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Fanzine de Banda Desenhada e Cartoon´s
terça-feira, 13 de outubro de 2026
sábado, 10 de outubro de 2026
Lucky Luke -80 anos a disparar mais rápido que a própria sombra
“Lucky Luke é toda a história do Oeste, a única autêntica aventura dos temos modernos”
René Goscinny
O “Nascimento” de Lucky Luke
O famoso cowboy Lucky e Luke completou 80 anos de vida
em Outubro de 2026, tendo surgiu pela primeira vez nas páginas da edição
francesa da revista Spirou em 10 de Outubro de 1946.
Essa primeira aventura intitulou-se “Arizona 1880”,
uma aventura de 22 páginas e que voltou a ser editada na Bélgica no L’Almanach
Spirou 1947, editado em 7 de Dezembro de 1946.
Lucky Luke só aparece nessa aventura na terceira
página e a sua figura é muito diferente daquela que geralmente conhecemos,
acompanhado do inseparável cavalo Jolly Jumper.
As figuras e o ritmo dessa primeira aventura são ainda
muito influenciados pela actividade anterior do autor dessa série, que tinha
trabalhado num estúdio de cinema de animação: figuras arredondadas, ao estilo
de Mickey ou Popey, com mãos de 4 dedos, um ritmo truculento, muito dinâmico,
com poucas palavras.
O primeiro herói da série é um miúdo, Tom, que pede
ajuda a Lucky Luke para salvar o pai, preso por baixo de uma diligência que
caiu, depois de ser assaltada. Nesta aventura surge também o primeiro de uma
longa lista de vilões, Big Billy, um batoteiro e assaltante de diligências.
A cena final já anuncia a imagem icónica que termina
todas as aventuras da série, Lucky Luke caminhando em direcção a um sol que põe
no horizonte, nesta primeira aventura tocando uma harmónica.
Nada fazia prever o enorme êxito dessa série, a mais
vendida e editada na Banda Desenhada franco-belga, muito à frente de Asterix ou
Tintim.
Morris (Maurice de Bevere)
O criado da série nasceu em Courtrai, na região
flamenga da Bélgica, no dia 1 de Dezembro de 1923, 2º filho de um industrial
local, fabricante de cachimbos em cerâmica importada da Alemanha.
Após ter frequentado as primeira letras, Maurice foi
estudar para um colégio particular católico dirigido por jesuítas em Alast, a
16 Km da sua terra natal.
Paras e descontrair e fugir do ambiente austero do
colégio desenhava imenso nos cadernos escolares, onde caricaturava colegas e
professores.
Ao estudar o texto “A Guerra das Gálias” de Júlio
César na disciplina de humanidades greco-latinas, ilustrou todo esse texto
desenhando, como alguém diria, “Asterix antes do tempo”.
Por essa altura assinou ao Petit Vingtieme, em cujas
páginas ficou a conhecer as aventuras de Tintin, tendo copiado, página a
página, o “TinTin no País dos Soviets”.
Assinava igualmente a revista Mickey Mouse Weekly,
através de cuja leitura aprendeu, como autodidacta, o inglês.
Apreciava também a obra de Marijac, um desenhador
francês muito importante ante da guerra, criador da série Jim Boum, as
aventuras de um cowboy.
Durante esse período de infância e juventude era
frequentador habitual das sessões de cinema em Courtai, especialmente os
Western’s e o cinema de animação, ficando-lhe na memória a exibição, em 1937,
do filme de Disney “Branca de Neve e os Sete Anões”.
Esses primeiros Western’s a que assitiu inicialmente
eram mudos, depois eram cantados por cowboys acompanhados por guitarras.
Tinha um projector em casa, o que lhe permitiu ver
filmes mudos, curtas metragens e desenhos animados, que ele esmiuçava, plano a
plano, familiarizando-se assim com as técnicas de animação.
A caricatura foi um das suas primeiras actividades,
muito por influência do pai que decorava os seus cachimbos com caricaturas de
personalidades da época e, em 1939, Maurice, então com 15 anos, começou a
colaborar na revista do colégio “Jong Leven” onde publicou caricaturas.
Em 10 de Maio de 1940 a Bélgica é invadida pelos
alemães, que bombardeiam o colégio, do qual tem de fugir. Segue-se um período
de penúria e falta de alimentos. Em 1942 os alemães instauram o trabalho
obrigatório nas fábricas alemãs.
Para escapar ao trabalho forçado na Alemanha, Maurice
inscreve-se na Universidade de Luvaine para estudar direito, mas, no início de
1944, é requisitado pelos alemães para trabalhar numa cadeia de montagem numa
metalúrgica em Marcke, perto da sua cidade Natal, onde trabalha cerca de 8
meses, até à libertação.
De forma clandestina publicou, em Outubro de 1944, um
cartoon no boletim do núcleo da resistência de Courtai.
No final da guerra inscreve-se num curso de cinema de
animação por correspondência, dirigido pelo desenhador francês Jean Image.
Em Março de 1945 responde a um anuncio de trabalho num
estúdio de cinema de animação em Bruxelas, CBA (Companhia Belga de
actualidades). Esse estúdio produzia páginas de actualidades para passar nos
cinemas e que se lançou no cinema de animação durante a guerra para substituir
a produção norte-americana, proibida durante a ocupação nazi. A sua experiência
nesse estúdio foi de curta duração, pois a CBA faliu pouco depois da sua
entrada. Contudo, nessa curta experiência, conheceu alguns amigos para a vida,
que também fizeram carreira na BD, como
Eddy Paape, Franquin ou Peyo.
No outono de 1945 procurou trabalho na editora Dupuis,
que editava as revistas Le Moustique e Spirou , para as quais realiza desenhos e ilustrações,
nomeadamente caricaturas de actores de cinema.
Já tendo esboçado a figura de um cowboy para os
estúdios CBA, acaba por apresentar um projecto de BD com um cowboy como herói,
nascendo assim Lucky Luke.
Ainda longe de calcular o êxito dessa personagem,
começa a colaborar regularmente na revista Spirou. A partir de 1947 vai viver,
juntamente com Franquin e Will, na casa de Jijé em Waterloo. Não tendo
frequentado uma escola de arte, sendo um autodidacta, Morris confessou mais
tarde que aprendeu muito no estúdio de Jijé.
O Período Americano
Temendo um novo conflito mundial, que seria nuclear,
Jijé consegue convencer Franquin e Morris a acompanhá-lo numa viagem para os
Estados Unidos.
Morris alinha por se sentir atraído por poder conhecer
o ambiente do Oeste americano e devido à admiração que nutria pelo cinema de
animação desse país, sonhando fazer carreira nesse meio.
Morris, Franquin, Jijé, a esposa deste Annie Gillan e
os seus quatro filhos, Benoit, o mais velho de 10 anos, Anne, Philippe e
Dominique, esta ainda bébé, partem de barco de Roterdão a caminho dos Estados
Unidos em 3 de Agosto de 1948.
Morris era o único a dominar o inglês e vai servir de
interprete do grupo.
Essa aventura serviu de base a uma banda desenhada
editada em 2012, “Gringos Locos”, da autori de Yann e Schwartz, que devia ser
publicada em dois volumes, mas, por oposição da família dos autores
caricaturados, acabou por ser suspensa. O segundo volume devia intitular-se
“Crazy Belgium”. Deste apenas foram elaboradas 7 pranchas.
Chegados a Nova Iorque, passaram uma semana num hotel
de Times Squares, à espera que Jijé obtivesse uma autorização de condução para
viajarem para Oeste até ao México. Finalmente aduirida a dita autorização, Jijé
adquiriu uma Hudson Commmodore, modelo de1946, que acomodou 4 adultos, 3
crianças, 1 bébé, bagagem e material de campismo.
Partindo de Nova Iorque, tendo S. Francisco como
destino, passaram por Saint Louis, Oklahoma City, Grand Canyon…3 semanas “on
the road”.
Na passagem para o México enfrentaram alguns
problemas, apenas tendo conseguido passar a fronteira a família Gillain, que se
estabeleceram em Tijuana. Finalmente, algumas semanas mais tarde, Franquin e
Morris conseguiram juntar-se à família de Jijé, partindo para a Cidade do
México, onde passaram o Natal de 1948. Na capital mexicana Franquin e Morris
instalaram-se no hotel Bayona.
Ao longo desse tempo Morris preparou vários episódios
de Lucky Luke para enviar para a revista Spirou. Foi desse período a elaboração
de “Le Rue vers l’or de Buffalo Creack”, uma história de 18 páginas que começou
a ser publicada a partir de 24 de Fevereiro de 1949 e “Lucky Luke contra
Cigarrette Caesar”, editada a partir de 30 de Junho de 1949, esta ultima muito
influenciado pelo ambiente mexicano.
As pranchas originais eram enviadas para a Bélgica por
correio aéreo e, para poupar no preço do envio, Morris recorreu a uma fórmula
rara, desenhando dos dois lados da mesma prancha.
Em Abril os vistos mexicanos de Franquin e Morris
expiraram, regressando ambos a Nova Iorque, via Chicago.
Partindo de Nova Iorque, Franquin regressou à Europa.
Morris ficou sozinho nessa cidade, onde permaneceu
mais 6 anos e foi viver para um apartamento em Manhattan, num 16º andar da West
End Avenue.
Aí estabelecido, inscreveu-se numa escola de artes e
foi mostrar os seus desenhos no estúdio de Fred Ottenheimer, autor da série
From Hero To Insanity, realizando ilustrações não assinadas para comic-books e
livros infantis, ao mesmo tempo que continuava a desenhar a série Lucky Luke.
Regressando do México, a família de Jijé instalou-se
em Wilton, uma vila do Connecticul, próxima de Nova Iorque.
Em Agosto de 1949 Jijé apresenta a Morris um francês,
criado na Argentina, que coloria cartas postais, um tal…René Goscinny.
Morris e Goscinny tornam-se amigos inseparáveis, onde
se juntavam na apartamento do primeiro para ver combate de box na televisão.
Contudo, só em 1955 é que Goscinny inicia a sua colaboração com Morris na série
Lucky Luke, assunto ao qual voltaremos mais à frente.
Duranta essa estadia nova-iorquina, Morris deslocava-se
regularmente à Biblioteca Municipal da cidade para consultar livros e
documentos sobre o Far West, frequenta salas de cinema especializadas no cinema
de animação.
Através de Goscinny conhece os futuros criadores da
revista MAD, Jack Davis, William Elder e Harvey Kurtzman, passando a ser visita
habitual do estúdio deste último.
Este contacto com os autores da revista Mad vai
influenciar a obra de Morris, nomeadamente na simplificação gráfica, na
expressividade no trato e num uso mais cuidado da paródia gráfica, influencia
notória na aventura “L’Elixir du docteur Doxey”, publicada na revista Spirou
partir e 11 de Fevereiro de 1953.
Durante essa estadia casa-se com Francine em 1952 e,
em 1955, regressa à Bélgica.
Goscinny entra em cena
Como vimos anteriormente, Morris e Goscinny
conheceram-se nos Estados Unidos e tornaram-se amigos inseparáveis.
Goscinny chegou a ser convidado para padrinho de
casamento de Morris em 1952, mas foi impedido pela lei norte-americana pelo
facto de ser judeu e o casamento ser católico.
A sua colaboração com Morris na série Lucky Luke
começou em 1954, na elaboração do argumento da aventura “Des rails sur la
prairie”, publicada na revista Spirou a partir de 25 de Agosto de 1955. Essa
colaboração começou com Morris ainda a viver nos Estados Unidos e Goscinny em
França, muito trabalho feito por correspondência, correspondência que continuou
como principal forma de contacto entre ambos depois de Morris regressar à
Bélgica, em 1955.
Nas primeiras histórias que originaram dessa
colaboração não aparece ainda a
assinatura de Goscinny. Só após ter colaborado como argumentista em 9 aventuras
é que, finalmente, apareceu a assinatura de René Goscinny como argumentista.
Foi na aventura “Les Rivais de Painful Galch”, publicada na revista Spirou a
partir de 5 de Janeiro de 1961.
Em alguns dos álbuns anteriores já aparecia a referência
à colaboração, ao lado de Morris, de um misterioso R.G., as iniciais do
argumentista que levantaram muita especulação sobre o quem se escondia por
detrás dessas iniciais. Houve quem aventasse a hipótese de essas iniciais
esconderem uma colaboração de Hergé, que já tinha assinado alguns trabalhos
seus com iniciais idênticas.
O aparecimento de Goscinny como coautor da série foi
uma conquista importante para a época, dado que, muitas vezes, o habitual era
aparecer apenas o nome do desenhador, sem referência a outros colaboradores no
argumento.
Para Goscinny, a colaboração com Morris foi o seu
primeiro trabalho de fôlego como argumentista, ainda antes de outras
colaborações importantes com Uderzo, em Oumpah-pah, em 1958, e em Astérix a
partir de 1959, com Sempé em Petit Nicolas, também a partir desse ano, ou com
Tabary em Iznogoud a partir de 1962.
A colaboração a Goscinny por essa parceria era paga
directamente por Morris, numa base de 1/3 para o argumentista e 2/3 para o
desenhador.
Goscinny surgiu na série numa altura em que esta
perdia algum fulgor e originalidade, havendo quem afirme que, se esse
argumentista não tivesse aparecido, a séria não teria sobrevivido muito mais
tempo.
Os argumentos de Goscinny viveram dar uma nova
dinâmica à série, baseando-se na realidade da riqueza histórica do Oeste, ponto
de partida de todas as aventuras por si escritas, sempre com uma preocupação
documental, usando sistematicamente todas as lendas, figuras e conquistas, dando-lhes
uma volta fortemente irónica nos diálogos e argumentos mais sólidos.
Algumas das personagens mais icónicas da série, de
Rantanplan, aos Primos Dalton, de Calamity Jane a Billy the Kid, entre outras,
muitas baseadas em figuras reais da mitologia do Oeste norte-americano, foram
introduzidas por Goscinny, que lhe deu características psicológicas muito
próprias e sólidas.
Goscinny, tardiamente reconhecido pela Dupuis, a
primeira editora da série e da revista Spirou, reconhece a importância de
Goscinny na série, que entretanto conseguiu que Lucky Luke deixasse a revista
Spirou para começar a ser publicada na revista Pilote, dirigida por Goscinny,
onde este tinha um lugar de destaque como argumentista da série Astérix.
Essa transferência deu-se em 1968, onde a aventura de
Lucky Luke “Dalton City” começa a ser publicada em 4 de Abril desse ano.
Em 1971 os dois amigos lançam-se no cinema de
animação, o velho sonho de Morris, com a primeira longa metragem da série
produzida pela Belvision, “Daisy Town”. Pouco tempo depois Goscinny cria com
Uderzo uma produtora independente de cinema de animação, a “Ideafix”, que
produz o segundo filme de animação da série “La Ballade des Dalton”, que faz a
síntese de vária aventuras da série, e que será estreado em 1978, postumamente
à morte de Goscinny ocorrida no ano anterior.
Esse ano de 1977 foi um ano de grandes conflitos entre
Goscinny e a Dargaud, editor da revista Pilote, que chega às barras do
tribunal. Goscinny chega a pedir a Uderzo para, em solidariedade, deixar de
desenhar a aventura de Asterix que estavam a produzir, “Astérix entre os
Belgas”, pedido a que Uderzo acedeu. Tendo feito o mesmo pedido a Morris, que
estava a desenhar “O Fio que Canta”, este ignorou o pedido do amigo e
prosseguiu a preparação da edição em álbum dessa aventura a produzir pela
Dargaud.
Esse conflito foi violentamente interrompido com o
falecimento de Goscinny, de ataque cardíaco em 5 de Novembro de 1977.
Aquelas duas aventuras, de Asterix e Lucky Luke, a do
primeiro a título póstumo, foram as duas últimas escritas por Goscinny.
Breve evocação de Goscinny e do seu
percurso
René Goscinny nasceu em Paris em 14 de Agosto de 1926,
mas acompanhou os pais, judeus de origem ucraniana, a mãe, e polaca, o
pai, na sua emigração para a Argentina,
onde viveu até 1945, quando foi viver para Nova Iorque, junto de um tio, devido ao falecimento do
pai. Sendo incorporado na armada americana, partiu para França, mas sem nunca
ter entrado em combate. Regressado aos Estados Unidos, conheceu alguns dos mais
importantes desenhadores que estiveram na origem da criação da revista MAD em
1952, entre eles Hervey Kurtzman.
Conheceu também, na ocasião, dois dos mais importantes
autores da BD franco belga, Jijé, um dos desenhadores da série Spirou, e
Morris, o criador de Lukcy Luke, que por essa altura viveram algum tempo em
Nova Iorque. Estes apresentam-no a Georges Troisfontaine, director da agência
World’s Press, uma agência belga especializada na divulgação de BD. Goscinny
resolve ir a Bruxelas apresentar o seu trabalho, como desenhador, nesta
agência, que o ignora. Apesar disso Troisfontaine entrega-lhe a
responsabilidade pela sede da agência em Paris. É então que Jean_Michel Charlier, criador da série
Tenente Blueberry, o põe em contacto com o meio da banda desenhada
franco-belga, onde conhece Albert Uderzo, com quem inicia uma profícua
colaboração.
Desistindo em definitivo de se dedicar ao
desenho, inicia-se, em 1952, como argumentista da série “As Belas
Histórias do Tio Paul”, desenhada por Pierre Dupuis e Eddy Paape, e, a partir
de 1955, com o seu amigo Morris, nos
argumentos de algumas das mais interessantes aventuras de Lucky Luke,
publicadas na revista Spirou.
“Des Rails sur la Prairie”, foi a primeira aventura
com o seu argumento, embora a sua autoria só fosse assumida mais de 9 aventuras
depois . Foi responsável pelos argumentos de mais de 40 títulos da série, e
pela criação de algumas das mais icónicas personagens da série com Calamity
Jane e os Primos Dalton. A ele também se
deve a célebre frase do herói da série, “o homem que dispara mais rápido que a
sua própria sombra”.
Em 1952 começou a colaborar com Uderzo na série Jehan Pistolet e Luc Junior. Em 1955
escreve e desenha a “Le capitaine
Bibodou” para o efémero semanário “Risque-Tout”, editado pela Dupuis, com a
intenção de lançar novos autores a integrar no futuro na revista Spirou. Em
1956 cria outra das suas séries de
marca, “Le Petit Nicolas”, desenhada por Sempé para a revita Le Moustique. Colabora esporadicamente com Jijé, em 1956,
na série Jerry Spring, no episódio “L’or du vieux Lender”.
Em 1956 entra para a revista TinTin, sendo responsável
pelos argumentos de várias séries e histórias, entre elas o “Senhor Spaghetti”
de Dino Attanasio, Monsieur Tric, com Bob De Moor, Prudence Petipas, com
Maurice Maréchal, Modeste e Pompom de Franquin, num episódio de Chick Bill, com
Tibet, Le Pére La Houl, com Macherot, Srampontin com Berck e, com Uderzo,
criando a série Humpá-pá, que vai ser uma espécie de ensaio geral de Astérix.
Nesse momento de grande criatividade, colabora em
revistas como Paris-Flirt (com Will). Jour de France (com Coce) e com Godard,
na revista de BD francesa, ligada ao Partido Comunista, Vaillant, antecessora da revista PIF.
Juntamente com Uderzo e outros jovens autores,
lança-se em 1959 na aventura da criação de revista francesa Pilote, para a qual criam Ásterix, que inicia a sua
longa vida na 1ª edição dessa revista editada em 29 de Outubro de 1959.
Nessa revista, que vai colocar a BD num novo patamar
qualitativo, retoma antigas personagens como Pistolin (1959), Le Petit Nicolas
(1959) e Johan Soupolet (1960).
Quando se torna chefe de redacção da revista, lança
uma nova e criativa geração de autores, colaborando como argumentista com
alguns deles, como Martial em “Les Divagations de Monsieur Sait-Tout”, em 1961,
Gotlib em Les Dingodossiers, em 1965, ou Mic Delinx em La Forêt de Chênebrau,
em 1966. Uma das grandes novidades e conquistas que conseguiu para o prestígio
da revista foi ter “roubado” à revista Spirou a série Lukcky Luke que
desenvolvia há mais de uma década nesse semanário belga em coautoria com
Morris. A primeira aventura de Lucky Luke publicada nas páginas de Pilote, em 4
de Abril de 1968, foi “Dalton City”.
Continua a colaborar noutras séries publicadas noutras
revistas como no argumento do Califa Haroum et Poussaha, desenhado por Jean
Tabary, para o mensário Record, série esta que tem o célebre Vizir Iznogoud
como personagem icónica.
Contestado por vários jovens autores na sequência do
Maio de 1968, e depois de uma saída em massa de vários deles para fundarem
outras revistas icónica das BD francesa, como Charlie Hebdo, L’Echo des
Savannes ou Fluide Glacial, acabou por sair da revista, dedicando-se ao cinema
de animação e à série Ásterix, criando o Estúdio Idéfix, contribuindo para
relançar a animação francesa, ao mesmo tempo que lança, com Uderzo a sua
própria casa editorial
Na sequência de uma prova de esforço, recomendada pelo
seu cardiologista, acaba por morrer de ataque cardíaco em 5 de Novembro de
1977, aos 51 anos, tendo deixado pronto o argumento para mais uma aventura de
Asterix, “Astérix entre os Belgas”, que só foi publicada em 1979, a última
aventura do irredutível gaulês, num total de 24, que contou com o seu
argumento.
Principais Características da série Lucky
Luke
O desenho animado e os Western’s foram as paixões de
Morris na sua infância e juventude.
Ao criar Lucky Luke baseou-se muito nessas suas
paixões, pois o objectivo de Morris era vir a tornar o seu herói em figura de
cinema de animação, género que foi a principal influência na forma como
desenhou e desenvolveu as primeiras histórias.
Para além da forma arredondada das primeiras figuras
do herói, sente-se a influência do cinema, procurando em Lucky Luke uma síntese
de clássicos como Gary Cooper, Tom Mix e James Stewart, seguindo o modelo
clássico do cowboy taciturno, grave e solitário.
Os temas recorrentes nas suas aventuras são os
clássicos do western, a corrida ao ouro, o combate contra os índios, a
construção do caminho de ferro, as novas cidades que crescem ao logo de uma rua
principal, acompanhando a conquista do Oeste, com o seu saloon, a sua prisão, o
seu comércio, a agência funerária, onde chegam as diligências, e identificadas
pelas suas placas, os primeiros jornais, os rodeos um oeste mítico reinventado
por Morris e, mais tarde, por Goscinny.
Um oeste que atrai todo o tipo de gente, do xerife ao
batoteiro, do pistoleiro, ao assaltante de bancos, do colono ao assaltante de
bancos e diligências, não faltando o “gato-pingado”.
Morris recorre a figuras reais da mitologia da
conquista do Oeste para recriar algumas das figura que preenchem o imaginário
dos leitores da série.
É toda uma galeria de personagens, muitas reais, de
primeiro ou segundo palno, mas recriadas pela imaginação dos autores, que
povoam a comédia humana retratada nas aventuras de Lucky Luke: Eliot Belt, Jack
le Muscle, Cole Younger, Dopey, Imperador Smith, Roy Bean, Jess James e o seu
irmão Franck, Dr. Otto Von Himbeergeist, Coron O’Nollan, Bronco Fortworth, reverando Sinclair Rawlwr, Calamity Jane,
Billy the Kid, Cass Casey, Pat Poker, Scott Thumbs, Denver Mills, Jack Ready,
Cayote Will, Jess Jamon, xerife Bill Boney, Allan Pinkerton, Black Bart, Belle
Star, Sarah Bernhardt, Annabelle Flimsey, os Dalton…
Não por acaso, esse é um universo quase totalmente
masculino. As figuras femininas ocupam um lugar secundário no universo de Lucky
Luke, em grande parte porque a editora Dupuis tolerava mal a presença do género
feminino nas suas publicações, a não ser exercendo funções tradicionais, muito
por causa da Lei de censura francesa de 1949.
Embora a censura Bélgica fosse muito benevolente, os
editores belgas que queriam entrar no grande mercado francês queriam evitar
problemas com a censura francesa e praticavam autocensura, sem esquecer o
espírito da época.
As coisas começara a mudar na década de 60 e, no caso
da série Lukcy Luke, por acção de Goscinny que, em Calimity Jane, de 1965, coloca
uma mulher em primeiro plano, ainda por cima rompendo com os estereótipos das heroínas
do oeste, simples bailarinas, prostitutas, elemento pacificador e frágil.
Calamity Jane, baseada numa personagem real, era todo o contrário, associada à
frase que lhe atribuíram de “nem prostituta, nem submissa”. Estava aberto o
caminho para uma presença mais forte do elemento feminino, de uma Lulu
Carabine, inspirada em Mae West, em “Dalton City” de 1968, a uma enérgica Ma
Dalton de 1970, sem esquecer um Sarah Bernhard na década de 80 do século
passado.
Entre o lote de personagens que se cruzam com Lucky
Luke, merecem especial destaque a família Dalton.
Os Dalton parecem pela primeira vez no álbum
“Hors-la-loi”, escrito e desenhado por Morris quando da sua presença nos
Estados Unidos, editado na revista Spirou a partir de 20 de Setembro de 1951.
Morris baseou-se nos verdadeiros Dalton, Grat, Bob, Bill e Emmet e no filme de
1940 que George Marshal lhes dedicou,”Whem the Daltons Rode”. No final morrem
todos, cena que está na origem de um acto de censura em relação à ultima pagina
da aventura, considerada muito violenta, e que o autor altera na edição em
álbum. Contudo a verdadeira história dos Dalton foi um pouco diferente daquela
imaginada por Morris.
A sua história é conhecida graças à descrição do
jornalista Eye Witness que publica em 1892, “Le gang des Dalton” e, mais tarde,
às memórias de Emmet Dalton, publicadas por volta de 1930.
Os verdadeiros Dalton eram filhos de Lewis Dalton,
trabalhador num bar, e de Adeline Younger, parente dos irmãos Younger que
faziam parte do bando de Jess James, outra figura que foi evocada na série
Lucky Luke, que viviam no Kansas. Os irmãos não eram só quatro, eram…15, dos
quais 3 faleceram em criança.
Em 1882 a
família deslocou-se para o sudoeste do Kansas. O pai, alcoólico, abandona a
família e os filhos ficam ao cuidado de uma mãe austera, que inculca uma
educação religiosa e rigorosa à sua prole.
Os irmãos mais velhos, Ben e Cole, obtêm diploma
universitário, Bill vai para a Califórnia e Frank torna-se marshal federal no
Arkansas desde 1881, sendo morto no exercício das suas funções, em 1887, por um
ladrão de cavalos.
Grat (Gratton) ocupa o lugar de xerife do irmão
assassinado, acompanhado pelos irmãos Emmet (então com16 anos) e Robert (Bob)
(então com 18 anos). Rapidamente estes três irmãos, “homens de lei”, são
acusados de abuso de autoridade e, em 1889, Bob assassina um
cowboy, Charlie Montgomery, por ter ousado fazer a corte a uma namorada. Devido
a esse caso, que retira a autoridade aos irmão, e ao atraso no pagamento das
suas funções, Grat e Bob entram na senda do crime, roubando cavalos e traficando
álcool em território indío.
Nasce assim o bando dos Dalton, ao qual se junta um
terceiro irmão, Emmet. Em 1890 Bill junta-se aos três irmãos e assaltam uma
sala do jogo em Silve City e posteriormente são acusados de um assalto a um
comboio e à morte do maquinista.
No dia 5 de Outubro de 1892 o bando ataca dois bancos
em Coffeyville, no Kansas, mas as coisas correm mal e, no confronto com as
autoridades, Grat e Bob são abatidos, juntamente com dois outros membros do
bando, Bill Powerr e Dick Breadwell.
Emmet, ferido com 21 balas no corpo, sobrevive e passa
14 anos na prisão. Libertado, casa com uma antiga namorada, Julia, torna-se
agente imobiliário, escreve as memórias do bando e trabalha no cinema,
desempenhando o seu próprio papel num filme de 1916, vivendo em Los Angeles até
morrer em 1937.
Voltando aos Dalton ficcionados por Morris, como vimos
este resolveu “matar” os 4 irmãos, Grat, Bob, Bill e Emmet. Mas esses
personagens causaram logo grande impacto junto dos leitores da série que
escreveram cartas a Morris descontentes com o desfecho. Quando, em 1954,
convida Goscinny para escrever os argumentos da série, pede-lhe que ressuscite
os Dalton. Goscinny resolve inventar uns primos que surgem para vingar a
“morte” dos “verdadeiros”.
É assim que aparecem os primos Dalton, Joe, Jack,
William e Averell, os vilões mais famosos da série e que vão aparecer o título
de mais de vinte álbuns da série e, com menos destaque, noutros tantos álbuns.
O facto de estes Dalton terem sido totalmente
reinventados permite uma liberdade de argumeto e imaginação que os tornam quase
tão famosos como Lucky Luke.
Os primos surgem pela primeira vez, num papel
secundário, em 1956 na história “Lucky Luke contra Jess Jamon”, surgindo no
papel principal na aventura seguinte, nesse mesmo ano, “Os Primos Dalton”.
Duas outras figuras da família Dalton vão aparecer na
série. “Ma Dalton”, de 1971, figura baseada na mãe dos verdadeiros Dalton,
Adele Dalton, descrita no livro de memórias de Emmettt “Nous les Dalton..” e
“Marcel Dalton”, álbum de 1998,um Dalton honesto imaginado pelo argumentista
Bob de Groot, um dos substitutos de Goscinny na construção de argumentos para a
série, tomando por base um dos Dalton que enveredou pelo mundo do crime, o
xerife Frank Dalton.
Associado ao aparecimento dos primos Dalton urge outro
personagem icónico da série, o cão RanTanPlan, o “cão mais estúpido do Oeste”,
verdadeira alma gémea do Dalton Avarell.
RanTanPlan surge pela primeira vez em “Sur La Pista
des Dalton”, em 1961 e foi pensado como uma paródia a RiTinTin, o cão vedeta de
uma série televisiva alemã.
O êxito desse personagem tona-o o herói principal do
álbum L’Héritage de RanTanPalan, de 1973, tornando-se depois personagem
principal de uma série publicada entre 1987 e 2011. Em 2006 as suas aventuras
para ao cinema de animação.
Em contraponto com a sua estupidez, está Jolly Jumper,
o cavalo de Lucky Luke que acompanha o herói desde a sua primeira aparição.
Começa a ter uma intervenção própria na série a partir
do 10º álbum, “Alerte aux Pieds-Bleu” , passando a falar regularmente na
história “Sur la Pista des Dalton”, embora tenha aparecido a falar pela
primeira vez numa cena de “La Mine d’or de Dick Digger”, em 1947, mas que não
aparece no álbum onde é publicada a mesma aventura.
É o contraponto de RanTanPlan, na inteligência e nas
capacidades.
Morris faleceu em 16 de Julho de 2001, saindo poucos
meses depois, a título póstumo, o 71º álbum da série, “A Lenda do Oeste”.
Ao contrário de outros heróis, que “morreram” com o
autor, Lucky Luke continua as suas aventuras.
(este texto é um esboço para um texto mais completo a
ser publicado na edição do fanzine Impulso programado para ser editado em Maio
de 2027)
.
segunda-feira, 5 de outubro de 2026
Álbum comemorativo do 80º aniversário de Blake e Mortimer tem Portugal como cenário
O próximo álbum da série Blake e Mortimer, a sair este mês, vai ter Portugal como cenário.
Vai ser um álbum comemorativo do 80º aniversário da série e,
de forma diferente dos anteriores, é uma obra colectiva que inclui 10 histórias
inéditas e independentes, que prestam uma homenagem a figuras secundárias da
série.
Para o efeito foram convidados 17 desenhadores e
argumentistas para criarem 10 histórias independentes, de 6 páginas cada.
Uma dessas histórias tem por cenário o Estoril dos anos 1940,
intitulada “Operação Estoril”, com argumento e desenho de Nicolas Barral.
O objectivo desse encontro visa enfrentar uma conspiração dos serviços
secretos nazis que pretendem colocar na coroa britânica alguém da sua
confiança.
Nicolas Barral é um admirador da série Blake e Mortimer, sendo responsável pela série que ironiz com a obra de Jacobs, "Les Aventures de Philip e France", crida em 2005 e foi autor de duas outras obras ambientadas em Portugal, “O Desassossegado Senhos Pessoa”, de 2025, e uma obra anterior, “Ao Som do Fado” de 2020.
Recorde-se que o território português já foi tema de duas
aventuras da série, uma ainda desenhada por Edgar Pierre Jacobs, “O Enigma da
Atlântida”, de 1957, e a última “A Ameaça Atlante”, editada em 2025, com
argumento de Yves Sente e desenho de Peter Van Dongen, ambas passada nos
Açores.
terça-feira, 29 de setembro de 2026
sexta-feira, 25 de setembro de 2026
A Marca de Jacobs e a dupla comemoração (1946/1956-2026)
Por coincidência, este é o ano de uma dupla comemoração de um dos ícones da Banda Desenhada: o octogésimo aniversário da série Blake e Mortimer, que surgiu pela primeira vez no primeiro número da revista belga Tintin, em 1946, e o septuagésimo aniversário da primeira publicação em álbum da mais importante aventura da dupla, “A Marca Amarela”, em 1956.
A esse propósito, aqui recordamos, em breve evocação, a
carreira do seu autor, Edgar Pierre Jacobs, da sua série e, em especial, desse
álbum “A Marca Amarela”, uma das grandes referências da 9ª arte.
Eu e Blake e Mortimer
Pessoalmente, o meu primeiro contacto com essa série teve
lugar na minha infância, aí pelos inícios da década de 1960, ao desfolhar uma
edição especial do “Cavaleiro Andante” do Natal de 1952, o nº 51 de 20 de
Dezembro desse ano, que existia lá por casa, espólio que a minha mãe tinha
trazido de casa dos meus avós quando se casou. Nessa edição pude apreciar uma
página, a duas cores, da primeira aventura da série Blake e Mortimer publicada
em Portugal, “O Mistério da Grande Pirâmide”, a página 22 da história, onde se
inicia a perseguição, nas ruas do Cairo, do misterioso carro preto guiado pelo
vilão Sharkey. Desconhecendo as peripécias anteriores e posteriores, pois esse
era o único exemplar daquela revista que estava em casa dos meus pais, essa
página mereceu-me especial atenção, destacando-se das restantes aventuras
publicadas na revista pela nitidez do desenho e pelo ritmo da decopagem dessa
prancha.
Fiquei a conhecer melhor a série através da revista “O Foguetão” que os meus pais me compraram desde o primeiro número de 4 de Maio de 1961 e que publicou, entre outras séries da escola franco-belga, e pela primeira vez em Portugal, a aventura “A Armadilha Diabólica”, quase em simultâneo com o início da publicação dessa aventura na Bélgica (teve estreia em Setembro de 1960). Infelizmente a publicação de “O Foguetão” foi interrompida na sua 13ª edição, em 27 de Julho de 1961, ficando a menos de meio a leitura dessa aventura, que continuou a ser publicada na revista Cavaleiro Andante, mas esta publicação nunca entrou lá em casa.
Curiosamente, “A Armadilha Diabólica” foi a primeira
aventura da série que consegui ler na integra, isto porque, quando comecei a
receber regularmente a revista Tintin, uma oferta do meu avô que tinha uma
livraria e papelaria , era essa aventura de Blake e Mortimer que estava a
começar a ser publicada em continuação.
O primeiro número que o meu avô me ofereceu, tinha eu
então os meus 14 anos, foi o nº 42 do 2º ano da revista portuguesa, publicado
em 14 de Março de 1970, onde se incluía a 2º prancha de “A Armadilha
Diabólica”, cuja aventura tinha começado a ser publicada no TinTin português no
número anterior, em 7 de Março de 1970,.
Já em relação às outras aventuras da série conheci-as ao
longo da década de 1970, publicadas em álbum, lidos nos verões da praia de Sant
Cruz, álbuns que me eram emprestados pelo Zico. Foi em álbum que li pela
primeira vez “A Marca Amarela”, aventura que me
“marcou” para sempre e que ainda hoje não me canso de reler.
No meu grupo de amigos, entusiastas pela Banda Desenhada
e muito marcados pela revista “TinTIn”, todos tentávamos imitar Jacobs e Hergé
e, de forma não muito rigorosa, dividamo-nos entre os fãs de TinTin e os de
Blake e Mortimer. Eu fazia parte deste último grupo e continuo a reler as
aventuras da série de Jacobs , não perdendo o aparecimento das novas aventuras
continuadas por alguns dos melhores autores da BD franco-belga.
Recentemente, em Fevereiro de 2025, fiz um roteiro belga
em memória de Jacobs, percorrendo Lasne, onde visitei o seu original túmulo no
cemitério dessa localidade, a Biblioteca Edgar Pierre Jacobs, assim intitulada
em sua homenagem, a antiga rua do “Bois des Pauvres”, onde se situou a sua
última morada (no local existe agora outra casa) e, já em Bruxelas, a casa onde
ele nasceu e, bem próximo, o mural que homenageia a série por si criada.]
Breve biografia de Jacobs
Edgar (aliás Edgard) Félix Pierre Jacobs nasceu em Bruxelas
em 30 de Março de 1904, no famoso bairro de Sablon, no nº5 da rua Ernest
Allard, bem perto do misterioso Palácio da Justiça. Uma placa colocada à
entrada do prédio ainda hoje assinala esse facto.
Desde cedo, e principalmente ao entrar para o liceu em 1915,
revelou o seu gosto pelo desenho e pela História.
É conhecida a qualidade das ilustrações com que ele decorou
os seus cadernos da sua disciplina preferida, a de História, em 1917 e 1918.
Mas, mais que o desenho, a sua grande paixão foi a ópera,
iniciada quando assistiu em 1917 à representação lírica de “Fausto” no Teatro Real
da Galerias de Saint-Hubert.
Nesse mesmo ano travou conhecimento escolar com Jacques Van
Melkebeke, amigo que o acompanhou toda a vida, figura marcante nas influências
artísticas e literárias de Jacobs.
Terá sido por essa altura que Jacobs leu uma das obras que
mais o influenciou no seu gosto pela ficção científica, “A Guerra dos Mundos”
de H.G. Weels (1866-1946).
Além da ópera, que ele frequentava nas soirées do Teatro de
“La Monnaie” (da Bolsa), era igualmente frequentador dominical das sessões de
cinema, exibidas nas mais variadas salas, apreciando em especial as obras de
René Clair, Abel Gance, Max Linder, Charles Chaplin, Buster Keaton, Harold
Lloyd, D. W. Griffith, Cecil B. De Mille, e praticamente todo o expressionismo
alemão de Fritz Lang, Murnau a Robert Wine, e filmes como “O Sinal de Zorro”,
“Os 4 Cavaleiros do Apocalipse”, “Bem-Hur” ou “O Gabinete do Dr. Caligari”.
Em 1919 , juntamente com o
amigo Van Melkebeke, entrou para a Academia Real das Belas Artes de
Bruxelas, então dirigida pelo famoso arquitecto Victor Horta, na secção de
“Decoração”, mas abandonou esses estudos em 1920.
Nas artes plásticas sentiu-se atraído pela obra de Dürer e
Holbein, apreciando em especial as ilustrações de Gutave Doré para o “Inferno”
de Dante.
Também visitava assiduamente o Museu do Cinquentenário,
localizado próximo da sua morada de infância e juventude, onde apreciou em
especial as pinturas de Brughel , Clouet, Rubens e Ingres.
Para ganhar a vida, tornou-se desenhador de joias,
ilustrador de imprensa, retocador de fotografias, criador de páginas
publicitárias.
No Inverno de 1921,
iniciou o seu sonho de sempre, participar como figurante na ópera Guilherme
Tell no Teatro de “La Monnaie”. Retocador de fotografias de dia, figurante de
ópera à noite, foi assim vivido este curto período de alguma estabilidade.
Sol de pouca dura, conseguindo apenas um contrato como
artista no teatro de revista, assinado em 25 de Agosto de 1922.
Em 1923 o seu amigo Van Melke cruzou-se com Jacques Laudy, o
filho do retratista real (Jean Laudy), apresentado o seu novo amigo a Jacobs,
uma tripla de amigos que se mantve até ao fim das suas vidas.
[O “Trio” Fantástico
Dois Jacques, Jacques Laudy (1907-1993) e Jacques Van
Melkebeke (1904-1983) foram os amigos de Jacobs para a vida. Os três conheceram-se nos anos 20
na Academia de Belas Artes de Bruxelas, embora o conhecimento entre Jacobs e Van
Melkebeke já viesse da infância.
Homens cultos e entusiastas pela pintura, ambos os
Jacques foram figuras influentes para a carreira de Jacobs, embora tivessem
destinos diferentes.
Laudy foi autor de várias séries de BD na revista Bravo,
para a qual convidou Jacobs a colaborar e foi um dos fundadores da revista
TinTin, que deixou em 1962 por divergências com Hergé. Nessa revista foi
responsável por várias séries passadas em ambiente histórico, como a série com
que se estreou na revista TinTin, “Légende des quatre fils Aymon” (publicada
entre 26 de Setembro de 1946 e 16 de Outubro de 1947), “Rob Roy MacGregor”,
baseada no personagem criado por Walter Scott (publicada entre 23 de Outubro de
1947 e 22 de Abril de 1948) e “Hassan et Kaddour”, publicada a partir de 29 de
Abril de 1948 com argumento de Van Melkbeke, passada no século XVIII. Foi ainda
autor de várias capas da revista. Depois de sair da revista dedicou-se também à
pintura e à poesia. Em 1993, antes de falecer, deixou uma obra ilustrada de
homenagem ao seu amigo Edgar , “Le Royaume d’Edgar J.”.
Van Melkebeke foi muito activo em revistas
colaboracionistas durante a ocupação da Bélgica pelos nazis, como nos
germanófilos La Nation Belge e Le Soir “Volé”,
o que lhe custou perder uma carreira promissora como pintor e como
ilustrador de Banda Desenhada, sendo condenado a vários anos de prisão após a
libertação como “incívico”. Em 1943 editou um livro de memórias, Imageries
bruxelloises, onde relata a sua relação com Ludy e Jacobs.Foi o responsável por
Hergé e Jacobs se terem conhecido. Pouco tempo antes de ser julgado e condenado
ainda pertenceu à equipa fundadora da revista TinTin em 1946, como primeiro
redactor chefe da revista, embora por pouco tempo, até ao nº 13 dessa revista,
de 19 de Dezembro de 1946, sendo substituído por André D. Fernandez. Continuou
a colaborar de forma incógnita com a revista, com várias ilustrações não
assinadas, nos cenários de algumas aventuras de TinTin , de Blake e Mortimer e
de Corentin, entre outras. Só em 1957 conseguiu realizar a sua 1ª exposição de
pintura no pós-guerra, obra classificada entre o surrealismo e o fantástico.]
Tempo de “vacas magras”
Em 1923, Jacobs arranjou emprego numa empresa de publicidade
como ilustrador e desenhador para os catálogos de moda dos grandes armazéns em
Bruxelas, (Grande Armazéns de La Bourse), actividade que encarou apenas como um
ganha pão garantido, experiência que se prolongou, com algumas interrupções,
até 1940.
Ao mesmo tempo decidiu tornar-se cantor de ópera. Aquela
actividade deixou-lhe tempo para se dedicar ao estudo de canto na Academia de
Etterbeek.
Voltou a interromper a sua actividade quando foi chamado
para o serviço militar em Novembro de 1924, que cumpriu até Janeiro de 1925.
Durante esse tempo participou na trupe do Teatro do seu regimento e ocupou o
tempo com a leitura de obras de Mérimée, Stendhal, Voltaire, Flaubert e
Tolstoi, entre outros, por recomendação do seu amigo Van Melkebeke, fixando
nessas leituras as suas referência literárias.
Desmobilizado, a sua vida parecia fadada para a carreira na
ópera, ainda mais evidente quando, em 29 de junho de 1929, ganhou um importante
prémio de canto, tornando-se 2º barítono e entrando para a Ópera de Lille em
1931, pouco depois de se casar pela primeira vez, em 27 de Setembro de 1930,
casamento que durou até aos finais dos anos 40. Nessa sala de ópera tornou-se
responsável pelos projectos de indumentária e pelas maquetes dos cenários das
óperas aí exibidas. Uma lei de carácter xenófoba, saída em França no inicio dos
anos 30, obriga-o a abandonar a sua
carreira naquela cidade francesa e a
voltar à Bélgica, onde regressou ao seu trabalho como ilustrador publicitário,
uma actividade que o próprio classificou como de “desenhador-mercenário”.
Com o início da 2ª Guerra Mundial voltou a ser mobilizado,
cumprindo o serviço militar em França, perto de Carcassonne. Poucos meses antes
de voltar a ser desmobilizado, devido à rendição da Bélgica ao ocupante nazi em
28 de Maio de 1940, e de regressar ao
seu país em 3 de Agosto de 1940, recebeu a notícia do falecimento, em
consequência de ferimentos sofridos em combate, em Maio de 1940, do seu único
irmão, André, 9 anos e meio mais novo (nascido em 9 de Dezembro de 1913).
Jacobs chega à Banda Desenhada
Desempregado, para sobreviver, aceitou, em 1941, a sugestão
do seu amigo Jacques Laudy de mostrar os seus desenhos ao director artístico da
revista “Bravo”, Jean Dratz (1905-1967), que o
aceitou como ilustrador, tendo publicado cerca de 20 ilustrações nessa
revista entre 1941 e 1943.
A revista “Bravo!” iniciou a sua edição em holandês em 1936,
publicou-se como semanário em língua francesa entre 1940 e 1951 e foi, antes do
lançamento da revista TinTin, a mais importante revista de BD francófona, com
tiragens de dezenas de milhares de exemplares. Nas suas páginas começou por
misturar clássicos da BD norte-americana com autores belgas.
A proibição da publicação das séries norte-americanas, imposta
pelo ocupante nazi, teve, ironicamente, o condão de lançar muitos jovens
autores belgas, dando origem à afirmação daquilo a que se veio a designar por
escola franco-belga (ou, talvez mais justamente, a escola belgo-francesa), como
o próprio Jacobs , para além de Uderzo, Sirius, Vandersteen, Jacques Martin,
Rob-Vel, Paul Cuvelier, Calvo, Alain Saint-Ogan
e Laudy, entre outros. A concorrência da revista TinTin foi fatal para a
sua sobrevivência.
Foi considerada uma das “5 gloriosa” revistas pioneiras da
BD belgo-francesa, ao lado de Le Petit Vingtiéme (1928-1940), Le Journal du
Spirou (1938- 202…), Heroic Album (1945-1956 e 1969-1970) e TinTin (1946-1988).
Essa revista publicava nas suas páginas a série norte-americana
Flash Gordon de Alex Raymond (“Gordon l’ Intrépide”, na versão belga). Com a
entrada dos Estado Unidos na Guerra, em 1942, as pranchas daquela série deixaram
de chegar à revista a qual, como recurso para acabar a última aventura em
publicação, pediu a Jacobs para continuar e terminar a edição da aventura de
Flash Gordon que estava em publicação.
A aventura de Flash Gordon que estava a ser publicada
intitulava-se, na sua origem, “Power Men of Mongo” ( em francês, “Les
Techniciens de Mongo”), inicialmente publicada em páginas dominicais da
imprensa norte-americana entre 7 de Abril de 1940 e 29 de Junho de 1941:
Os nºs 50, 51, 52, 53 e
54 dessa revista, de Novembro de 1942, publicaram as últimas páginas da
aventura, a primeira (do nº50) ainda da
autoria de Alex Raymond, a última publicada antes da obra ser censurada, e as
restantes quatro da autoria de Jacobs.
Foi assim que Jacobs entrou no universo da BD, um meio que
ele desconhecia, não sendo um grande admirador do género.
[A série Flash Gordon surgiu na imprensa norte-americana
em 7 de Janeiro de 1934. Alex Raymond (1909-1956) contou com a colaboração, no
argumento, de Don Moore (1904-1986).
A série foi criada para concorrer com a série Buck
Rogers, criada em 1928 por Philips Francis Nowlan (1888-1940), que começou a
ser publicada em 7 de Janeiro de 1929 com desenho de Dick Calkins (1894-1962).
Raymond foi igualmente criador, nesse mesmo ano de 1934,
de outras séries icónicas da BD : Jungle Jim (Jim da Selva em Portugal) e o
Agente Secreto X-9, esta com argumento do conhecido escritor de séries
policiais Dashiell Hammet (1894-1961).
Raymond começou em 1920 como assistente dos irmão Lyman
(1893-1984) e Chic Young (1901-1973) nas séries Blondie, criada em 1930, e Tim
Tyler’s Luck, criada em 1932, tendo sido o responsável por esta série em 1932 e
1933.
Depois de combater na 2ª Guerra Mundial, Alex Raymond
criou em 1946 a série Rip Kirby, aportuguesado entre nós como “Ruben Quirino”.]
Em 1943 a censura alemã proibiu definitivamente a publicação
de séries norte-americanas na Bélgica ocupada e Jacobs foi convidado, pelo
editor da revista “Bravo”, a criar uma série parecida com Flash Gordon. Nasceu
assim “Raio U”, a primeira aventura totalmente original criada por Jacobs e que
foi publicada nas páginas daquela revista até 1944.
Entre 1944 e 1946 realizou também várias ilustrações
históricas para a enciclopédia “Voir et Savoir”. Em 1945 realizou várias
ilustrações e capas, alusivas à Segunda Guerra Mundial para a revista “ABC”.
A Relação com Hergé
Foi no dia 15 de Abril de 1941, numa deslocação para
assistir a uma ópera baseada na já então
famosa série TinTin, “TinTin nas Indias”, que o amigo comum Jacques Van Melkebeke o apresentou
a Hergé.
Van Melkebeke escreveu essa obra em colaboração com Hergé,
uma peça em 3 actos, apesentada no Teatro das Galerias. Até esse momento Jacobs
nunca tinha ouvido falar de TinTIn ou de Hergé e os seus interesses ainda não
estavam virados para a Banda Desenhada.
Mais tarde, em finais de 1943, já Jacobs se tinha revelado
com “O Raio U” na revista Bravo, Hergé, bem impressionado coma as qualidades
gráficas de Jacobs, convidou-o a colaborar na renovação dos cenários e na
coloração de novas versões das aventuras de Tintin, anteriormente a preto e
branco: “TinTin no Congo”, “TinTin na
América”, “O Lótus Azul” e “O Ceptro de
Ottokar”.
N’ “O Lótus Azul” Jacobs foi responsável pela total
reformulação dos décors, o mesmo acontecendo n’”O Ceptro de Ottokar”, tendo
sido, neste último caso, o responsável pelo cenário da sala do trono e pelos
trajes dos guardas e dos habitantes.
Jacobs acompanhou-o ainda como colorista em novas aventuras
, como “As 7 Bolas de Cristal”, aventura pela qual foi responsável pela total
renovação gráfica e decorativa, baseando-se em investigações que o próprio
Jacobs fez no Museu do Cinquentenário, e também n’“O Templo do Sol”, n’“O
Segredo do Licorne” e n’ “Tesouro de Rackan o Terrivel”.
Esta colaboração iniciou-se formalmente em 1 de Janeiro de
1944 e durou até 31 de Janeiro de 1947.
No início, Jacobs dedicava metade do dia a continuar o “Raio
U” e a outra metade a trabalhar para Hergé.
Mais tarde, na nova versão de “Cigarros do Faraó”, editada
em 1955, e nas novas aventuras “O Caso Girassol” e “Objectivo Lua”, Hergé
caricaturou o próprio Jacobs, num sarcófago, como o “egiptólogo E.P. Jacobini”
naquele álbum, e como
engenheiro/desenhador nesta. Hergé chegou a caricaturar-se junto de Jacobs e do
amigo comum Van Melkbeke entre os “jornalistas” que recebem TinTin das suas
aventuras no Congo, na versão renovada dessa aventura.
A personagem de Bianca Castafiore também surge como
homenagem a Jacobs e ao gosto deste pela ópera.
Em 1945 Hergé e Jacobs chegaram a ensaiar uma série de BD
feita em comum, assinando com o pseudónimo de “Olav”. Com essa finalidade
ensaiam três sinopse e três pranchas, de temáticas diferentes: uma aventura
passada no Pólo Norte (em 1937 Hergé chegou a pensar realizar uma aventura de
Tintin passada no Alasca), um policial passado em Shangai, cuja sinopse serviu de base para a edição em álbum e
colorida de 1946 de Lótus Azul, e um Western, cujo projecto serviu de modelo a
Paul Cuvelier, “pai” de Corentin, para a série Tom Colby criada em 1947.
Com Hergé e outros autores tornou-se cofundador da revista
TinTin, em cujo nº 1, publicado em 26 de Setembro de 1946, iniciou a série
Blake e Mortimer, na aventura “O Segredo do Espadão”, sendo igualmente
responsável pelas ilustrações de “A Guerra dos Mundos”, uma adaptação em jeito
de novela da obra de H.G. Wells, publicada a partir dessa edição da revista.
A capa desse primeiro número, anunciando a aventura “O
Templo do Sol” de Tintin, foi também uma realização conjunta de Hergé e Jacobs.
[O primeiro número do “jornal TinTin”, na sua edição
belga, editado em 26 de Setembro de 1946, tinha 12 páginas e teve uma tiragem
de 40 mil exemplares .
Abrindo as suas páginas, a primeira aventura que aparece
é uma estreia, “L’Extraordinaire odyssée de Corentin Feldóe”, uma página a
preto e branco em continuação da autoria então de um jovem estreante, Paul
Cuvelier (1923-1978).
Segue-se o início da publicação, em continuação e em duas
páginas, de “A Guerra dos Mundos”, famosa novela de ficção científica de H.G.
Wells, texto ilustrado com gravuras a preto e branco da autoria de Jacobs.
As 2 páginas centrais, a cores, incluem “O Templo do Sol”
de Hergé, apresentado como a continuação de “As Sete Bolas de Cristal”, cuja
publicação no jornal colaboracionista “Le Soir” tinha ficado interrompida após
a libertação.
Segue-se o excerto de uma novela de Voltaire, “Zadig”,
ilustrada a preto e branco por Jacobs.
A terceira banda desenhada em continuação a surgir é “La
Légend des Quatre Fils Aymon”, da autoria de Jacques Laudy, em ambiente
histórico e a preto e branco.
Finalmente, na última página, a cores, estreou-se a série
Blake e Mortimer de Edgar Pierre Jacobs, com a publicação da primeira prancha
de “O Segredo do Espadão”, onde ficamos a conhecer, pela primeira vez, o “vilão” Olrik, ainda antes de conhecermos os
dois heróis da série.
Essa importante revista, que se publicou até 1993,
conheceu uma edição em flamengo, Kuifje, que, no seu primeiro número, publicado
em simultâneo com a edição belga, saiu com uma tiragem de 20 mil exemplares e,
a partir de 28 de Outubro de 1948, uma edição em França. Portugal também
conheceu uma versão portuguesa da revista TinTin a partir de 1968 e que durou
até 1982.]
Não se pense, contudo, que as relações entre Hergé e Jacobs
foram sempre pacíficas, principalmente devido à influência do pai de TinTin na
revista com este nome e nas edições da Lombard, subalternizando a importância
da série Blake e Mortimer. Hergé chegou a confessar que “um álbum de Blake e
Mortimer comprado é um álbum de Tintin que não se vende” e, por sua influência,
as primeiras edições em álbum da série de Jacobs foram muito limitadas na
tiragem e na qualidade da impressão, que era mais fraca, para se distinguir da
qualidade dos álbuns do TinTin.
Também por influência de Hergé a série Blake e Mortimer foi
alvo de censura nas capas da revista TinTin que divulgavam esta série.
Essa má vontade de Hergé deveu-se, em grande parte, ao facto
deste pretender que Jacobs trabalhasse a tempo inteiro para a série TinTin, em
detrimento da série Blake e Mortimer, mas Jacobs impôs como condição aparecer
como coautor da novas aventuras de TinTin. Hergé não aceitou essas condições e
Jacobs saiu do projecto, situação que levou à criação dos estúdios Hergé em
Abril de 1950, para suprir a falta de
colaboração de Jacobs.
Inicialmente Jacobs pensou criar uma série passada na Idade
Média, intitulada “Roland le Hardi”, chegando mesmo a escrever um argumento
para ela, mas Hergé convenceu-o a publicar uma história passada na época
contemporânea, nascendo assim a série Blake e Mortimer, considerada a primeira
banda desenhada belga para adultos.
Em 23 de Maio de 1950 Jacobs iniciou a publicação, na
revista TinTin, da segunda aventura de Blake e Mortimer, “O Mistério da Grande
Pirâmide”, confirmando assim que a série tinha continuação. Em 6 de Agosto de
1953 surgiu naquela revista a aventura mais icónica da série, “A Marca
Amarela”, à qual voltamos mais à frente.
Autor prefeccionista, demorava bastante tempo a produzir as
aventuras de Blake e Mortimer, pelo que, a seguir àquelas três primeiras
aventuras, apenas criou mais quatro, a última delas incompleta: “O Enigma da
Atlântida” (1955), “S.O.S. Meteoros” (1958), “O Caso do Colar” (1965) e a 1ª
parte de “As 3 Fórmulas do Professor Sato” (1971).
A partir de 1952 passou a viver com a sua segunda esposa,
Jeanne Quittelier, com quem foi habitar em Lasne a partir de 1955, localidade
onde irá viver para o resto da sua vida. Apesar de viverem várias décadas
juntos só se casaram oficialmente em 5 de Junho de 1974. A morte de Jeanne, 3
anos depois, em 31 de Outubro de 1977 abalou bastante Edgar.
Em 1982 foram editadas as suas memórias, intituladas “Uma
Ópera de Papel”, com uma capa feita por Tardi.
No ano seguinte, após a morte de dois amigos, Hergé (3 de
Março de 1983) e Van Melkebeke (8 de Junho de 1983), e sentindo-se a
envelhecer, temendo pelo destino da sua obra, criou a Fundação Jacobs em 23 de
Dezembro de 1983 e, mais tarde, em 24 de Junho de 1986, os Estúdios Jacobs.
Tendo aparecido publicamente pela última vez em 16 de Abril
de 1986, por ocasião da inauguração do Centro Belga de Banda Desenhada em
Bruxelas, Jacobs faleceu em 20 de Fevereiro de 1987 devido a complicações
cardíacas, que o acompanhavam hà algum tempo, estando sepultado em Lasne.
O seu falecimento deixou por finalizar a 2ª parte daquela
última aventura, que ele já tinha esboçado, e que foi terminada, em 1990, por Bob de Moor (1925-1992).
Por testamento, Jacobs tinha instituído o seu afilhado René
como herdeiro legitimo e este deixou os arquivos da obra na vivenda de Lasne
para os entregar ao cuidado da Fundação.
Contudo, pouco tempo depois os familiares depararam-se com
um assalto à vivenda de Jacobs, de onde desapareceram os valiosos arquivos da
sua obra. Mais tarde, em 2004, parte desses arquivos foram encontradas na casa
de um meio irmão de um membro da Fundação, entretanto falecido.
No testamento, Jacobs apenas referia os projectos para
terminar “As 3 Fórmulas do Professor
Sato” e sobre a malograda série “Roland le Hardi”, nada indicando a
possibilidade da continuação da série Blake e Mortimer.
Jacobs tinha pensado no modelo usado por Hergé de uma
Fundação e um Estúdio, que gerisse o marketing e os arquivos da série, sem
continuarem as aventuras da sua famosa dupla.
A ambiguidade do testamento e da sua interpretação acabou
por permitir a continuação da série por outros autores, pelo que, até à
actualidade, já se publicaram mais álbuns do que aqueles que ele desenhou.
Além de Bob de Moor, Ted Benoit, Jean Van Hamme, André
Juillard e Yves Sante foram alguns desses continuadores.
Caracteristicas gerais da obra de Jacobs
A obra de Jacobs, conjuntamente com a de Hergé, é
classificada como exemplo fundador da chamada “linha clara”, estilo assim
baptizado pelo autor holandês de BD Joost Swarte (nascido em 1947), em artigo
de 1977, para designar um estilo de desenho que utiliza linhas fortes, que tem
a mesma espessura para contornar as figuras e objectos, sem sombreados (ou sem
o chamado esfumato), com cores vivas, combinando personagens em cenário
realista. Literalmente “linha clara” quer dizer um desenho que recusa qualquer
sombreado.
Refira-se, contudo, que foi o próprio Jacobs a contestar
essa classificação da sua obra, e muitos consideram que apenas as duas primeiras
aventuras da dupla por si criada seguem os “cânones” desse estilo.
Para Jacobs o chamado estilo “linha clara” foi “imposto”
pelas limitações do processo de reprodução em offset, que exigia um tratamento
e uma coloragem do desenho bem definido e destacado.
Entre outras características da sua obra, destacam-se o
realismo e o rigor dos cenários, que foi beber à sua experiência na ópera, a
obsessão pelo pormenor, a importância dada à ciência, transformando a temática
de ficção científica, presente na sua obra, em teoria científica plausível.
A forma como colocou os seus personagens nas vinhetas e nas
pranchas remete para a teatralidade da ópera, onde se iniciou na actividade
artística e à qual continuou a dedicar todo o seu entusiasmo como espectador ao
longo da sua vida.
Toda a sua obra foi construída na relação triangular dos personagens,
Blake, Mortimer e Orlik.
O “capitão” Francis Blake é apresentado como tendo
“estudado” em Oxford, antes de seguir a carreira militar na RAF, membro do M
15, os serviços secretos britânicos .
O “professor” Philip Mortimer, figura dominante na série,
escocês de origem, professor de Física nuclear, um intelectual de espírito
cavalheiresco, aficionado do desporto equestre, praticante de boxe e judo,
coleccionador e conhecedor de armas, tendo a arqueologia como hobbie, dominando
várias línguas e inveterado fumador de cachimbo.
Em contraponto com os dois “heróis” da série, o coronel
Olrik é o “mau da fita”, sobressaindo da longa lista de vilãos que vão
aparecendo na série (de entre os quais se destaca o cientista Septimus da “A Marca
Amarela”), um aventureiro sem escrúpulos, amador de arte, inteligente e
perspicaz, que usa monóculo e fuma cigarrete.
Para caracterizar física e psicologicamente esses e outros
personagens, Jacobs baseou-se em figuras reais de amigos e familiares e na sua
própria figura.
O nascimento de “A Marca Amarela”
“A Marca Amarela” foi uma das aventuras mais marcantes e
icónicas da série, ainda hoje considerada mundialmente uma das obras primas da
9ª arte.
Terceira aventura da dupla Blake e Mortimer, começou a ser publicada na edição
de 6 de Agosto de 1953 da revista TinTin, concluindo-se em 10 de Novembro de
1954, só sendo editada num álbum de 66 páginas em Fevereiro de 1956.
Muitos estudiosos da obra de Jacobs, relacionam a escolha do
tema dessa aventura com a transmissão televisiva da coroação da Rainha Isabel
II, situando-a no reino britânico e tendo como ponto de partida o roubo da
coroa.
Contudo, a coroação oficial de Isabel II, um dos primeiros
acontecimentos a ser transmitido em directo pelas televisões, ocorreu em 2 de Junho de 1953, apenas dois
meses antes do início da publicação dessa aventura na revista TinTin.
Sabe-se que a elaboração dessa aventura não se produziu
apenas em dois meses, tendo em conta a forma como o autor trabalhava, com
bastante lentidão e com uma grande preocupação pelos pormenores e pelo trabalho
de investigação documental.
Aliás, um ano antes da coroação, no Verão de 1952, o autor,
na companhia de Jeanne Quittelier, deslocou-se a Londres num passeio turístico,
a sua primeira saída do mundo francófono, mas com o objectivo de se documentar
para a sua nova aventura.
Confirma-se assim que a ideia não surgiu, como muitos dizem,
porque o autor se lembrou do tema ao ver na televisão a coroação da rainha, mas
terá surgido pelo menos um ano antes, embora estivesse relacionada com a subida
ao trono da nova rainha, logo após a morte do rei Jorge VI, em 6 de Fevereiro
de 1952, tendo a coroação ocorrido mais de um ano depois.
A morte de Jorge VI e a curiosidade à volta da nova rainha e
dos preparativos para a sua coroação, foram alvo de várias reportagens sobre a
corte britânica na imprensa da época, destacando-se as várias edições dedicadas
ao assunto pela revista Paris Match, consultada por Jacobs para se documentar,
este sim um facto comprovado pelo autor.
Essa revista dedicou ao assunto, ao longo do ano de 1952,
vários números, alguns em edição especial, como o nº 153 de 16 de Fevereiro de
1952, um especial dedicado ao monarca falecido, o nº 163 de 26 de Abril de 1952,
com uma grande reportagem sobre o Palácio Real e o muito citado nº 197 de 30 de
Dezembro de 1952, que exibia na capa uma fotografia da coroa e, no interior,
pela primeira vez divulgada ao público, uma fotografia do tesouro real, que
serviu de base a uma das vinhetas da aventura. Há ainda um número especial
dessa revista dedicada à coroação, mas já em Junho de 1953.
Outras fontes documentais de Jacobs para a criação da
aventura e para o reconhecimento urbano e monumental de Londres foram o livro
de divulgação “Pictures Book of London”, editado em 1951 pela Country Life
Limited, o “The Pictorial Story of the Tower of London”, editado pela Pitkim já
em 1953, assim como vários guias turísticos de Londres.
Consultou ainda ilustrações de Londres da autoria de Gustave
Doré incluídas no livro de Jerrold Blanchard de 1872 intitulado “London a
PIlgrimage”.
Para a reprodução de cenas de polícia baseou-se na consulta
de um número da Science et Vie de Fevereiro de 1953, com imagens dos carros e
fardamentos da polícia. Essa consulta esteve, aliás, na origem de um dos mais
icónicos erros na feitura dessa obra. A reportagem era sobre a polícia francesa
e ele esqueceu-se que em Londres polícia conduzia pela esquerda, erro que surge
nalgumas vinhetas.
Quando começou a planificar a história, Jacobs não conhecia
Londres , a não ser de forma idealizada, nos romances de Charles Dickens que
tinha lido na sua juventude. Já com o guião inicial, como referimos acima, resolveu
visitar a capital britânica, em Agosto de 1952.
O percurso dessa visita é conhecido: numa 2ª feira, 25 de
Agosto, partiu às 7.33 da estação Bruxelles-Midi a caminho da localidade
costeira e balnear de Ostende, onde apanhou o barco que atravessou o Canal da Mancha
até Dover na Grã-Bretanha, numa viagem de 4 horas. Seguiu depois de comboio até
Londres, tendo-se hospedado na companhia da sua companheira no Royal Hotel, em
Lencaster Gate, próximo do Hyde Park.
Durante os dias que aí permaneceu fez um percurso em
autocarro turístico e visitou vários locais onde imaginava situar a nova
aventura de Blake e Mortimer, como os Castelos de Windsor e d’Hampton Court, o
Palácio de Buckingham, a Torres de Londres, Gordon Square e Tavistock Square.
Nesta última rua descobriu o décor ideal para situar o “laboratório de
Septimus”. Fez-se fotografar e à esposa junto de edifícios que ele pretendia
usar nos cenários da história, par melhor poder calcular as suas dimensões.
Para se documentar fotograficamente, Jacobs levou consigo
uma pequena máquina fotográfica de caixa de 6/9, e usou 4 rolos de 12 fotos
cada.
Segundo o autor, mais importante que a documentação
fotográfica, foi ter-se deixado impregnar pela atmosfera e pelo ambiente
londrino
Essa visita contribui para alterar alguns cenários e
escolher novos locais para situar a história e, noutros casos, adaptar o que
viu a cenários já imaginados.
De facto, são muitos os sítios da cidade de Londres que
podem ser identificados, alguns apenas de relance, n’ “A Marca Amarela”: a
Torres de Londres, Fleet Street, a Catedral de S. Paul, Law Street (Palácio da
Justiça), Piccadilly Circus, as docas de East End em Limehouse Dock, o nº 10 de
Downing Sreet, o British Museum, Park Lane (onde situou a casa de Blake),
Shaftesbury Avenue, os luxuosos apartamentos que ladeiam o Hyde Park, Green
Park, Lombard Street, Hulborn Circus e Tavistack Square (onde situou, com já
dissemos, o laboratório de Sptimus).
As cenas passadas nas docas de Limhouse Dock foram
preparadas a partir de uma recolha de fotografias que Jacobs fez do ambiente
das docas de Bruxelas.
Um dos aspectos que correu menos bem nessa visita foi não
ter encontrado o ambiente sombrio, que ele pretendia obter para os cenários
urbanos da sua obra, pois essa visita foi feita numa Londres cheia de sol e
calor, de céu azul, nada do famoso e idealizado nevoeiro e ambiente sombrio.
Para criar o ambiente sombrio reproduzido em “A Marca Amarela” teve de recorrer
à imaginação.
Para muitos dos seus leitores, Londres ficou sempre
idealizada como a cidade sombria e misteriosa imaginada pelo autor para
ambientar essa aventura.
Jacobs documentou-se também nas investigações cientificas
sobre o cérebro e as “ondas mentais” publicadas em artigos da revista Science
et Vie.
O título desta terceira aventura da dupla de heróis não foi
fácil. Ao todo o autor rascunhou 12 títulos possíveis, entre eles: “O Sinal
Amarelo”, “A Onda Misteriosa”, “A Onda Maléfica”, “O Homem das lunetas
amarelas”. No meio dessa lista, em 5º lugar, é que surgiu o título definitivo
de “A Marca Amarela”.
Outro dado curioso sobre a elaboração dessa obra está
relacionado com a escolha do célebre símbolo de “A Marca Amarela”. Jacobs
pretendia um símbolo fácil de fixar. Inicialmente pensou no sinal Z,
inspirando-se no Zorro, mas a sua companheira opôs-se porque achava que essa
marca era já muito conhecida.
Combinaram uma reunião familiar para debater esse tema, com
a presença do seu enteado, René Quittelier. Foi este que lhe propôs a escolha
de uma letra do alfabeto grego, que começou a recitar alfabeticamente na
presença de Jacobs, que foi recusando as várias letras até chegar à 12ª palavra
do alfabeto grego, o "Mu" (Μ/µ) (lê-se Miu).
Inicialmente o autor considerou que essa letra era
complicada de desenhar, pois pretendia uma letra em forma de O. Então surgiu a ideia
de rodear o Mu maiúsculo com um círculo. Acabou por aperfeiçoar o símbolo até
chegar ao M da Marca Amarela, decidindo colorir o M de amarelo.
Existem outras versões sobre a origem do M, como a possível
inspiração no filme de 1927, de Fritz Lang, M-Matou, muito apreciado por Jacobs, ou a
interpretação do M como o símbolo de Maléfico, do Mal, da Morte ou da Maldição.
Principais características de “A Marca Amarela”
Num total de 66 páginas e 752 vinhetas, Jacobs ensaiou nesta
obra um novo grafismo para as filoxeras, distinguindo a parte descritiva, em
quadros rectangulares coloridos, dos diálogos, em quadros brancos de contornos
dentados.
O texto tem uma grande importância na construção das
pranchas, pois a maior parte destas e dos quadradinhos é ocupada com um texto
narrativo complexo e pormenorizado, com comentários que acentuam a densidade
psicológica das cenas. Essa situação realça as influências do romance policial
(“polar”) , em especial da obra de Sherlock Holmes e da história de Jack o
Estripador, e da ficção científica, reforçando o lado literário da obra de
Jacobs que entendia a Banda Desenhada como “um romance desenhado”.
Cada cena está construída como um décor de teatro, uma
influência do seu trabalho na ópera, quer como figurante quer como autor de
cenários.
A iluminação dessas cenas, com jogos de luz e sombras, foi
fortemente influenciada pela linguagem cinematográfica, igualmente presente na
elaboração das várias vinhetas, com recurso a picados e contrapicados,
travellings, profundidade de campo e alteração de planos, com, por exemplo,
passagens de planos médios para grandes planos.
Recorde-se que, a seguir à ópera e muito antes da Banda
Desenhada, o cinema foi uma das grandes paixões de Jacobs, em especial as obras
do chamado expressionismo alemão, os filmes de ficção cientifica, de terror e
de suspense.
Muitas dessas influências são bem visíveis como inspiração
para a elaboração das cenas de “A Marca Amarela”, como “O Gabinete do Doutor
Caligari” realizado por Robert Wise em 1920, como “Doutor Mabuse” realizado por Fritz Lang em
1922, inspirações para a figura do cientista louco Septimus , da figura
manipulada de Olrik em Ginea Pig, e do esconderijo destes, como “Nosferatus”
realizado por Fredrich Murnau em 1922, inspiração para a figura do “marca
amarela”, cuja marca também parece inspirada na célebre marca “M” do filme “M-Matou”
realizado por Fritz Lang em 1931.
Muitas outras cenas e ambientes parecem inspiradas em filmes
como “O Homem Invisivel” realizado em 1933 por James Whale, “As Mãos d’Orlac”
realizado em 1935 por Karl Freuns, “O Homem sem Rosto” realizado por Richard Fleischer em 1949, ou “O Terceiro
Homem” realizado por Carol Reed em 1949, sem descartar a influência
cinematografia e ambiental de Hitchcock.
Dois actos de censura marcaram a edição da série na revista
“TinTin”.
O caso mais grave aconteceu em 1953 com um projecto de capa
para a revista TinTin, para anunciar a publicação de “A Marca Amarela”. Esse
projecto de capa tinha alguma influência na imagem de Nosferatus, filme
expressionista de F.W.Murnau de 1922, mas foi considerada muito violenta para
uma revista juvenil, sendo Jacobs obrigado a retirar essa figura sinistra e uma
pistola nas mãos de Blake, atitude censória que teve a mão de Hergé, agastado
com o êxito da série que, segundo este, apagava a importância de TinTin na
revista com o seu nome.
Mais tarde, por ocasião do 7º aniversário da revista TinTin,
em 26 de Setembro de 1953, Jacobs fez um desenho ironizando aquele acto de
censura, dedicado ao editor da revista, Raymond Leblanc, desenho intitulado “O
fantasma de TinTin”, para recordar o papel de Hergé nesse acto de censura.
Nesse desenho incluiu Olrik, Blake e
Mortimer, que aparecem em forma de pterodáctilo, um espião com chaves caricatura
Jacques Martin, “pai” de Alix e Lefranc, o próprio Jacobs, um espadão
sobrevoando o céu, uma Torre de Londres e uma Pirâmide, como referências às
três primeiras aventuras da série.
Outro acto de censura ocorreu com uma vinheta da prancha 18,
onde aparecia Septimus, sentado num compartimento do comboio, a ler a revista
inglesa “Illustrated” com uma corista em trajes ligeiros na capa. Edgar foi
advertido para essa cena, com a desculpa de estar a publicar numa revista
juvenil e teve de “cobrir” essa corista com uma trama, para disfarçar a
“ousadia”.
Em Portugal, essa vinheta
também sofreu um acto de censura embora de forma mais subtil. Na vinheta
publicada na última página do nº 174 de “Cavaleiro Andante”, onde aparece o
professor Septimus a ler a revista “Ilustratted”, a capa desta foi suprimida,
sendo sobreposta por um “selo” com a indicação de um número para o sorteio num
concurso promovido pela revista junto dos seus leitores.
Embora de forma subtil, penso que esse acto não foi
inocente, o qual, pela forma como foi feito, quase passou despercebido.
Recorde-se que o responsável pela revista “Cavaleiro
Andante”, Adolfo Simões Muller, fazia parte da Comissão Nacional de Censura da
ditadura portuguesa
A censura voltou a persegui-lo mais tarde quando a sua obra
“A Armadilha Diabólica” foi proibida em França por ser considerada muito
violenta para ser editada numa revista juvenil, como a edição francesa de
“TinTin”.
Em 2013 Jean Dufaux, Antoine Aubin e Étienne Schrider,
editaram A Onda Septimus, álbum da série
pós-jacobs, produzida como uma “continuação” de “A Marca Amarela”.
“Blake e
Mortimer” e “A Marca Amarela” em Portugal
A série Blake et Mortimer foi publicada pela primeira vez em
Portugal na revista Cavaleiro Andante, pioneira na apresentação da obra de
Jacobs, editando a segunda aventura da série, “O Mistério da Grande Pirâmide”,
a partir do nº 30 de 26 de Julho de 1952.
A primeira aventura da série, “O Segredo do Espadão”, foi
publicada pela primeira vez, com o título aportuguesado de “O Segredo do
Sabre”, na revista Titã, entre a edição nº 7, de 12 de Outubro de 1954, e a
edição nº 42 de 10 de Agosto de 1955, a última dessa revista, pelo que essa
aventura ficou incompleta.
Por sua vez, “A Marca Amarela” foi publicada em Portugal
pela primeira vez no nº 167, de 12 de Março de 1955, da revista “Cavaleiro
Andante”.
A Verbo editou esta aventura pela primeira vez em álbum na
década de 1970. Voltou a ser editada pela Bertrand em 1980, pela Meribérica em
1990 e em 2004 e pelo jornal Público em 2008.
Em 19 de Outubro de 1955 a revista belga TinTin começou a
publicar a quarta aventura da série, “O Enigma da Atlântida”, que teve como
cenário a Ilha de S. Miguel, nos Açores, a única que se passou em território
português.
Jacobs, ao contrário do que aconteceu com “A Marca Amarela”,
não esteve pessoalmente no cenário dessa aventura, baseando-se numa busca
documental para a realizar.
A última aventura da série, publicada no final do ano
passado, “A Ameaça Atlante” de Yves
Sente e Peter van Dongen apresenta-se como uma continuação daquela aventura açoreana.
Há, contudo, um misterioso enigma, à volta de uma entrevista
que Vasco Granja conseguiu obter de Jacobs, na casa deste em Lasne, em 12 de
Outubro de 1972, onde se refere uma hipotética visita aos Açores e a Portugal
por parte do autor belga, já em data posterior à realização e publicação d’”O
Enigma da Atlântida”.
Infelizmente, nessa entrevista, publicada ao longo de vários
números da edição portuguesa da revista TinTin nesse mesmo ano, não existe mais
nenhuma informação sobre aquela hipotética visita de Jacobs, nomeadamente em
que ano podia ter sido efectuada e que outros sítios pode ter visitado em Portugal.
Aqui reproduzimos essa “misteriosa” passagem da dita
entrevista (sublinhado meu):
“[…]
V.G. – Gostou de VISITAR OS AÇORES?
E.P.J – Sim, fiquei muito impressionado. Eu
não tinha conseguido obter a indispensável documentação acerca dos Açores
quando andava a prepara o Enigma da Atlântida. A cratera das Furnas
deixou-me uma profunda impressão. Na água do lago podem observar-se duas cores
diferentes: uma azul e outra verde, o que é bastante espantoso.
Verifica-se perfeitamente que os Açores estão situados no ponto ideal para
servirem de ligação entre a Europa e os Estados Unidos. Se a Atlântida existiu
(o que é perfeitamente possível e eu continuo a acreditar em tal facto), julgo
bem que os Açores é tudo o que resta do continente desaparecido. Estas ilhas
são muito atraentes do ponto de vista turístico e parece-me que há muitas
coisas a fazer nesse sentido, embora eu reconheça que o turismo é uma arma de
dois gumes…Penso igualmente numa zona perto de Lisboa que me agradou
particularmente, numa pequena montanha plena de verdura e frescura…
V.G. – Sintra, não é verdade?
E.P.J.- É isso mesmo. É um sítio verdadeiramente
esplendido! Gosto também dos pescadores portugueses, da sua maneira de se
vestirem e dos barcos com motivos decorativos. Nota-se neles uma
acentuada reminiscência do passado.
[…]”.
Perante essa enigmática referência de Jacobs a Portugal, que
parece indicar a sua presença neste país, consegui contactar, por mail, Viviane
Quittelier, biografa e neta da segunda esposa de Jacobs.
Em resposta, disse-nos que o seu avô nunca veio a Portugal:
“A viagem da qual ele falou [na entrevista] seria aquela dos seus personagens”
e que ele “acompanhava nos seus sonhos”. [“Désolée de vous décevoir. Mon
grand-père n'est pas allé au Portugal.Le voyage dont il a parlé serait celui de
ses personnages.Et aussi en les accompagnant dans ses rêves”- resposta que nos
foi dada por Viviane Quitellier em 13 de
Fevereiro de 2026].
A série Blake e Mortimer é uma das mais apreciadas em
Portugal e, ainda hoje, o lançamento de uma nova aventura da série, continuada
por outros autores, é sempre aguardada com grande expectativa e atinge elevados
valores de vendas.
Deixamos uma última questão: para quando, em Portugal, uma
grande exposição de homenagem e sobre a obra de Edgar P. Jacobs?
(NOTA FINAL : Agradecemos a Viviane Quitellier as sugestões
e correcções com que nos auxiliou na feitura deste texto).
ANEXO – Blake & Mortimer em Portugal (aventuras da autoria de Edgar
Pierre Jacobs):
|
Título |
Ano em que
situa a aventura |
1ª
publicação |
1ª Edição
em Álbum |
1ª
Publicação em Portugal |
1ª edição
em álbum em Portugal |
|
O Segredo
do Espadão |
1946 |
26 de
Setembro de 1946 no nº 1 da revista
belga Journal de Tintin. |
Tomo 1 – 1950 Tomo 2 e 3 –
1953 (em álbum
único em 1964). |
Titã nºs 7 a
42 em 1955 (incompleta) Tintin nº 48
do 13º ano (1981) ao nº52 do 14º (de 8 de Maio de 1982) |
1970, ed.
Ibis, em 2 volumes |
|
O Mistério
da Grande Pirâmide |
1950 |
23 de Março
de 1950 no Tintin belga. |
Tomo 1- 1954 Tomo 2 – 1955 (em álbum
único em 1959) |
26 de Julho
de 1952 no Cavaleiro Andante, do nº 30 a 132. |
1970,
ed.Verbo, 2 volumes |
|
A Marca
Amarela |
1953 |
6 de Agosto
de 1953 na revista belga de Tintin. |
1956 |
1 de Janeiro
de 1955 no Cavaleiro Andante, nº 157 a 219 |
1970 , ed.
Verbo. |
|
O Enigma
da Atlântida |
1955 |
19 de Outubro
de 1955 na revista belga de Tintin. |
1957 |
12 de Maio de
1956 no Cavaleiro Andante , nº 228 a 291 |
1970, ed.
Verbo |
|
S.O.S
Meteoros |
1958 |
8 de Janeiro
de 1958 na revista belga Tintin. |
1960 |
5 de Julho de
1958 no Cavaleiro Andante nº 340 a 398 |
1980, ed.
Bertrand |
|
A
Armadilha Diabólica |
1960 (também
no passado – Quaternário e Idade Média- e no futuro) |
22 de
Setembro de 1960 na revista belga Tintin. |
1962 |
4 de Maio de
1961 na revista Foguetão (incompleto) e 26 de Agosto de 1961 no Cavaleiro
Andante, nº 504 a 534 |
1981, ed.
Bertrand |
|
O Caso do
Colar |
1965 |
23 de Março
de 1965 na revista belga Tintin. |
1967 |
No
suplemento “Nau Catrineta”, nº 146 de
22 de Outubro de 1966 a 207 de 30 de Dezembro de 1967. |
1982, ed.
Bertrand |
|
As Três
Fórmulas do Professor Sato, tomo 1 (O tomo 2
será publicado a partir de 1990, com a autoria de Bob de Moor, com base nos
esboços deixados por Jacobs, falecido em 1987) |
1967 |
5 de Outubro
de 1971 na revista belga Tintin. |
1977 (1990) |
Na revista
TinTin nº 21 do 5º ano de 16 de Outubro de 1972 ao nº 14 do 6º ano de 25 de Agosto de 1973. |
1987,
Meribérica (1991,
Meribérica) |
Albuns da série editados após a morte de Jacobs em
1987:
·
1990 - As
Três Fórmulas do Professor Sato - Tomo 2, ( a partir de esboços de
Edgar P. Jacobs) por Bob de Moor
·
1996 - O
Caso Francis Blake de Jean Van Hamme & Ted Benoît
·
2000 - A
Conspiração Voronov de Yves Sente & André Juillard
·
2001 - O
Estranho Encontro de Jean Van Hamme & Ted Benoît
·
2003 - Os
Sarcófagos do 6.º Continente - Tomo 1, de Yves Sente & André
Juillard
·
2004 - Os
Sarcófagos do 6.º Continente - Tomo 2, de Yves Sente & André
Juillard
·
2008 - O
Santuário de Gondwana - de Yves Sente & André Juillard
·
2009 - A
Maldição dos Trinta Denários - Tomo 1, de Jean Van Hamme, René Sterne
& Chantal de Spiegeleer
·
2010 - A
Maldição dos Trinta Denários - Tomo 2, de Jean Van Hamme & Antoine
Aubin
·
2012 - O
Juramento dos Cinco Lords - de Yves Sente & André Juillard
·
2013 - A
Onda Septimus - de Jean Dufaux, Antoine Aubin e Étienne Schréder
·
2014 - O
Bastão de Licurgo - de Yves Sente & André Juillard
·
2016 - O
Testamento de William S. - de Yves Sente & André Juillard
·
2018 - O
Vale dos Imortais - Tomo 1, de Yves Sente, Teun Berserik e Peter Van
Dongen
·
2019 - O
Vale dos Imortais - Tomo 2, de Yves Sente, Teun Berserik e Peter Van
Dongen
·
2020 - O
Grito do Moloch - de Jean Dufaux, Thomas Gunzig, Francois Schuiten e
Laurent Durieux
·
2021 - O
Último Espadão - de Jean Van Hamme, Teun Berserik e Peter Van Dongen
·
2022 - Oito
Horas em Berlim - de José-Louis Bocquet, Jean-Luc Fromental e Antoine
Aubinref
·
2024 - Assinado
"Olrik" - de Yves Sente e André Juillard
·
2025 - A
Ameaça Atlante - Yves Sente e Peter van Dongen
Volumes extra:
(hors série,
no original).
·
2019 - O
Último Faraó - de François Schuiten, Jaco Van Dormael e Thomas Gunzig;
·
2023 - A
Flecha Ardente - de Jean Van Hamme, Christian Cailleaux e Étienne
Schréder (continuação de “O Raio U”);
·
2023 - A
Arte da Guerra - de Jean-Luc Fromental e José-Louis Bocquet .
BIBLIOGRAFIA (do meu arquivo pessoal)
BANG nº 4, Automne 2003, ed. Casterman/BeauxArts
BD Guide – Encyclopédie de la bande dessinée
international, ed omnibus, 2003
Blake et Mortimer – Deux aventuriers au coeur du XX.e
siècle, Geo Histoire Outubro/Novembro de 2019;
GALLO, Claude Le, Le Monde de Edgar P. Jacobs, ed.
Auters/Lombard, 2ª edição 2004 [1ª edição, Novembro de 1984]
JACOBS, Edgar P., [La Marque Jeune] – Une Histoire du
Journal TinTin [reprodução das pranchas originais publicadas na revista
TinTin], Editions Blake & Mortimer/Studio Jacobs (Darguad/Lombard), 1ª
edição Novembro de 2012;
JACOBS, Edgar Pierre, Un Opéra de Papier/Les Mémoires de
Blake et Mortimer, ed. Gallimard, 1981 (rééd. 2014);
LAMBEAU, Frans, Dictionnaire Illustré de La Bande
Dessinée Belge sous l’occupation, André Versailles editeur, 2013;
LAMBEAU, Frans, Dictionnaire Illustré de la Bande
Dessinée Belge – De La Libération aux fifties (1945-1950), Les Editions de La Province
de Liége, 2016;
La Marque Jaune – La Chef-d’oeuvre de Blake et Mortimer,
Les Cahiers de La BD, Hors-Série, Novembro 2020;
LENNE, Gérard, L’ Affaire Jacobs, ed.Megawave, 1990;
Les Personages de Blake et Mortimer dans l’Histoire – Les
événements qui ont inspire l’ouvre d’ Edgar P. Jacobs, Le Point/Historia,
Hors-Série, 2014;
Les Voyages de Blake et Mortimer – Deux aventuriers à
travers le monde, ed, Geo, 2023;
L’Integrale Flash Gordon, tomes 3 e 4, ed. Hachette;
MARICQ, Dominique (coordenação) Le Journal TinTin – Les
Coulisses d’un Aventure – avec le facsimilé du nº 1 Encarté, ed. Moulinsart,
2006;
MOUCHART, Benoit & RIVIÈRE, François, Edgar P. Jacobs
– Um Pacte avec Blake et Mortimer, Les Impressions Nouvelles, 2021 (trata-se da
renovação e aprofundamento de um anterior título dos mesmos autores, “La
Damnation d’Edgar P. Jacobs”, ed. Seuil/Archimbaud, de 2003);
QUITTELIER, Viviane, Edgar P. Jacobs. Témoignages
inédits, ed. Mosquito, 2009;
Schtroumpf – Les Cahiers de La Bande Dessinée, nº 30 –
Edgar Pierre Jacobs, ed. Jacques Glénat, 1976;
VASCO GRANJA, Uma vida… 100 imagens, ed. Asa,2003;
VERHOEST, Éric, Du Duo ao duel – L’histoire d’une aitié
créative, ed. Moulinsart/Casterman, 2026;




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