”.
As restantes páginas são
preenchidas com várias histórias em continuação. Com uma, dua ou 5 páginas:
- “Clifton”, em “O Ladrão que
ri”, de Degroot, Turk e Greg (uma página);
- “Michel Logan” , em “a flor
branca”, de A. Beautemps (2 páginas);
- “Lucky Luke”, em “Caçador de
Prémios”, de Morris e Goscinny (2 páginas);
- “Valerian”, em “O País sem
estrelas”, de Mézieres e Linus (2 páginas);
- “Bernard Prince”, em “A
chama verde dos aventureiros”, de Hermann e Greg (2 páginas);
- “Ric Hochet”, em “O
Companheiro do diabo”, de Tibet e A. P. Duchateau (5 páginas);
- Astérix e Obélix em O
Adivinho”, de Goscinny e Uderzo (2 páginas)-
A terminar, como era costume,
nas duas últimas páginas, uma aventura de “TinTin” de Hergé, “A Orelha
Quebrada”.
Com uma edição televisiva a
preto e branco e reduzida, sem internet
nem telemóveis, não é de admirar a profusão de publicações de Banda
Desenhada por essa altura na comunicação social portuguesa.
Aqui fica,pois, um breve
retrato do panorama português de Banda Desenhada por altura do 25 de Abril de
1974.