“Lucky Luke é toda a história do Oeste, a única autêntica aventura dos temos modernos”
René Goscinny
O “Nascimento” de Lucky Luke
O famoso cowboy Lucky e Luke completou 80 anos de vida
em Outubro de 2026, tendo surgiu pela primeira vez nas páginas da edição
francesa da revista Spirou em 10 de Outubro de 1946.
Essa primeira aventura intitulou-se “Arizona 1880”,
uma aventura de 22 páginas e que voltou a ser editada na Bélgica no L’Almanach
Spirou 1947, editado em 7 de Dezembro de 1946.
Lucky Luke só aparece nessa aventura na terceira
página e a sua figura é muito diferente daquela que geralmente conhecemos,
acompanhado do inseparável cavalo Jolly Jumper.
As figuras e o ritmo dessa primeira aventura são ainda
muito influenciados pela actividade anterior do autor dessa série, que tinha
trabalhado num estúdio de cinema de animação: figuras arredondadas, ao estilo
de Mickey ou Popey, com mãos de 4 dedos, um ritmo truculento, muito dinâmico,
com poucas palavras.
O primeiro herói da série é um miúdo, Tom, que pede
ajuda a Lucky Luke para salvar o pai, preso por baixo de uma diligência que
caiu, depois de ser assaltada. Nesta aventura surge também o primeiro de uma
longa lista de vilões, Big Billy, um batoteiro e assaltante de diligências.
A cena final já anuncia a imagem icónica que termina
todas as aventuras da série, Lucky Luke caminhando em direcção a um sol que põe
no horizonte, nesta primeira aventura tocando uma harmónica.
Nada fazia prever o enorme êxito dessa série, a mais
vendida e editada na Banda Desenhada franco-belga, muito à frente de Asterix ou
Tintim.
Morris (Maurice de Bevere)
O criado da série nasceu em Courtrai, na região
flamenga da Bélgica, no dia 1 de Dezembro de 1923, 2º filho de um industrial
local, fabricante de cachimbos em cerâmica importada da Alemanha.
Após ter frequentado as primeira letras, Maurice foi
estudar para um colégio particular católico dirigido por jesuítas em Alast, a
16 Km da sua terra natal.
Paras e descontrair e fugir do ambiente austero do
colégio desenhava imenso nos cadernos escolares, onde caricaturava colegas e
professores.
Ao estudar o texto “A Guerra das Gálias” de Júlio
César na disciplina de humanidades greco-latinas, ilustrou todo esse texto
desenhando, como alguém diria, “Asterix antes do tempo”.
Por essa altura assinou ao Petit Vingtieme, em cujas
páginas ficou a conhecer as aventuras de Tintin, tendo copiado, página a
página, o “TinTin no País dos Soviets”.
Assinava igualmente a revista Mickey Mouse Weekly,
através de cuja leitura aprendeu, como autodidacta, o inglês.
Apreciava também a obra de Marijac, um desenhador
francês muito importante ante da guerra, criador da série Jim Boum, as
aventuras de um cowboy.
Durante esse período de infância e juventude era
frequentador habitual das sessões de cinema em Courtai, especialmente os
Western’s e o cinema de animação, ficando-lhe na memória a exibição, em 1937,
do filme de Disney “Branca de Neve e os Sete Anões”.
Esses primeiros Western’s a que assitiu inicialmente
eram mudos, depois eram cantados por cowboys acompanhados por guitarras.
Tinha um projector em casa, o que lhe permitiu ver
filmes mudos, curtas metragens e desenhos animados, que ele esmiuçava, plano a
plano, familiarizando-se assim com as técnicas de animação.
A caricatura foi um das suas primeiras actividades,
muito por influência do pai que decorava os seus cachimbos com caricaturas de
personalidades da época e, em 1939, Maurice, então com 15 anos, começou a
colaborar na revista do colégio “Jong Leven” onde publicou caricaturas.
Em 10 de Maio de 1940 a Bélgica é invadida pelos
alemães, que bombardeiam o colégio, do qual tem de fugir. Segue-se um período
de penúria e falta de alimentos. Em 1942 os alemães instauram o trabalho
obrigatório nas fábricas alemãs.
Para escapar ao trabalho forçado na Alemanha, Maurice
inscreve-se na Universidade de Luvaine para estudar direito, mas, no início de
1944, é requisitado pelos alemães para trabalhar numa cadeia de montagem numa
metalúrgica em Marcke, perto da sua cidade Natal, onde trabalha cerca de 8
meses, até à libertação.
De forma clandestina publicou, em Outubro de 1944, um
cartoon no boletim do núcleo da resistência de Courtai.
No final da guerra inscreve-se num curso de cinema de
animação por correspondência, dirigido pelo desenhador francês Jean Image.
Em Março de 1945 responde a um anuncio de trabalho num
estúdio de cinema de animação em Bruxelas, CBA (Companhia Belga de
actualidades). Esse estúdio produzia páginas de actualidades para passar nos
cinemas e que se lançou no cinema de animação durante a guerra para substituir
a produção norte-americana, proibida durante a ocupação nazi. A sua experiência
nesse estúdio foi de curta duração, pois a CBA faliu pouco depois da sua
entrada. Contudo, nessa curta experiência, conheceu alguns amigos para a vida,
que também fizeram carreira na BD, como
Eddy Paape, Franquin ou Peyo.
No outono de 1945 procurou trabalho na editora Dupuis,
que editava as revistas Le Moustique e Spirou , para as quais realiza desenhos e ilustrações,
nomeadamente caricaturas de actores de cinema.
Já tendo esboçado a figura de um cowboy para os
estúdios CBA, acaba por apresentar um projecto de BD com um cowboy como herói,
nascendo assim Lucky Luke.
Ainda longe de calcular o êxito dessa personagem,
começa a colaborar regularmente na revista Spirou. A partir de 1947 vai viver,
juntamente com Franquin e Will, na casa de Jijé em Waterloo. Não tendo
frequentado uma escola de arte, sendo um autodidacta, Morris confessou mais
tarde que aprendeu muito no estúdio de Jijé.
O Período Americano
Temendo um novo conflito mundial, que seria nuclear,
Jijé consegue convencer Franquin e Morris a acompanhá-lo numa viagem para os
Estados Unidos.
Morris alinha por se sentir atraído por poder conhecer
o ambiente do Oeste americano e devido à admiração que nutria pelo cinema de
animação desse país, sonhando fazer carreira nesse meio.
Morris, Franquin, Jijé, a esposa deste Annie Gillan e
os seus quatro filhos, Benoit, o mais velho de 10 anos, Anne, Philippe e
Dominique, esta ainda bébé, partem de barco de Roterdão a caminho dos Estados
Unidos em 3 de Agosto de 1948.
Morris era o único a dominar o inglês e vai servir de
interprete do grupo.
Essa aventura serviu de base a uma banda desenhada
editada em 2012, “Gringos Locos”, da autori de Yann e Schwartz, que devia ser
publicada em dois volumes, mas, por oposição da família dos autores
caricaturados, acabou por ser suspensa. O segundo volume devia intitular-se
“Crazy Belgium”. Deste apenas foram elaboradas 7 pranchas.
Chegados a Nova Iorque, passaram uma semana num hotel
de Times Squares, à espera que Jijé obtivesse uma autorização de condução para
viajarem para Oeste até ao México. Finalmente aduirida a dita autorização, Jijé
adquiriu uma Hudson Commmodore, modelo de1946, que acomodou 4 adultos, 3
crianças, 1 bébé, bagagem e material de campismo.
Partindo de Nova Iorque, tendo S. Francisco como
destino, passaram por Saint Louis, Oklahoma City, Grand Canyon…3 semanas “on
the road”.
Na passagem para o México enfrentaram alguns
problemas, apenas tendo conseguido passar a fronteira a família Gillain, que se
estabeleceram em Tijuana. Finalmente, algumas semanas mais tarde, Franquin e
Morris conseguiram juntar-se à família de Jijé, partindo para a Cidade do
México, onde passaram o Natal de 1948. Na capital mexicana Franquin e Morris
instalaram-se no hotel Bayona.
Ao longo desse tempo Morris preparou vários episódios
de Lucky Luke para enviar para a revista Spirou. Foi desse período a elaboração
de “Le Rue vers l’or de Buffalo Creack”, uma história de 18 páginas que começou
a ser publicada a partir de 24 de Fevereiro de 1949 e “Lucky Luke contra
Cigarrette Caesar”, editada a partir de 30 de Junho de 1949, esta ultima muito
influenciado pelo ambiente mexicano.
As pranchas originais eram enviadas para a Bélgica por
correio aéreo e, para poupar no preço do envio, Morris recorreu a uma fórmula
rara, desenhando dos dois lados da mesma prancha.
Em Abril os vistos mexicanos de Franquin e Morris
expiraram, regressando ambos a Nova Iorque, via Chicago.
Partindo de Nova Iorque, Franquin regressou à Europa.
Morris ficou sozinho nessa cidade, onde permaneceu
mais 6 anos e foi viver para um apartamento em Manhattan, num 16º andar da West
End Avenue.
Aí estabelecido, inscreveu-se numa escola de artes e
foi mostrar os seus desenhos no estúdio de Fred Ottenheimer, autor da série
From Hero To Insanity, realizando ilustrações não assinadas para comic-books e
livros infantis, ao mesmo tempo que continuava a desenhar a série Lucky Luke.
Regressando do México, a família de Jijé instalou-se
em Wilton, uma vila do Connecticul, próxima de Nova Iorque.
Em Agosto de 1949 Jijé apresenta a Morris um francês,
criado na Argentina, que coloria cartas postais, um tal…René Goscinny.
Morris e Goscinny tornam-se amigos inseparáveis, onde
se juntavam na apartamento do primeiro para ver combate de box na televisão.
Contudo, só em 1955 é que Goscinny inicia a sua colaboração com Morris na série
Lucky Luke, assunto ao qual voltaremos mais à frente.
Duranta essa estadia nova-iorquina, Morris deslocava-se
regularmente à Biblioteca Municipal da cidade para consultar livros e
documentos sobre o Far West, frequenta salas de cinema especializadas no cinema
de animação.
Através de Goscinny conhece os futuros criadores da
revista MAD, Jack Davis, William Elder e Harvey Kurtzman, passando a ser visita
habitual do estúdio deste último.
Este contacto com os autores da revista Mad vai
influenciar a obra de Morris, nomeadamente na simplificação gráfica, na
expressividade no trato e num uso mais cuidado da paródia gráfica, influencia
notória na aventura “L’Elixir du docteur Doxey”, publicada na revista Spirou
partir e 11 de Fevereiro de 1953.
Durante essa estadia casa-se com Francine em 1952 e,
em 1955, regressa à Bélgica.
Goscinny entra em cena
Como vimos anteriormente, Morris e Goscinny
conheceram-se nos Estados Unidos e tornaram-se amigos inseparáveis.
Goscinny chegou a ser convidado para padrinho de
casamento de Morris em 1952, mas foi impedido pela lei norte-americana pelo
facto de ser judeu e o casamento ser católico.
A sua colaboração com Morris na série Lucky Luke
começou em 1954, na elaboração do argumento da aventura “Des rails sur la
prairie”, publicada na revista Spirou a partir de 25 de Agosto de 1955. Essa
colaboração começou com Morris ainda a viver nos Estados Unidos e Goscinny em
França, muito trabalho feito por correspondência, correspondência que continuou
como principal forma de contacto entre ambos depois de Morris regressar à
Bélgica, em 1955.
Nas primeiras histórias que originaram dessa
colaboração não aparece ainda a
assinatura de Goscinny. Só após ter colaborado como argumentista em 9 aventuras
é que, finalmente, apareceu a assinatura de René Goscinny como argumentista.
Foi na aventura “Les Rivais de Painful Galch”, publicada na revista Spirou a
partir de 5 de Janeiro de 1961.
Em alguns dos álbuns anteriores já aparecia a referência
à colaboração, ao lado de Morris, de um misterioso R.G., as iniciais do
argumentista que levantaram muita especulação sobre o quem se escondia por
detrás dessas iniciais. Houve quem aventasse a hipótese de essas iniciais
esconderem uma colaboração de Hergé, que já tinha assinado alguns trabalhos
seus com iniciais idênticas.
O aparecimento de Goscinny como coautor da série foi
uma conquista importante para a época, dado que, muitas vezes, o habitual era
aparecer apenas o nome do desenhador, sem referência a outros colaboradores no
argumento.
Para Goscinny, a colaboração com Morris foi o seu
primeiro trabalho de fôlego como argumentista, ainda antes de outras
colaborações importantes com Uderzo, em Oumpah-pah, em 1958, e em Astérix a
partir de 1959, com Sempé em Petit Nicolas, também a partir desse ano, ou com
Tabary em Iznogoud a partir de 1962.
A colaboração a Goscinny por essa parceria era paga
directamente por Morris, numa base de 1/3 para o argumentista e 2/3 para o
desenhador.
Goscinny surgiu na série numa altura em que esta
perdia algum fulgor e originalidade, havendo quem afirme que, se esse
argumentista não tivesse aparecido, a séria não teria sobrevivido muito mais
tempo.
Os argumentos de Goscinny viveram dar uma nova
dinâmica à série, baseando-se na realidade da riqueza histórica do Oeste, ponto
de partida de todas as aventuras por si escritas, sempre com uma preocupação
documental, usando sistematicamente todas as lendas, figuras e conquistas, dando-lhes
uma volta fortemente irónica nos diálogos e argumentos mais sólidos.
Algumas das personagens mais icónicas da série, de
Rantanplan, aos Primos Dalton, de Calamity Jane a Billy the Kid, entre outras,
muitas baseadas em figuras reais da mitologia do Oeste norte-americano, foram
introduzidas por Goscinny, que lhe deu características psicológicas muito
próprias e sólidas.
Goscinny, tardiamente reconhecido pela Dupuis, a
primeira editora da série e da revista Spirou, reconhece a importância de
Goscinny na série, que entretanto conseguiu que Lucky Luke deixasse a revista
Spirou para começar a ser publicada na revista Pilote, dirigida por Goscinny,
onde este tinha um lugar de destaque como argumentista da série Astérix.
Essa transferência deu-se em 1968, onde a aventura de
Lucky Luke “Dalton City” começa a ser publicada em 4 de Abril desse ano.
Em 1971 os dois amigos lançam-se no cinema de
animação, o velho sonho de Morris, com a primeira longa metragem da série
produzida pela Belvision, “Daisy Town”. Pouco tempo depois Goscinny cria com
Uderzo uma produtora independente de cinema de animação, a “Ideafix”, que
produz o segundo filme de animação da série “La Ballade des Dalton”, que faz a
síntese de vária aventuras da série, e que será estreado em 1978, postumamente
à morte de Goscinny ocorrida no ano anterior.
Esse ano de 1977 foi um ano de grandes conflitos entre
Goscinny e a Dargaud, editor da revista Pilote, que chega às barras do
tribunal. Goscinny chega a pedir a Uderzo para, em solidariedade, deixar de
desenhar a aventura de Asterix que estavam a produzir, “Astérix entre os
Belgas”, pedido a que Uderzo acedeu. Tendo feito o mesmo pedido a Morris, que
estava a desenhar “O Fio que Canta”, este ignorou o pedido do amigo e
prosseguiu a preparação da edição em álbum dessa aventura a produzir pela
Dargaud.
Esse conflito foi violentamente interrompido com o
falecimento de Goscinny, de ataque cardíaco em 5 de Novembro de 1977.
Aquelas duas aventuras, de Asterix e Lucky Luke, a do
primeiro a título póstumo, foram as duas últimas escritas por Goscinny.
Breve evocação de Goscinny e do seu
percurso
René Goscinny nasceu em Paris em 14 de Agosto de 1926,
mas acompanhou os pais, judeus de origem ucraniana, a mãe, e polaca, o
pai, na sua emigração para a Argentina,
onde viveu até 1945, quando foi viver para Nova Iorque, junto de um tio, devido ao falecimento do
pai. Sendo incorporado na armada americana, partiu para França, mas sem nunca
ter entrado em combate. Regressado aos Estados Unidos, conheceu alguns dos mais
importantes desenhadores que estiveram na origem da criação da revista MAD em
1952, entre eles Hervey Kurtzman.
Conheceu também, na ocasião, dois dos mais importantes
autores da BD franco belga, Jijé, um dos desenhadores da série Spirou, e
Morris, o criador de Lukcy Luke, que por essa altura viveram algum tempo em
Nova Iorque. Estes apresentam-no a Georges Troisfontaine, director da agência
World’s Press, uma agência belga especializada na divulgação de BD. Goscinny
resolve ir a Bruxelas apresentar o seu trabalho, como desenhador, nesta
agência, que o ignora. Apesar disso Troisfontaine entrega-lhe a
responsabilidade pela sede da agência em Paris. É então que Jean_Michel Charlier, criador da série
Tenente Blueberry, o põe em contacto com o meio da banda desenhada
franco-belga, onde conhece Albert Uderzo, com quem inicia uma profícua
colaboração.
Desistindo em definitivo de se dedicar ao
desenho, inicia-se, em 1952, como argumentista da série “As Belas
Histórias do Tio Paul”, desenhada por Pierre Dupuis e Eddy Paape, e, a partir
de 1955, com o seu amigo Morris, nos
argumentos de algumas das mais interessantes aventuras de Lucky Luke,
publicadas na revista Spirou.
“Des Rails sur la Prairie”, foi a primeira aventura
com o seu argumento, embora a sua autoria só fosse assumida mais de 9 aventuras
depois . Foi responsável pelos argumentos de mais de 40 títulos da série, e
pela criação de algumas das mais icónicas personagens da série com Calamity
Jane e os Primos Dalton. A ele também se
deve a célebre frase do herói da série, “o homem que dispara mais rápido que a
sua própria sombra”.
Em 1952 começou a colaborar com Uderzo na série Jehan Pistolet e Luc Junior. Em 1955
escreve e desenha a “Le capitaine
Bibodou” para o efémero semanário “Risque-Tout”, editado pela Dupuis, com a
intenção de lançar novos autores a integrar no futuro na revista Spirou. Em
1956 cria outra das suas séries de
marca, “Le Petit Nicolas”, desenhada por Sempé para a revita Le Moustique. Colabora esporadicamente com Jijé, em 1956,
na série Jerry Spring, no episódio “L’or du vieux Lender”.
Em 1956 entra para a revista TinTin, sendo responsável
pelos argumentos de várias séries e histórias, entre elas o “Senhor Spaghetti”
de Dino Attanasio, Monsieur Tric, com Bob De Moor, Prudence Petipas, com
Maurice Maréchal, Modeste e Pompom de Franquin, num episódio de Chick Bill, com
Tibet, Le Pére La Houl, com Macherot, Srampontin com Berck e, com Uderzo,
criando a série Humpá-pá, que vai ser uma espécie de ensaio geral de Astérix.
Nesse momento de grande criatividade, colabora em
revistas como Paris-Flirt (com Will). Jour de France (com Coce) e com Godard,
na revista de BD francesa, ligada ao Partido Comunista, Vaillant, antecessora da revista PIF.
Juntamente com Uderzo e outros jovens autores,
lança-se em 1959 na aventura da criação de revista francesa Pilote, para a qual criam Ásterix, que inicia a sua
longa vida na 1ª edição dessa revista editada em 29 de Outubro de 1959.
Nessa revista, que vai colocar a BD num novo patamar
qualitativo, retoma antigas personagens como Pistolin (1959), Le Petit Nicolas
(1959) e Johan Soupolet (1960).
Quando se torna chefe de redacção da revista, lança
uma nova e criativa geração de autores, colaborando como argumentista com
alguns deles, como Martial em “Les Divagations de Monsieur Sait-Tout”, em 1961,
Gotlib em Les Dingodossiers, em 1965, ou Mic Delinx em La Forêt de Chênebrau,
em 1966. Uma das grandes novidades e conquistas que conseguiu para o prestígio
da revista foi ter “roubado” à revista Spirou a série Lukcky Luke que
desenvolvia há mais de uma década nesse semanário belga em coautoria com
Morris. A primeira aventura de Lucky Luke publicada nas páginas de Pilote, em 4
de Abril de 1968, foi “Dalton City”.
Continua a colaborar noutras séries publicadas noutras
revistas como no argumento do Califa Haroum et Poussaha, desenhado por Jean
Tabary, para o mensário Record, série esta que tem o célebre Vizir Iznogoud
como personagem icónica.
Contestado por vários jovens autores na sequência do
Maio de 1968, e depois de uma saída em massa de vários deles para fundarem
outras revistas icónica das BD francesa, como Charlie Hebdo, L’Echo des
Savannes ou Fluide Glacial, acabou por sair da revista, dedicando-se ao cinema
de animação e à série Ásterix, criando o Estúdio Idéfix, contribuindo para
relançar a animação francesa, ao mesmo tempo que lança, com Uderzo a sua
própria casa editorial
Na sequência de uma prova de esforço, recomendada pelo
seu cardiologista, acaba por morrer de ataque cardíaco em 5 de Novembro de
1977, aos 51 anos, tendo deixado pronto o argumento para mais uma aventura de
Asterix, “Astérix entre os Belgas”, que só foi publicada em 1979, a última
aventura do irredutível gaulês, num total de 24, que contou com o seu
argumento.
Principais Características da série Lucky
Luke
O desenho animado e os Western’s foram as paixões de
Morris na sua infância e juventude.
Ao criar Lucky Luke baseou-se muito nessas suas
paixões, pois o objectivo de Morris era vir a tornar o seu herói em figura de
cinema de animação, género que foi a principal influência na forma como
desenhou e desenvolveu as primeiras histórias.
Para além da forma arredondada das primeiras figuras
do herói, sente-se a influência do cinema, procurando em Lucky Luke uma síntese
de clássicos como Gary Cooper, Tom Mix e James Stewart, seguindo o modelo
clássico do cowboy taciturno, grave e solitário.
Os temas recorrentes nas suas aventuras são os
clássicos do western, a corrida ao ouro, o combate contra os índios, a
construção do caminho de ferro, as novas cidades que crescem ao logo de uma rua
principal, acompanhando a conquista do Oeste, com o seu saloon, a sua prisão, o
seu comércio, a agência funerária, onde chegam as diligências, e identificadas
pelas suas placas, os primeiros jornais, os rodeos um oeste mítico reinventado
por Morris e, mais tarde, por Goscinny.
Um oeste que atrai todo o tipo de gente, do xerife ao
batoteiro, do pistoleiro, ao assaltante de bancos, do colono ao assaltante de
bancos e diligências, não faltando o “gato-pingado”.
Morris recorre a figuras reais da mitologia da
conquista do Oeste para recriar algumas das figura que preenchem o imaginário
dos leitores da série.
É toda uma galeria de personagens, muitas reais, de
primeiro ou segundo palno, mas recriadas pela imaginação dos autores, que
povoam a comédia humana retratada nas aventuras de Lucky Luke: Eliot Belt, Jack
le Muscle, Cole Younger, Dopey, Imperador Smith, Roy Bean, Jess James e o seu
irmão Franck, Dr. Otto Von Himbeergeist, Coron O’Nollan, Bronco Fortworth, reverando Sinclair Rawlwr, Calamity Jane,
Billy the Kid, Cass Casey, Pat Poker, Scott Thumbs, Denver Mills, Jack Ready,
Cayote Will, Jess Jamon, xerife Bill Boney, Allan Pinkerton, Black Bart, Belle
Star, Sarah Bernhardt, Annabelle Flimsey, os Dalton…
Não por acaso, esse é um universo quase totalmente
masculino. As figuras femininas ocupam um lugar secundário no universo de Lucky
Luke, em grande parte porque a editora Dupuis tolerava mal a presença do género
feminino nas suas publicações, a não ser exercendo funções tradicionais, muito
por causa da Lei de censura francesa de 1949.
Embora a censura Bélgica fosse muito benevolente, os
editores belgas que queriam entrar no grande mercado francês queriam evitar
problemas com a censura francesa e praticavam autocensura, sem esquecer o
espírito da época.
As coisas começara a mudar na década de 60 e, no caso
da série Lukcy Luke, por acção de Goscinny que, em Calimity Jane, de 1965, coloca
uma mulher em primeiro plano, ainda por cima rompendo com os estereótipos das heroínas
do oeste, simples bailarinas, prostitutas, elemento pacificador e frágil.
Calamity Jane, baseada numa personagem real, era todo o contrário, associada à
frase que lhe atribuíram de “nem prostituta, nem submissa”. Estava aberto o
caminho para uma presença mais forte do elemento feminino, de uma Lulu
Carabine, inspirada em Mae West, em “Dalton City” de 1968, a uma enérgica Ma
Dalton de 1970, sem esquecer um Sarah Bernhard na década de 80 do século
passado.
Entre o lote de personagens que se cruzam com Lucky
Luke, merecem especial destaque a família Dalton.
Os Dalton parecem pela primeira vez no álbum
“Hors-la-loi”, escrito e desenhado por Morris quando da sua presença nos
Estados Unidos, editado na revista Spirou a partir de 20 de Setembro de 1951.
Morris baseou-se nos verdadeiros Dalton, Grat, Bob, Bill e Emmet e no filme de
1940 que George Marshal lhes dedicou,”Whem the Daltons Rode”. No final morrem
todos, cena que está na origem de um acto de censura em relação à ultima pagina
da aventura, considerada muito violenta, e que o autor altera na edição em
álbum. Contudo a verdadeira história dos Dalton foi um pouco diferente daquela
imaginada por Morris.
A sua história é conhecida graças à descrição do
jornalista Eye Witness que publica em 1892, “Le gang des Dalton” e, mais tarde,
às memórias de Emmet Dalton, publicadas por volta de 1930.
Os verdadeiros Dalton eram filhos de Lewis Dalton,
trabalhador num bar, e de Adeline Younger, parente dos irmãos Younger que
faziam parte do bando de Jess James, outra figura que foi evocada na série
Lucky Luke, que viviam no Kansas. Os irmãos não eram só quatro, eram…15, dos
quais 3 faleceram em criança.
Em 1882 a
família deslocou-se para o sudoeste do Kansas. O pai, alcoólico, abandona a
família e os filhos ficam ao cuidado de uma mãe austera, que inculca uma
educação religiosa e rigorosa à sua prole.
Os irmãos mais velhos, Ben e Cole, obtêm diploma
universitário, Bill vai para a Califórnia e Frank torna-se marshal federal no
Arkansas desde 1881, sendo morto no exercício das suas funções, em 1887, por um
ladrão de cavalos.
Grat (Gratton) ocupa o lugar de xerife do irmão
assassinado, acompanhado pelos irmãos Emmet (então com16 anos) e Robert (Bob)
(então com 18 anos). Rapidamente estes três irmãos, “homens de lei”, são
acusados de abuso de autoridade e, em 1889, Bob assassina um
cowboy, Charlie Montgomery, por ter ousado fazer a corte a uma namorada. Devido
a esse caso, que retira a autoridade aos irmão, e ao atraso no pagamento das
suas funções, Grat e Bob entram na senda do crime, roubando cavalos e traficando
álcool em território indío.
Nasce assim o bando dos Dalton, ao qual se junta um
terceiro irmão, Emmet. Em 1890 Bill junta-se aos três irmãos e assaltam uma
sala do jogo em Silve City e posteriormente são acusados de um assalto a um
comboio e à morte do maquinista.
No dia 5 de Outubro de 1892 o bando ataca dois bancos
em Coffeyville, no Kansas, mas as coisas correm mal e, no confronto com as
autoridades, Grat e Bob são abatidos, juntamente com dois outros membros do
bando, Bill Powerr e Dick Breadwell.
Emmet, ferido com 21 balas no corpo, sobrevive e passa
14 anos na prisão. Libertado, casa com uma antiga namorada, Julia, torna-se
agente imobiliário, escreve as memórias do bando e trabalha no cinema,
desempenhando o seu próprio papel num filme de 1916, vivendo em Los Angeles até
morrer em 1937.
Voltando aos Dalton ficcionados por Morris, como vimos
este resolveu “matar” os 4 irmãos, Grat, Bob, Bill e Emmet. Mas esses
personagens causaram logo grande impacto junto dos leitores da série que
escreveram cartas a Morris descontentes com o desfecho. Quando, em 1954,
convida Goscinny para escrever os argumentos da série, pede-lhe que ressuscite
os Dalton. Goscinny resolve inventar uns primos que surgem para vingar a
“morte” dos “verdadeiros”.
É assim que aparecem os primos Dalton, Joe, Jack,
William e Averell, os vilões mais famosos da série e que vão aparecer o título
de mais de vinte álbuns da série e, com menos destaque, noutros tantos álbuns.
O facto de estes Dalton terem sido totalmente
reinventados permite uma liberdade de argumeto e imaginação que os tornam quase
tão famosos como Lucky Luke.
Os primos surgem pela primeira vez, num papel
secundário, em 1956 na história “Lucky Luke contra Jess Jamon”, surgindo no
papel principal na aventura seguinte, nesse mesmo ano, “Os Primos Dalton”.
Duas outras figuras da família Dalton vão aparecer na
série. “Ma Dalton”, de 1971, figura baseada na mãe dos verdadeiros Dalton,
Adele Dalton, descrita no livro de memórias de Emmettt “Nous les Dalton..” e
“Marcel Dalton”, álbum de 1998,um Dalton honesto imaginado pelo argumentista
Bob de Groot, um dos substitutos de Goscinny na construção de argumentos para a
série, tomando por base um dos Dalton que enveredou pelo mundo do crime, o
xerife Frank Dalton.
Associado ao aparecimento dos primos Dalton urge outro
personagem icónico da série, o cão RanTanPlan, o “cão mais estúpido do Oeste”,
verdadeira alma gémea do Dalton Avarell.
RanTanPlan surge pela primeira vez em “Sur La Pista
des Dalton”, em 1961 e foi pensado como uma paródia a RiTinTin, o cão vedeta de
uma série televisiva alemã.
O êxito desse personagem tona-o o herói principal do
álbum L’Héritage de RanTanPalan, de 1973, tornando-se depois personagem
principal de uma série publicada entre 1987 e 2011. Em 2006 as suas aventuras
para ao cinema de animação.
Em contraponto com a sua estupidez, está Jolly Jumper,
o cavalo de Lucky Luke que acompanha o herói desde a sua primeira aparição.
Começa a ter uma intervenção própria na série a partir
do 10º álbum, “Alerte aux Pieds-Bleu” , passando a falar regularmente na
história “Sur la Pista des Dalton”, embora tenha aparecido a falar pela
primeira vez numa cena de “La Mine d’or de Dick Digger”, em 1947, mas que não
aparece no álbum onde é publicada a mesma aventura.
É o contraponto de RanTanPlan, na inteligência e nas
capacidades.
Morris faleceu em 16 de Julho de 2001, saindo poucos
meses depois, a título póstumo, o 71º álbum da série, “A Lenda do Oeste”.
Ao contrário de outros heróis, que “morreram” com o
autor, Lucky Luke continua as suas aventuras.
(este texto é um esboço para um texto mais completo a
ser publicado na edição do fanzine Impulso programado para ser editado em Maio
de 2027)
.
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