sábado, 10 de outubro de 2026

Lucky Luke -80 anos a disparar mais rápido que a própria sombra


“Lucky Luke é toda a história do Oeste, a única autêntica aventura dos temos modernos”

René Goscinny

O “Nascimento” de Lucky Luke

O famoso cowboy Lucky e Luke completou 80 anos de vida em Outubro de 2026, tendo surgiu pela primeira vez nas páginas da edição francesa da revista Spirou em 10 de Outubro de 1946.

Essa primeira aventura intitulou-se “Arizona 1880”, uma aventura de 22 páginas e que voltou a ser editada na Bélgica no L’Almanach Spirou 1947, editado em 7 de Dezembro de 1946.

Lucky Luke só aparece nessa aventura na terceira página e a sua figura é muito diferente daquela que geralmente conhecemos, acompanhado do inseparável cavalo Jolly Jumper.

As figuras e o ritmo dessa primeira aventura são ainda muito influenciados pela actividade anterior do autor dessa série, que tinha trabalhado num estúdio de cinema de animação: figuras arredondadas, ao estilo de Mickey ou Popey, com mãos de 4 dedos, um ritmo truculento, muito dinâmico, com poucas palavras.

O primeiro herói da série é um miúdo, Tom, que pede ajuda a Lucky Luke para salvar o pai, preso por baixo de uma diligência que caiu, depois de ser assaltada. Nesta aventura surge também o primeiro de uma longa lista de vilões, Big Billy, um batoteiro e assaltante de diligências.

A cena final já anuncia a imagem icónica que termina todas as aventuras da série, Lucky Luke caminhando em direcção a um sol que põe no horizonte, nesta primeira aventura tocando uma harmónica.

Nada fazia prever o enorme êxito dessa série, a mais vendida e editada na Banda Desenhada franco-belga, muito à frente de Asterix ou Tintim.

Morris (Maurice de Bevere)

O criado da série nasceu em Courtrai, na região flamenga da Bélgica, no dia 1 de Dezembro de 1923, 2º filho de um industrial local, fabricante de cachimbos em cerâmica importada da Alemanha.

Após ter frequentado as primeira letras, Maurice foi estudar para um colégio particular católico dirigido por jesuítas em Alast, a 16 Km da sua terra natal.

Paras e descontrair e fugir do ambiente austero do colégio desenhava imenso nos cadernos escolares, onde caricaturava colegas e professores.

Ao estudar o texto “A Guerra das Gálias” de Júlio César na disciplina de humanidades greco-latinas, ilustrou todo esse texto desenhando, como alguém diria, “Asterix antes do tempo”.

Por essa altura assinou ao Petit Vingtieme, em cujas páginas ficou a conhecer as aventuras de Tintin, tendo copiado, página a página, o “TinTin no País dos Soviets”.

Assinava igualmente a revista Mickey Mouse Weekly, através de cuja leitura aprendeu, como autodidacta, o inglês.

Apreciava também a obra de Marijac, um desenhador francês muito importante ante da guerra, criador da série Jim Boum, as aventuras de um cowboy.

Durante esse período de infância e juventude era frequentador habitual das sessões de cinema em Courtai, especialmente os Western’s e o cinema de animação, ficando-lhe na memória a exibição, em 1937, do filme de Disney “Branca de Neve e os Sete Anões”.

Esses primeiros Western’s a que assitiu inicialmente eram mudos, depois eram cantados por cowboys acompanhados por guitarras.

Tinha um projector em casa, o que lhe permitiu ver filmes mudos, curtas metragens e desenhos animados, que ele esmiuçava, plano a plano, familiarizando-se assim com as técnicas de animação.

A caricatura foi um das suas primeiras actividades, muito por influência do pai que decorava os seus cachimbos com caricaturas de personalidades da época e, em 1939, Maurice, então com 15 anos, começou a colaborar na revista do colégio “Jong Leven” onde publicou caricaturas.

Em 10 de Maio de 1940 a Bélgica é invadida pelos alemães, que bombardeiam o colégio, do qual tem de fugir. Segue-se um período de penúria e falta de alimentos. Em 1942 os alemães instauram o trabalho obrigatório nas fábricas alemãs.

Para escapar ao trabalho forçado na Alemanha, Maurice inscreve-se na Universidade de Luvaine para estudar direito, mas, no início de 1944, é requisitado pelos alemães para trabalhar numa cadeia de montagem numa metalúrgica em Marcke, perto da sua cidade Natal, onde trabalha cerca de 8 meses, até à libertação.

De forma clandestina publicou, em Outubro de 1944, um cartoon no boletim do núcleo da resistência de Courtai.

No final da guerra inscreve-se num curso de cinema de animação por correspondência, dirigido pelo desenhador francês Jean Image.

Em Março de 1945 responde a um anuncio de trabalho num estúdio de cinema de animação em Bruxelas, CBA (Companhia Belga de actualidades). Esse estúdio produzia páginas de actualidades para passar nos cinemas e que se lançou no cinema de animação durante a guerra para substituir a produção norte-americana, proibida durante a ocupação nazi. A sua experiência nesse estúdio foi de curta duração, pois a CBA faliu pouco depois da sua entrada. Contudo, nessa curta experiência, conheceu alguns amigos para a vida, que também fizeram carreira na  BD, como Eddy Paape, Franquin ou Peyo.

No outono de 1945 procurou trabalho na editora Dupuis, que editava as revistas Le Moustique e Spirou , para as  quais realiza desenhos e ilustrações, nomeadamente caricaturas de actores de cinema.

Já tendo esboçado a figura de um cowboy para os estúdios CBA, acaba por apresentar um projecto de BD com um cowboy como herói, nascendo assim Lucky Luke.

Ainda longe de calcular o êxito dessa personagem, começa a colaborar regularmente na revista Spirou. A partir de 1947 vai viver, juntamente com Franquin e Will, na casa de Jijé em Waterloo. Não tendo frequentado uma escola de arte, sendo um autodidacta, Morris confessou mais tarde que aprendeu muito no estúdio de Jijé.

O Período Americano

Temendo um novo conflito mundial, que seria nuclear, Jijé consegue convencer Franquin e Morris a acompanhá-lo numa viagem para os Estados Unidos.

Morris alinha por se sentir atraído por poder conhecer o ambiente do Oeste americano e devido à admiração que nutria pelo cinema de animação desse país, sonhando fazer carreira nesse meio.

Morris, Franquin, Jijé, a esposa deste Annie Gillan e os seus quatro filhos, Benoit, o mais velho de 10 anos, Anne, Philippe e Dominique, esta ainda bébé, partem de barco de Roterdão a caminho dos Estados Unidos em 3 de Agosto de 1948.

Morris era o único a dominar o inglês e vai servir de interprete do grupo.

Essa aventura serviu de base a uma banda desenhada editada em 2012, “Gringos Locos”, da autori de Yann e Schwartz, que devia ser publicada em dois volumes, mas, por oposição da família dos autores caricaturados, acabou por ser suspensa. O segundo volume devia intitular-se “Crazy Belgium”. Deste apenas foram elaboradas 7 pranchas.

Chegados a Nova Iorque, passaram uma semana num hotel de Times Squares, à espera que Jijé obtivesse uma autorização de condução para viajarem para Oeste até ao México. Finalmente aduirida a dita autorização, Jijé adquiriu uma Hudson Commmodore, modelo de1946, que acomodou 4 adultos, 3 crianças, 1 bébé, bagagem e material de campismo.

Partindo de Nova Iorque, tendo S. Francisco como destino, passaram por Saint Louis, Oklahoma City, Grand Canyon…3 semanas “on the road”.

Na passagem para o México enfrentaram alguns problemas, apenas tendo conseguido passar a fronteira a família Gillain, que se estabeleceram em Tijuana. Finalmente, algumas semanas mais tarde, Franquin e Morris conseguiram juntar-se à família de Jijé, partindo para a Cidade do México, onde passaram o Natal de 1948. Na capital mexicana Franquin e Morris instalaram-se no hotel Bayona.

Ao longo desse tempo Morris preparou vários episódios de Lucky Luke para enviar para a revista Spirou. Foi desse período a elaboração de “Le Rue vers l’or de Buffalo Creack”, uma história de 18 páginas que começou a ser publicada a partir de 24 de Fevereiro de 1949 e “Lucky Luke contra Cigarrette Caesar”, editada a partir de 30 de Junho de 1949, esta ultima muito influenciado pelo ambiente mexicano.

As pranchas originais eram enviadas para a Bélgica por correio aéreo e, para poupar no preço do envio, Morris recorreu a uma fórmula rara, desenhando dos dois lados da mesma prancha.

Em Abril os vistos mexicanos de Franquin e Morris expiraram, regressando ambos a Nova Iorque, via Chicago.

Partindo de Nova Iorque, Franquin regressou à Europa.

Morris ficou sozinho nessa cidade, onde permaneceu mais 6 anos e foi viver para um apartamento em Manhattan, num 16º andar da West End Avenue.

Aí estabelecido, inscreveu-se numa escola de artes e foi mostrar os seus desenhos no estúdio de Fred Ottenheimer, autor da série From Hero To Insanity, realizando ilustrações não assinadas para comic-books e livros infantis, ao mesmo tempo que continuava a desenhar a série Lucky Luke.

Regressando do México, a família de Jijé instalou-se em Wilton, uma vila do Connecticul, próxima de Nova Iorque.

Em Agosto de 1949 Jijé apresenta a Morris um francês, criado na Argentina, que coloria cartas postais, um tal…René Goscinny.

Morris e Goscinny tornam-se amigos inseparáveis, onde se juntavam na apartamento do primeiro para ver combate de box na televisão. Contudo, só em 1955 é que Goscinny inicia a sua colaboração com Morris na série Lucky Luke, assunto ao qual voltaremos mais à frente.

Duranta essa estadia nova-iorquina, Morris deslocava-se regularmente à Biblioteca Municipal da cidade para consultar livros e documentos sobre o Far West, frequenta salas de cinema especializadas no cinema de animação.

Através de Goscinny conhece os futuros criadores da revista MAD, Jack Davis, William Elder e Harvey Kurtzman, passando a ser visita habitual do estúdio deste último.

Este contacto com os autores da revista Mad vai influenciar a obra de Morris, nomeadamente na simplificação gráfica, na expressividade no trato e num uso mais cuidado da paródia gráfica, influencia notória na aventura “L’Elixir du docteur Doxey”, publicada na revista Spirou partir e 11 de Fevereiro de 1953.

Durante essa estadia casa-se com Francine em 1952 e, em 1955, regressa à Bélgica.

Goscinny entra em cena

Como vimos anteriormente, Morris e Goscinny conheceram-se nos Estados Unidos e tornaram-se amigos inseparáveis.

Goscinny chegou a ser convidado para padrinho de casamento de Morris em 1952, mas foi impedido pela lei norte-americana pelo facto de ser judeu e o casamento ser católico.

A sua colaboração com Morris na série Lucky Luke começou em 1954, na elaboração do argumento da aventura “Des rails sur la prairie”, publicada na revista Spirou a partir de 25 de Agosto de 1955. Essa colaboração começou com Morris ainda a viver nos Estados Unidos e Goscinny em França, muito trabalho feito por correspondência, correspondência que continuou como principal forma de contacto entre ambos depois de Morris regressar à Bélgica, em 1955.

Nas primeiras histórias que originaram dessa colaboração  não aparece ainda a assinatura de Goscinny. Só após ter colaborado como argumentista em 9 aventuras é que, finalmente, apareceu a assinatura de René Goscinny como argumentista. Foi na aventura “Les Rivais de Painful Galch”, publicada na revista Spirou a partir de 5 de Janeiro de 1961.

Em alguns dos álbuns anteriores já aparecia a referência à colaboração, ao lado de Morris, de um misterioso R.G., as iniciais do argumentista que levantaram muita especulação sobre o quem se escondia por detrás dessas iniciais. Houve quem aventasse a hipótese de essas iniciais esconderem uma colaboração de Hergé, que já tinha assinado alguns trabalhos seus com iniciais idênticas.

O aparecimento de Goscinny como coautor da série foi uma conquista importante para a época, dado que, muitas vezes, o habitual era aparecer apenas o nome do desenhador, sem referência a outros colaboradores no argumento.

Para Goscinny, a colaboração com Morris foi o seu primeiro trabalho de fôlego como argumentista, ainda antes de outras colaborações importantes com Uderzo, em Oumpah-pah, em 1958, e em Astérix a partir de 1959, com Sempé em Petit Nicolas, também a partir desse ano, ou com Tabary em Iznogoud a partir de 1962.

A colaboração a Goscinny por essa parceria era paga directamente por Morris, numa base de 1/3 para o argumentista e 2/3 para o desenhador.

Goscinny surgiu na série numa altura em que esta perdia algum fulgor e originalidade, havendo quem afirme que, se esse argumentista não tivesse aparecido, a séria não teria sobrevivido muito mais tempo.

Os argumentos de Goscinny viveram dar uma nova dinâmica à série, baseando-se na realidade da riqueza histórica do Oeste, ponto de partida de todas as aventuras por si escritas, sempre com uma preocupação documental, usando sistematicamente todas as lendas, figuras e conquistas, dando-lhes uma volta fortemente irónica nos diálogos e argumentos mais sólidos.

Algumas das personagens mais icónicas da série, de Rantanplan, aos Primos Dalton, de Calamity Jane a Billy the Kid, entre outras, muitas baseadas em figuras reais da mitologia do Oeste norte-americano, foram introduzidas por Goscinny, que lhe deu características psicológicas muito próprias e sólidas.

Goscinny, tardiamente reconhecido pela Dupuis, a primeira editora da série e da revista Spirou, reconhece a importância de Goscinny na série, que entretanto conseguiu que Lucky Luke deixasse a revista Spirou para começar a ser publicada na revista Pilote, dirigida por Goscinny, onde este tinha um lugar de destaque como argumentista da série Astérix.

Essa transferência deu-se em 1968, onde a aventura de Lucky Luke “Dalton City” começa a ser publicada em 4 de Abril desse ano.

Em 1971 os dois amigos lançam-se no cinema de animação, o velho sonho de Morris, com a primeira longa metragem da série produzida pela Belvision, “Daisy Town”. Pouco tempo depois Goscinny cria com Uderzo uma produtora independente de cinema de animação, a “Ideafix”, que produz o segundo filme de animação da série “La Ballade des Dalton”, que faz a síntese de vária aventuras da série, e que será estreado em 1978, postumamente à morte de Goscinny ocorrida no ano anterior.

Esse ano de 1977 foi um ano de grandes conflitos entre Goscinny e a Dargaud, editor da revista Pilote, que chega às barras do tribunal. Goscinny chega a pedir a Uderzo para, em solidariedade, deixar de desenhar a aventura de Asterix que estavam a produzir, “Astérix entre os Belgas”, pedido a que Uderzo acedeu. Tendo feito o mesmo pedido a Morris, que estava a desenhar “O Fio que Canta”, este ignorou o pedido do amigo e prosseguiu a preparação da edição em álbum dessa aventura a produzir pela Dargaud.

Esse conflito foi violentamente interrompido com o falecimento de Goscinny, de ataque cardíaco em 5 de Novembro de 1977.

Aquelas duas aventuras, de Asterix e Lucky Luke, a do primeiro a título póstumo, foram as duas últimas escritas por Goscinny.

Breve evocação de Goscinny e do seu percurso 

René Goscinny nasceu em Paris em 14 de Agosto de 1926, mas acompanhou os pais, judeus de origem ucraniana, a mãe, e polaca, o pai,  na sua emigração para a Argentina, onde viveu até 1945, quando foi viver para Nova Iorque,  junto de um tio, devido ao falecimento do pai. Sendo incorporado na armada americana, partiu para França, mas sem nunca ter entrado em combate. Regressado aos Estados Unidos, conheceu alguns dos mais importantes desenhadores que estiveram na origem da criação da revista MAD em 1952, entre eles Hervey Kurtzman.

Conheceu também, na ocasião, dois dos mais importantes autores da BD franco belga, Jijé, um dos desenhadores da série Spirou, e Morris, o criador de Lukcy Luke, que por essa altura viveram algum tempo em Nova Iorque. Estes apresentam-no a Georges Troisfontaine, director da agência World’s Press, uma agência belga especializada na divulgação de BD. Goscinny resolve ir a Bruxelas apresentar o seu trabalho, como desenhador, nesta agência, que o ignora. Apesar disso Troisfontaine entrega-lhe a responsabilidade pela sede da agência em Paris. É então que  Jean_Michel Charlier, criador da série Tenente Blueberry, o põe em contacto com o meio da banda desenhada franco-belga, onde conhece Albert Uderzo, com quem inicia uma profícua colaboração.

Desistindo em definitivo de se dedicar ao desenho,  inicia-se, em 1952,  como argumentista da série “As Belas Histórias do Tio Paul”, desenhada por Pierre Dupuis e Eddy Paape, e, a partir de 1955,  com o seu amigo Morris, nos argumentos de algumas das mais interessantes aventuras de Lucky Luke, publicadas na revista Spirou.

“Des Rails sur la Prairie”, foi a primeira aventura com o seu argumento, embora a sua autoria só fosse assumida mais de 9 aventuras depois . Foi responsável pelos argumentos de mais de 40 títulos da série, e pela criação de algumas das mais icónicas personagens da série com Calamity Jane  e os Primos Dalton. A ele também se deve a célebre frase do herói da série, “o homem que dispara mais rápido que a sua própria sombra”.

Em 1952 começou a colaborar com Uderzo  na série Jehan Pistolet e Luc Junior. Em 1955 escreve e desenha a  “Le capitaine Bibodou” para o efémero semanário “Risque-Tout”, editado pela Dupuis, com a intenção de lançar novos autores a integrar no futuro na revista Spirou. Em 1956 cria outra das suas  séries de marca, “Le Petit Nicolas”, desenhada por Sempé para a revita Le Moustique.  Colabora esporadicamente com Jijé, em 1956, na série Jerry Spring, no episódio “L’or du vieux Lender”.

Em 1956 entra para a revista TinTin, sendo responsável pelos argumentos de várias séries e histórias, entre elas o “Senhor Spaghetti” de Dino Attanasio, Monsieur Tric, com Bob De Moor, Prudence Petipas, com Maurice Maréchal, Modeste e Pompom de Franquin, num episódio de Chick Bill, com Tibet, Le Pére La Houl, com Macherot, Srampontin com Berck e, com Uderzo, criando a série Humpá-pá, que vai ser uma espécie de ensaio geral de Astérix.

Nesse momento de grande criatividade, colabora em revistas como Paris-Flirt (com Will). Jour de France (com Coce) e com Godard, na revista de BD francesa, ligada ao Partido Comunista,  Vaillant, antecessora da revista PIF.

Juntamente com Uderzo e outros jovens autores, lança-se em 1959 na aventura da criação de revista francesa Pilote,  para a qual criam Ásterix, que inicia a sua longa vida na 1ª edição dessa revista editada em 29 de Outubro de 1959.

Nessa revista, que vai colocar a BD num novo patamar qualitativo, retoma antigas personagens como Pistolin (1959), Le Petit Nicolas (1959) e Johan Soupolet (1960).

Quando se torna chefe de redacção da revista, lança uma nova e criativa geração de autores, colaborando como argumentista com alguns deles, como Martial em “Les Divagations de Monsieur Sait-Tout”, em 1961, Gotlib em Les Dingodossiers, em 1965, ou Mic Delinx em La Forêt de Chênebrau, em 1966. Uma das grandes novidades e conquistas que conseguiu para o prestígio da revista foi ter “roubado” à revista Spirou a série Lukcky Luke que desenvolvia há mais de uma década nesse semanário belga em coautoria com Morris. A primeira aventura de Lucky Luke publicada nas páginas de Pilote, em 4 de Abril de 1968, foi “Dalton City”.

Continua a colaborar noutras séries publicadas noutras revistas como no argumento do Califa Haroum et Poussaha, desenhado por Jean Tabary, para o mensário Record, série esta que tem o célebre Vizir Iznogoud como personagem icónica.

Contestado por vários jovens autores na sequência do Maio de 1968, e depois de uma saída em massa de vários deles para fundarem outras revistas icónica das BD francesa, como Charlie Hebdo, L’Echo des Savannes ou Fluide Glacial, acabou por sair da revista, dedicando-se ao cinema de animação e à série Ásterix, criando o Estúdio Idéfix, contribuindo para relançar a animação francesa, ao mesmo tempo que lança, com Uderzo a sua própria casa editorial

Na sequência de uma prova de esforço, recomendada pelo seu cardiologista, acaba por morrer de ataque cardíaco em 5 de Novembro de 1977, aos 51 anos, tendo deixado pronto o argumento para mais uma aventura de Asterix, “Astérix entre os Belgas”, que só foi publicada em 1979, a última aventura do irredutível gaulês, num total de 24, que contou com o seu argumento.

Principais Características da série Lucky Luke

O desenho animado e os Western’s foram as paixões de Morris na sua infância e juventude.

Ao criar Lucky Luke baseou-se muito nessas suas paixões, pois o objectivo de Morris era vir a tornar o seu herói em figura de cinema de animação, género que foi a principal influência na forma como desenhou e desenvolveu as primeiras histórias.

Para além da forma arredondada das primeiras figuras do herói, sente-se a influência do cinema, procurando em Lucky Luke uma síntese de clássicos como Gary Cooper, Tom Mix e James Stewart, seguindo o modelo clássico do cowboy taciturno, grave e solitário.

Os temas recorrentes nas suas aventuras são os clássicos do western, a corrida ao ouro, o combate contra os índios, a construção do caminho de ferro, as novas cidades que crescem ao logo de uma rua principal, acompanhando a conquista do Oeste, com o seu saloon, a sua prisão, o seu comércio, a agência funerária, onde chegam as diligências, e identificadas pelas suas placas, os primeiros jornais, os rodeos um oeste mítico reinventado por Morris e, mais tarde, por Goscinny.

Um oeste que atrai todo o tipo de gente, do xerife ao batoteiro, do pistoleiro, ao assaltante de bancos, do colono ao assaltante de bancos e diligências, não faltando o “gato-pingado”.

Morris recorre a figuras reais da mitologia da conquista do Oeste para recriar algumas das figura que preenchem o imaginário dos leitores da série.

É toda uma galeria de personagens, muitas reais, de primeiro ou segundo palno, mas recriadas pela imaginação dos autores, que povoam a comédia humana retratada nas aventuras de Lucky Luke: Eliot Belt, Jack le Muscle, Cole Younger, Dopey, Imperador Smith, Roy Bean, Jess James e o seu irmão Franck, Dr. Otto Von Himbeergeist, Coron O’Nollan, Bronco Fortworth,  reverando Sinclair Rawlwr, Calamity Jane, Billy the Kid, Cass Casey, Pat Poker, Scott Thumbs, Denver Mills, Jack Ready, Cayote Will, Jess Jamon, xerife Bill Boney, Allan Pinkerton, Black Bart, Belle Star, Sarah Bernhardt, Annabelle Flimsey, os Dalton…

Não por acaso, esse é um universo quase totalmente masculino. As figuras femininas ocupam um lugar secundário no universo de Lucky Luke, em grande parte porque a editora Dupuis tolerava mal a presença do género feminino nas suas publicações, a não ser exercendo funções tradicionais, muito por causa da Lei de censura francesa de 1949.

Embora a censura Bélgica fosse muito benevolente, os editores belgas que queriam entrar no grande mercado francês queriam evitar problemas com a censura francesa e praticavam autocensura, sem esquecer o espírito da época.

As coisas começara a mudar na década de 60 e, no caso da série Lukcy Luke, por acção de Goscinny que, em Calimity Jane, de 1965, coloca uma mulher em primeiro plano, ainda por cima rompendo com os estereótipos das heroínas do oeste, simples bailarinas, prostitutas, elemento pacificador e frágil. Calamity Jane, baseada numa personagem real, era todo o contrário, associada à frase que lhe atribuíram de “nem prostituta, nem submissa”. Estava aberto o caminho para uma presença mais forte do elemento feminino, de uma Lulu Carabine, inspirada em Mae West, em “Dalton City” de 1968, a uma enérgica Ma Dalton de 1970, sem esquecer um Sarah Bernhard na década de 80 do século passado.

Entre o lote de personagens que se cruzam com Lucky Luke, merecem especial destaque a família Dalton.

Os Dalton parecem pela primeira vez no álbum “Hors-la-loi”, escrito e desenhado por Morris quando da sua presença nos Estados Unidos, editado na revista Spirou a partir de 20 de Setembro de 1951. Morris baseou-se nos verdadeiros Dalton, Grat, Bob, Bill e Emmet e no filme de 1940 que George Marshal lhes dedicou,”Whem the Daltons Rode”. No final morrem todos, cena que está na origem de um acto de censura em relação à ultima pagina da aventura, considerada muito violenta, e que o autor altera na edição em álbum. Contudo a verdadeira história dos Dalton foi um pouco diferente daquela imaginada por Morris.

A sua história é conhecida graças à descrição do jornalista Eye Witness que publica em 1892, “Le gang des Dalton” e, mais tarde, às memórias de Emmet Dalton, publicadas por volta de 1930.

Os verdadeiros Dalton eram filhos de Lewis Dalton, trabalhador num bar, e de Adeline Younger, parente dos irmãos Younger que faziam parte do bando de Jess James, outra figura que foi evocada na série Lucky Luke, que viviam no Kansas. Os irmãos não eram só quatro, eram…15, dos quais 3 faleceram em criança.

Em 1882  a família deslocou-se para o sudoeste do Kansas. O pai, alcoólico, abandona a família e os filhos ficam ao cuidado de uma mãe austera, que inculca uma educação religiosa e rigorosa à sua prole.

Os irmãos mais velhos, Ben e Cole, obtêm diploma universitário, Bill vai para a Califórnia e Frank torna-se marshal federal no Arkansas desde 1881, sendo morto no exercício das suas funções, em 1887, por um ladrão de cavalos.

Grat (Gratton) ocupa o lugar de xerife do irmão assassinado, acompanhado pelos irmãos Emmet (então com16 anos) e Robert (Bob) (então com 18 anos). Rapidamente estes três irmãos, “homens de lei”, são acusados de abuso de autoridade e, em 1889, Bob assassina um cowboy, Charlie Montgomery, por ter ousado fazer a corte a uma namorada. Devido a esse caso, que retira a autoridade aos irmão, e ao atraso no pagamento das suas funções, Grat e Bob entram na senda do crime, roubando cavalos e traficando álcool em território indío.

Nasce assim o bando dos Dalton, ao qual se junta um terceiro irmão, Emmet. Em 1890 Bill junta-se aos três irmãos e assaltam uma sala do jogo em Silve City e posteriormente são acusados de um assalto a um comboio e à morte do maquinista.

No dia 5 de Outubro de 1892 o bando ataca dois bancos em Coffeyville, no Kansas, mas as coisas correm mal e, no confronto com as autoridades, Grat e Bob são abatidos, juntamente com dois outros membros do bando, Bill Powerr e Dick Breadwell.

Emmet, ferido com 21 balas no corpo, sobrevive e passa 14 anos na prisão. Libertado, casa com uma antiga namorada, Julia, torna-se agente imobiliário, escreve as memórias do bando e trabalha no cinema, desempenhando o seu próprio papel num filme de 1916, vivendo em Los Angeles até morrer em 1937.

Voltando aos Dalton ficcionados por Morris, como vimos este resolveu “matar” os 4 irmãos, Grat, Bob, Bill e Emmet. Mas esses personagens causaram logo grande impacto junto dos leitores da série que escreveram cartas a Morris descontentes com o desfecho. Quando, em 1954, convida Goscinny para escrever os argumentos da série, pede-lhe que ressuscite os Dalton. Goscinny resolve inventar uns primos que surgem para vingar a “morte” dos “verdadeiros”.

É assim que aparecem os primos Dalton, Joe, Jack, William e Averell, os vilões mais famosos da série e que vão aparecer o título de mais de vinte álbuns da série e, com menos destaque, noutros tantos álbuns.

O facto de estes Dalton terem sido totalmente reinventados permite uma liberdade de argumeto e imaginação que os tornam quase tão famosos como Lucky Luke.

Os primos surgem pela primeira vez, num papel secundário, em 1956 na história “Lucky Luke contra Jess Jamon”, surgindo no papel principal na aventura seguinte, nesse mesmo ano, “Os Primos Dalton”.

Duas outras figuras da família Dalton vão aparecer na série. “Ma Dalton”, de 1971, figura baseada na mãe dos verdadeiros Dalton, Adele Dalton, descrita no livro de memórias de Emmettt “Nous les Dalton..” e “Marcel Dalton”, álbum de 1998,um Dalton honesto imaginado pelo argumentista Bob de Groot, um dos substitutos de Goscinny na construção de argumentos para a série, tomando por base um dos Dalton que enveredou pelo mundo do crime, o xerife Frank Dalton.

Associado ao aparecimento dos primos Dalton urge outro personagem icónico da série, o cão RanTanPlan, o “cão mais estúpido do Oeste”, verdadeira alma gémea do Dalton Avarell.

RanTanPlan surge pela primeira vez em “Sur La Pista des Dalton”, em 1961 e foi pensado como uma paródia a RiTinTin, o cão vedeta de uma série televisiva alemã.

O êxito desse personagem tona-o o herói principal do álbum L’Héritage de RanTanPalan, de 1973, tornando-se depois personagem principal de uma série publicada entre 1987 e 2011. Em 2006 as suas aventuras para ao cinema de animação.

Em contraponto com a sua estupidez, está Jolly Jumper, o cavalo de Lucky Luke que acompanha o herói desde a sua primeira aparição.

Começa a ter uma intervenção própria na série a partir do 10º álbum, “Alerte aux Pieds-Bleu” , passando a falar regularmente na história “Sur la Pista des Dalton”, embora tenha aparecido a falar pela primeira vez numa cena de “La Mine d’or de Dick Digger”, em 1947, mas que não aparece no álbum onde é publicada a mesma aventura.

É o contraponto de RanTanPlan, na inteligência e nas capacidades.

Morris faleceu em 16 de Julho de 2001, saindo poucos meses depois, a título póstumo, o 71º álbum da série, “A Lenda do Oeste”.

Ao contrário de outros heróis, que “morreram” com o autor, Lucky Luke continua as suas aventuras.

(este texto é um esboço para um texto mais completo a ser publicado na edição do fanzine Impulso programado para ser editado em Maio de 2027)

 

 

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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Álbum comemorativo do 80º aniversário de Blake e Mortimer tem Portugal como cenário


O próximo álbum da série Blake e Mortimer, a sair este mês, vai ter Portugal como cenário.

Vai ser um álbum comemorativo do 80º aniversário da série e, de forma diferente dos anteriores, é uma obra colectiva que inclui 10 histórias inéditas e independentes, que prestam uma homenagem a figuras secundárias da série.

Para o efeito foram convidados 17 desenhadores e argumentistas para criarem 10 histórias independentes, de 6 páginas cada.

Uma dessas histórias tem por cenário o Estoril dos anos 1940, intitulada “Operação Estoril”, com argumento e desenho de Nicolas Barral.

A história conta o primeiro encontro entre Blake e o major Benson, durante uma missão em Portugal em 1940, em plena 2ª Guerra Mundial.

O objectivo desse encontro visa  enfrentar uma conspiração dos serviços secretos nazis que pretendem colocar na coroa britânica alguém da sua confiança.

Nicolas Barral é um admirador da série Blake e Mortimer, sendo responsável pela série que ironiz com a obra de Jacobs, "Les Aventures de Philip e France", crida em 2005 e foi autor de duas outras obras ambientadas em Portugal, “O Desassossegado Senhos Pessoa”, de 2025, e uma obra anterior,  “Ao Som do Fado” de 2020.



Recorde-se que o território português já foi tema de duas aventuras da série, uma ainda desenhada por Edgar Pierre Jacobs, “O Enigma da Atlântida”, de 1957, e a última “A Ameaça Atlante”, editada em 2025, com argumento de Yves Sente e desenho de Peter Van Dongen, ambas passada nos Açores.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

A Marca de Jacobs e a dupla comemoração (1946/1956-2026)

(ilustração de Lança Guerreiro)

Por coincidência, este é o ano de uma dupla comemoração de um dos ícones da Banda Desenhada: o octogésimo aniversário  da série Blake e Mortimer, que surgiu pela primeira vez no primeiro número da revista belga Tintin, em 1946, e o septuagésimo aniversário da primeira publicação em álbum da mais importante aventura da dupla, “A Marca Amarela”, em 1956.

A esse propósito, aqui recordamos, em breve evocação, a carreira do seu autor, Edgar Pierre Jacobs, da sua série e, em especial, desse álbum “A Marca Amarela”, uma das grandes referências da 9ª arte.

Eu e Blake e Mortimer

Pessoalmente, o meu primeiro contacto com essa série teve lugar na minha infância, aí pelos inícios da década de 1960, ao desfolhar uma edição especial do “Cavaleiro Andante” do Natal de 1952, o nº 51 de 20 de Dezembro desse ano, que existia lá por casa, espólio que a minha mãe tinha trazido de casa dos meus avós quando se casou. Nessa edição pude apreciar uma página, a duas cores, da primeira aventura da série Blake e Mortimer publicada em Portugal, “O Mistério da Grande Pirâmide”, a página 22 da história, onde se inicia a perseguição, nas ruas do Cairo, do misterioso carro preto guiado pelo vilão Sharkey. Desconhecendo as peripécias anteriores e posteriores, pois esse era o único exemplar daquela revista que estava em casa dos meus pais, essa página mereceu-me especial atenção, destacando-se das restantes aventuras publicadas na revista pela nitidez do desenho e pelo ritmo da decopagem dessa prancha.

Fiquei a conhecer melhor a série através da revista “O Foguetão” que os meus pais me compraram desde o primeiro número de 4 de Maio de 1961 e que publicou, entre outras séries da escola franco-belga, e pela primeira vez em Portugal, a aventura “A Armadilha Diabólica”, quase em simultâneo com o início da publicação dessa aventura na Bélgica (teve estreia em Setembro de 1960). Infelizmente a publicação de “O Foguetão” foi interrompida na sua 13ª edição, em 27 de Julho de 1961, ficando a menos de meio a leitura dessa aventura, que continuou a ser publicada na revista Cavaleiro Andante, mas esta publicação nunca entrou lá em casa.

Curiosamente, “A Armadilha Diabólica” foi a primeira aventura da série que consegui ler na integra, isto porque, quando comecei a receber regularmente a revista Tintin, uma oferta do meu avô que tinha uma livraria e papelaria , era essa aventura de Blake e Mortimer que estava a começar a ser publicada em continuação.

O primeiro número que o meu avô me ofereceu, tinha eu então os meus 14 anos, foi o nº 42 do 2º ano da revista portuguesa, publicado em 14 de Março de 1970, onde se incluía a 2º prancha de “A Armadilha Diabólica”, cuja aventura tinha começado a ser publicada no TinTin português no número anterior, em 7 de Março de 1970,.

Já em relação às outras aventuras da série conheci-as ao longo da década de 1970, publicadas em álbum, lidos nos verões da praia de Sant Cruz, álbuns que me eram emprestados pelo Zico. Foi em álbum que li pela primeira vez “A Marca Amarela”, aventura que me  “marcou” para sempre e que ainda hoje não me canso de reler.

No meu grupo de amigos, entusiastas pela Banda Desenhada e muito marcados pela revista “TinTIn”, todos tentávamos imitar Jacobs e Hergé e, de forma não muito rigorosa, dividamo-nos entre os fãs de TinTin e os de Blake e Mortimer. Eu fazia parte deste último grupo e continuo a reler as aventuras da série de Jacobs , não perdendo o aparecimento das novas aventuras continuadas por alguns dos melhores autores da BD franco-belga.

Recentemente, em Fevereiro de 2025, fiz um roteiro belga em memória de Jacobs, percorrendo Lasne, onde visitei o seu original túmulo no cemitério dessa localidade, a Biblioteca Edgar Pierre Jacobs, assim intitulada em sua homenagem, a antiga rua do “Bois des Pauvres”, onde se situou a sua última morada (no local existe agora outra casa) e, já em Bruxelas, a casa onde ele nasceu e, bem próximo, o mural que homenageia a série por si criada.]

Breve biografia de Jacobs

Edgar (aliás Edgard) Félix Pierre Jacobs nasceu em Bruxelas em 30 de Março de 1904, no famoso bairro de Sablon, no nº5 da rua Ernest Allard, bem perto do misterioso Palácio da Justiça. Uma placa colocada à entrada do prédio ainda hoje assinala esse facto.

Desde cedo, e principalmente ao entrar para o liceu em 1915, revelou o seu gosto pelo desenho e pela História.

É conhecida a qualidade das ilustrações com que ele decorou os seus cadernos da sua disciplina preferida, a de História,  em 1917 e 1918.

Mas, mais que o desenho, a sua grande paixão foi a ópera, iniciada quando assistiu em 1917 à representação lírica de “Fausto” no Teatro Real da Galerias de Saint-Hubert.

Nesse mesmo ano travou conhecimento escolar com Jacques Van Melkebeke, amigo que o acompanhou toda a vida, figura marcante nas influências artísticas e literárias de Jacobs.

Terá sido por essa altura que Jacobs leu uma das obras que mais o influenciou no seu gosto pela ficção científica, “A Guerra dos Mundos” de H.G. Weels (1866-1946).

Além da ópera, que ele frequentava nas soirées do Teatro de “La Monnaie” (da Bolsa), era igualmente frequentador dominical das sessões de cinema, exibidas nas mais variadas salas, apreciando em especial as obras de René Clair, Abel Gance, Max Linder, Charles Chaplin, Buster Keaton, Harold Lloyd, D. W. Griffith, Cecil B. De Mille, e praticamente todo o expressionismo alemão de Fritz Lang, Murnau a Robert Wine, e filmes como “O Sinal de Zorro”, “Os 4 Cavaleiros do Apocalipse”, “Bem-Hur” ou “O Gabinete do Dr. Caligari”.

Em 1919 , juntamente com o  amigo Van Melkebeke, entrou para a Academia Real das Belas Artes de Bruxelas, então dirigida pelo famoso arquitecto Victor Horta, na secção de “Decoração”, mas abandonou esses estudos em 1920.

Nas artes plásticas sentiu-se atraído pela obra de Dürer e Holbein, apreciando em especial as ilustrações de Gutave Doré para o “Inferno” de Dante.

Também visitava assiduamente o Museu do Cinquentenário, localizado próximo da sua morada de infância e juventude, onde apreciou em especial as pinturas de Brughel , Clouet, Rubens e Ingres.

Para ganhar a vida, tornou-se desenhador de joias, ilustrador de imprensa, retocador de fotografias, criador de páginas publicitárias.

No Inverno de  1921, iniciou o seu sonho de sempre, participar como figurante na ópera Guilherme Tell no Teatro de “La Monnaie”. Retocador de fotografias de dia, figurante de ópera à noite, foi assim vivido este curto período de alguma estabilidade.

Sol de pouca dura, conseguindo apenas um contrato como artista no teatro de revista, assinado em 25 de Agosto de 1922.

Em 1923 o seu amigo Van Melke cruzou-se com Jacques Laudy, o filho do retratista real (Jean Laudy), apresentado o seu novo amigo a Jacobs, uma tripla de amigos que se mantve até ao fim das suas vidas.

[O “Trio” Fantástico

Dois Jacques, Jacques Laudy (1907-1993) e Jacques Van Melkebeke (1904-1983) foram os amigos de Jacobs  para a vida. Os três conheceram-se nos anos 20 na Academia de Belas Artes de Bruxelas, embora o conhecimento entre Jacobs e Van Melkebeke já viesse da infância.

Homens cultos e entusiastas pela pintura, ambos os Jacques foram figuras influentes para a carreira de Jacobs, embora tivessem destinos diferentes.

Laudy foi autor de várias séries de BD na revista Bravo, para a qual convidou Jacobs a colaborar e foi um dos fundadores da revista TinTin, que deixou em 1962 por divergências com Hergé. Nessa revista foi responsável por várias séries passadas em ambiente histórico, como a série com que se estreou na revista TinTin, “Légende des quatre fils Aymon” (publicada entre 26 de Setembro de 1946 e 16 de Outubro de 1947), “Rob Roy MacGregor”, baseada no personagem criado por Walter Scott (publicada entre 23 de Outubro de 1947 e 22 de Abril de 1948) e “Hassan et Kaddour”, publicada a partir de 29 de Abril de 1948 com argumento de Van Melkbeke, passada no século XVIII. Foi ainda autor de várias capas da revista. Depois de sair da revista dedicou-se também à pintura e à poesia. Em 1993, antes de falecer, deixou uma obra ilustrada de homenagem ao seu amigo Edgar , “Le Royaume d’Edgar J.”.

Van Melkebeke foi muito activo em revistas colaboracionistas durante a ocupação da Bélgica pelos nazis, como nos germanófilos La Nation Belge e Le Soir “Volé”,  o que lhe custou perder uma carreira promissora como pintor e como ilustrador de Banda Desenhada, sendo condenado a vários anos de prisão após a libertação como “incívico”. Em 1943 editou um livro de memórias, Imageries bruxelloises, onde relata a sua relação com Ludy e Jacobs.Foi o responsável por Hergé e Jacobs se terem conhecido. Pouco tempo antes de ser julgado e condenado ainda pertenceu à equipa fundadora da revista TinTin em 1946, como primeiro redactor chefe da revista, embora por pouco tempo, até ao nº 13 dessa revista, de 19 de Dezembro de 1946, sendo substituído por André D. Fernandez. Continuou a colaborar de forma incógnita com a revista, com várias ilustrações não assinadas, nos cenários de algumas aventuras de TinTin , de Blake e Mortimer e de Corentin, entre outras. Só em 1957 conseguiu realizar a sua 1ª exposição de pintura no pós-guerra, obra classificada entre o surrealismo e o fantástico.]

Tempo de “vacas magras”

Em 1923, Jacobs arranjou emprego numa empresa de publicidade como ilustrador e desenhador para os catálogos de moda dos grandes armazéns em Bruxelas, (Grande Armazéns de La Bourse), actividade que encarou apenas como um ganha pão garantido, experiência que se prolongou, com algumas interrupções, até 1940.

Ao mesmo tempo decidiu tornar-se cantor de ópera. Aquela actividade deixou-lhe tempo para se dedicar ao estudo de canto na Academia de Etterbeek.

Voltou a interromper a sua actividade quando foi chamado para o serviço militar em Novembro de 1924, que cumpriu até Janeiro de 1925. Durante esse tempo participou na trupe do Teatro do seu regimento e ocupou o tempo com a leitura de obras de Mérimée, Stendhal, Voltaire, Flaubert e Tolstoi, entre outros, por recomendação do seu amigo Van Melkebeke, fixando nessas leituras as suas referência literárias.

Desmobilizado, a sua vida parecia fadada para a carreira na ópera, ainda mais evidente quando, em 29 de junho de 1929, ganhou um importante prémio de canto, tornando-se 2º barítono e entrando para a Ópera de Lille em 1931, pouco depois de se casar pela primeira vez, em 27 de Setembro de 1930, casamento que durou até aos finais dos anos 40. Nessa sala de ópera tornou-se responsável pelos projectos de indumentária e pelas maquetes dos cenários das óperas aí exibidas. Uma lei de carácter xenófoba, saída em França no inicio dos anos 30,  obriga-o a abandonar a sua carreira naquela cidade francesa  e a voltar à Bélgica, onde regressou ao seu trabalho como ilustrador publicitário, uma actividade que o próprio classificou como de “desenhador-mercenário”.

Com o início da 2ª Guerra Mundial voltou a ser mobilizado, cumprindo o serviço militar em França, perto de Carcassonne. Poucos meses antes de voltar a ser desmobilizado, devido à rendição da Bélgica ao ocupante nazi em 28 de Maio de 1940,  e de regressar ao seu país em 3 de Agosto de 1940, recebeu a notícia do falecimento, em consequência de ferimentos sofridos em combate, em Maio de 1940, do seu único irmão, André, 9 anos e meio mais novo (nascido em 9 de Dezembro de 1913).

Jacobs chega à Banda Desenhada

Desempregado, para sobreviver, aceitou, em 1941, a sugestão do seu amigo Jacques Laudy de mostrar os seus desenhos ao director artístico da revista “Bravo”, Jean Dratz (1905-1967), que o  aceitou como ilustrador, tendo publicado cerca de 20 ilustrações nessa revista entre 1941 e 1943.

A revista “Bravo!” iniciou a sua edição em holandês em 1936, publicou-se como semanário em língua francesa entre 1940 e 1951 e foi, antes do lançamento da revista TinTin, a mais importante revista de BD francófona, com tiragens de dezenas de milhares de exemplares. Nas suas páginas começou por misturar clássicos da BD norte-americana com autores belgas.

A proibição da publicação das séries norte-americanas, imposta pelo ocupante nazi, teve, ironicamente, o condão de lançar muitos jovens autores belgas, dando origem à afirmação daquilo a que se veio a designar por escola franco-belga (ou, talvez mais justamente, a escola belgo-francesa), como o próprio Jacobs , para além de Uderzo, Sirius, Vandersteen, Jacques Martin, Rob-Vel, Paul Cuvelier, Calvo, Alain Saint-Ogan  e Laudy, entre outros. A concorrência da revista TinTin foi fatal para a sua sobrevivência.

Foi considerada uma das “5 gloriosa” revistas pioneiras da BD belgo-francesa, ao lado de Le Petit Vingtiéme (1928-1940), Le Journal du Spirou (1938- 202…), Heroic Album (1945-1956 e 1969-1970) e TinTin (1946-1988).

Essa revista publicava nas suas páginas a série norte-americana Flash Gordon de Alex Raymond (“Gordon l’ Intrépide”, na versão belga). Com a entrada dos Estado Unidos na Guerra, em 1942, as pranchas daquela série deixaram de chegar à revista a qual, como recurso para acabar a última aventura em publicação, pediu a Jacobs para continuar e terminar a edição da aventura de Flash Gordon que estava em publicação.

A aventura de Flash Gordon que estava a ser publicada intitulava-se, na sua origem, “Power Men of Mongo” ( em francês, “Les Techniciens de Mongo”), inicialmente publicada em páginas dominicais da imprensa norte-americana entre 7 de Abril de 1940 e 29 de Junho de 1941:

Os nºs 50, 51, 52,  53  e 54 dessa revista, de Novembro de 1942, publicaram as últimas páginas da aventura, a primeira (do nº50)  ainda da autoria de Alex Raymond, a última publicada antes da obra ser censurada, e as restantes quatro da autoria de Jacobs.

Foi assim que Jacobs entrou no universo da BD, um meio que ele desconhecia, não sendo um grande admirador do género.

[A série Flash Gordon surgiu na imprensa norte-americana em 7 de Janeiro de 1934. Alex Raymond (1909-1956) contou com a colaboração, no argumento, de Don Moore (1904-1986).

A série foi criada para concorrer com a série Buck Rogers, criada em 1928 por Philips Francis Nowlan (1888-1940), que começou a ser publicada em 7 de Janeiro de 1929 com desenho de Dick Calkins (1894-1962).

Raymond foi igualmente criador, nesse mesmo ano de 1934, de outras séries icónicas da BD : Jungle Jim (Jim da Selva em Portugal) e o Agente Secreto X-9, esta com argumento do conhecido escritor de séries policiais Dashiell Hammet (1894-1961).

Raymond começou em 1920 como assistente dos irmão Lyman (1893-1984) e Chic Young (1901-1973) nas séries Blondie, criada em 1930,  e  Tim Tyler’s Luck, criada em 1932, tendo sido o responsável por esta série em 1932 e 1933.

Depois de combater na 2ª Guerra Mundial, Alex Raymond criou em 1946 a série Rip Kirby, aportuguesado entre nós como “Ruben Quirino”.]

Em 1943 a censura alemã proibiu definitivamente a publicação de séries norte-americanas na Bélgica ocupada e Jacobs foi convidado, pelo editor da revista “Bravo”, a criar uma série parecida com Flash Gordon. Nasceu assim “Raio U”, a primeira aventura totalmente original criada por Jacobs e que foi publicada nas páginas daquela revista até 1944.

Entre 1944 e 1946 realizou também várias ilustrações históricas para a enciclopédia “Voir et Savoir”. Em 1945 realizou várias ilustrações e capas, alusivas à Segunda Guerra Mundial para a revista “ABC”.

A Relação com Hergé

Foi no dia 15 de Abril de 1941, numa deslocação para assistir  a uma ópera baseada na já então famosa série TinTin, “TinTin nas Indias”,  que o amigo comum Jacques Van Melkebeke o apresentou a Hergé.

Van Melkebeke escreveu essa obra em colaboração com Hergé, uma peça em 3 actos, apesentada no Teatro das Galerias. Até esse momento Jacobs nunca tinha ouvido falar de TinTIn ou de Hergé e os seus interesses ainda não estavam virados para a Banda Desenhada.

Mais tarde, em finais de 1943, já Jacobs se tinha revelado com “O Raio U” na revista Bravo, Hergé, bem impressionado coma as qualidades gráficas de Jacobs, convidou-o a colaborar na renovação dos cenários e na coloração de novas versões das aventuras de Tintin, anteriormente a preto e branco:  “TinTin no Congo”, “TinTin na América”,  “O Lótus Azul” e “O Ceptro de Ottokar”.

N’ “O Lótus Azul” Jacobs foi responsável pela total reformulação dos décors, o mesmo acontecendo n’”O Ceptro de Ottokar”, tendo sido, neste último caso, o responsável pelo cenário da sala do trono e pelos trajes dos guardas e dos habitantes.

Jacobs acompanhou-o ainda como colorista em novas aventuras , como “As 7 Bolas de Cristal”, aventura pela qual foi responsável pela total renovação gráfica e decorativa, baseando-se em investigações que o próprio Jacobs fez no Museu do Cinquentenário, e também n’“O Templo do Sol”, n’“O Segredo do Licorne” e n’ “Tesouro de Rackan o Terrivel”.

Esta colaboração iniciou-se formalmente em 1 de Janeiro de 1944 e durou até 31 de Janeiro de 1947.

No início, Jacobs dedicava metade do dia a continuar o “Raio U” e a outra metade a trabalhar para Hergé.

Mais tarde, na nova versão de “Cigarros do Faraó”, editada em 1955, e nas novas aventuras “O Caso Girassol” e “Objectivo Lua”, Hergé caricaturou o próprio Jacobs, num sarcófago, como o “egiptólogo E.P. Jacobini” naquele álbum,  e como engenheiro/desenhador nesta. Hergé chegou a caricaturar-se junto de Jacobs e do amigo comum Van Melkbeke entre os “jornalistas” que recebem TinTin das suas aventuras no Congo, na versão renovada dessa aventura.

A personagem de Bianca Castafiore também surge como homenagem a Jacobs e ao gosto deste pela ópera.

Em 1945 Hergé e Jacobs chegaram a ensaiar uma série de BD feita em comum, assinando com o pseudónimo de “Olav”. Com essa finalidade ensaiam três sinopse e três pranchas, de temáticas diferentes: uma aventura passada no Pólo Norte (em 1937 Hergé chegou a pensar realizar uma aventura de Tintin passada no Alasca), um policial passado em Shangai, cuja sinopse  serviu de base para a edição em álbum e colorida de 1946 de Lótus Azul, e um Western, cujo projecto serviu de modelo a Paul Cuvelier, “pai” de Corentin, para a série Tom Colby criada  em 1947.

Com Hergé e outros autores tornou-se cofundador da revista TinTin, em cujo nº 1, publicado em 26 de Setembro de 1946, iniciou a série Blake e Mortimer, na aventura “O Segredo do Espadão”, sendo igualmente responsável pelas ilustrações de “A Guerra dos Mundos”, uma adaptação em jeito de novela da obra de H.G. Wells, publicada a partir dessa edição da revista.

A capa desse primeiro número, anunciando a aventura “O Templo do Sol” de Tintin, foi também uma realização conjunta de Hergé e Jacobs.

[O primeiro número do “jornal TinTin”, na sua edição belga, editado em 26 de Setembro de 1946, tinha 12 páginas e teve uma tiragem de 40 mil exemplares .

Abrindo as suas páginas, a primeira aventura que aparece é uma estreia, “L’Extraordinaire odyssée de Corentin Feldóe”, uma página a preto e branco em continuação da autoria então de um jovem estreante, Paul Cuvelier (1923-1978).

Segue-se o início da publicação, em continuação e em duas páginas, de “A Guerra dos Mundos”, famosa novela de ficção científica de H.G. Wells, texto ilustrado com gravuras a preto e branco da autoria de Jacobs.

As 2 páginas centrais, a cores, incluem “O Templo do Sol” de Hergé, apresentado como a continuação de “As Sete Bolas de Cristal”, cuja publicação no jornal colaboracionista “Le Soir” tinha ficado interrompida após a libertação.

Segue-se o excerto de uma novela de Voltaire, “Zadig”, ilustrada a preto e branco por Jacobs.

A terceira banda desenhada em continuação a surgir é “La Légend des Quatre Fils Aymon”, da autoria de Jacques Laudy, em ambiente histórico e a preto e branco.

Finalmente, na última página, a cores, estreou-se a série Blake e Mortimer de Edgar Pierre Jacobs, com a publicação da primeira prancha de “O Segredo do Espadão”, onde ficamos a conhecer, pela primeira vez,  o “vilão” Olrik, ainda antes de conhecermos os dois heróis da série.

Essa importante revista, que se publicou até 1993, conheceu uma edição em flamengo, Kuifje, que, no seu primeiro número, publicado em simultâneo com a edição belga, saiu com uma tiragem de 20 mil exemplares e, a partir de 28 de Outubro de 1948, uma edição em França. Portugal também conheceu uma versão portuguesa da revista TinTin a partir de 1968 e que durou até 1982.]

Não se pense, contudo, que as relações entre Hergé e Jacobs foram sempre pacíficas, principalmente devido à influência do pai de TinTin na revista com este nome e nas edições da Lombard, subalternizando a importância da série Blake e Mortimer. Hergé chegou a confessar que “um álbum de Blake e Mortimer comprado é um álbum de Tintin que não se vende” e, por sua influência, as primeiras edições em álbum da série de Jacobs foram muito limitadas na tiragem e na qualidade da impressão, que era mais fraca, para se distinguir da qualidade dos álbuns do TinTin.

Também por influência de Hergé a série Blake e Mortimer foi alvo de censura nas capas da revista TinTin que divulgavam esta série.

Essa má vontade de Hergé deveu-se, em grande parte, ao facto deste pretender que Jacobs trabalhasse a tempo inteiro para a série TinTin, em detrimento da série Blake e Mortimer, mas Jacobs impôs como condição aparecer como coautor da novas aventuras de TinTin. Hergé não aceitou essas condições e Jacobs saiu do projecto, situação que levou à criação dos estúdios Hergé em Abril de  1950, para suprir a falta de colaboração de Jacobs.

Inicialmente Jacobs pensou criar uma série passada na Idade Média, intitulada “Roland le Hardi”, chegando mesmo a escrever um argumento para ela, mas Hergé convenceu-o a publicar uma história passada na época contemporânea, nascendo assim a série Blake e Mortimer, considerada a primeira banda desenhada belga para adultos.

Em 23 de Maio de 1950 Jacobs iniciou a publicação, na revista TinTin, da segunda aventura de Blake e Mortimer, “O Mistério da Grande Pirâmide”, confirmando assim que a série tinha continuação. Em 6 de Agosto de 1953 surgiu naquela revista a aventura mais icónica da série, “A Marca Amarela”, à qual voltamos mais à frente.

Autor prefeccionista, demorava bastante tempo a produzir as aventuras de Blake e Mortimer, pelo que, a seguir àquelas três primeiras aventuras, apenas criou mais quatro, a última delas incompleta: “O Enigma da Atlântida” (1955), “S.O.S. Meteoros” (1958), “O Caso do Colar” (1965) e a 1ª parte de “As 3 Fórmulas do Professor Sato” (1971).

A partir de 1952 passou a viver com a sua segunda esposa, Jeanne Quittelier, com quem foi habitar em Lasne a partir de 1955, localidade onde irá viver para o resto da sua vida. Apesar de viverem várias décadas juntos só se casaram oficialmente em 5 de Junho de 1974. A morte de Jeanne, 3 anos depois, em 31 de Outubro de 1977 abalou bastante Edgar.

Em 1982 foram editadas as suas memórias, intituladas “Uma Ópera de Papel”, com uma capa feita por Tardi.

No ano seguinte, após a morte de dois amigos, Hergé (3 de Março de 1983) e Van Melkebeke (8 de Junho de 1983), e sentindo-se a envelhecer, temendo pelo destino da sua obra, criou a Fundação Jacobs em 23 de Dezembro de 1983 e, mais tarde, em 24 de Junho de 1986, os Estúdios Jacobs.

Tendo aparecido publicamente pela última vez em 16 de Abril de 1986, por ocasião da inauguração do Centro Belga de Banda Desenhada em Bruxelas, Jacobs faleceu em 20 de Fevereiro de 1987 devido a complicações cardíacas, que o acompanhavam hà algum tempo, estando sepultado em Lasne.

O seu falecimento deixou por finalizar a 2ª parte daquela última aventura, que ele já tinha esboçado, e que foi terminada, em 1990,  por Bob de Moor (1925-1992).

Por testamento, Jacobs tinha instituído o seu afilhado René como herdeiro legitimo e este deixou os arquivos da obra na vivenda de Lasne para os entregar ao cuidado da Fundação.

Contudo, pouco tempo depois os familiares depararam-se com um assalto à vivenda de Jacobs, de onde desapareceram os valiosos arquivos da sua obra. Mais tarde, em 2004, parte desses arquivos foram encontradas na casa de um meio irmão de um membro da Fundação, entretanto falecido.

No testamento, Jacobs apenas referia os projectos para terminar  “As 3 Fórmulas do Professor Sato” e sobre a malograda série “Roland le Hardi”, nada indicando a possibilidade da continuação da série Blake e Mortimer.

Jacobs tinha pensado no modelo usado por Hergé de uma Fundação e um Estúdio, que gerisse o marketing e os arquivos da série, sem continuarem as aventuras da sua famosa dupla.

A ambiguidade do testamento e da sua interpretação acabou por permitir a continuação da série por outros autores, pelo que, até à actualidade, já se publicaram mais álbuns do que aqueles que ele desenhou.

Além de Bob de Moor, Ted Benoit, Jean Van Hamme, André Juillard e Yves Sante foram alguns desses continuadores.

Caracteristicas gerais da obra de Jacobs

A obra de Jacobs, conjuntamente com a de Hergé, é classificada como exemplo fundador da chamada “linha clara”, estilo assim baptizado pelo autor holandês de BD Joost Swarte (nascido em 1947), em artigo de 1977, para designar um estilo de desenho que utiliza linhas fortes, que tem a mesma espessura para contornar as figuras e objectos, sem sombreados (ou sem o chamado esfumato), com cores vivas, combinando personagens em cenário realista. Literalmente “linha clara” quer dizer um desenho que recusa qualquer sombreado.

Refira-se, contudo, que foi o próprio Jacobs a contestar essa classificação da sua obra, e muitos  consideram que apenas as duas primeiras aventuras da dupla por si criada seguem os “cânones” desse estilo.

Para Jacobs o chamado estilo “linha clara” foi “imposto” pelas limitações do processo de reprodução em offset, que exigia um tratamento e uma coloragem do desenho bem definido e destacado.

Entre outras características da sua obra, destacam-se o realismo e o rigor dos cenários, que foi beber à sua experiência na ópera, a obsessão pelo pormenor, a importância dada à ciência, transformando a temática de ficção científica, presente na sua obra, em teoria científica plausível.

A forma como colocou os seus personagens nas vinhetas e nas pranchas remete para a teatralidade da ópera, onde se iniciou na actividade artística e à qual continuou a dedicar todo o seu entusiasmo como espectador ao longo da sua vida.

Toda a sua obra foi construída na relação triangular dos personagens, Blake,  Mortimer e Orlik.

O “capitão” Francis Blake é apresentado como tendo “estudado” em Oxford, antes de seguir a carreira militar na RAF, membro do M 15, os serviços secretos britânicos .

O “professor” Philip Mortimer, figura dominante na série, escocês de origem, professor de Física nuclear, um intelectual de espírito cavalheiresco, aficionado do desporto equestre, praticante de boxe e judo, coleccionador e conhecedor de armas, tendo a arqueologia como hobbie, dominando várias línguas e inveterado fumador de cachimbo.

Em contraponto com os dois “heróis” da série, o coronel Olrik é o “mau da fita”, sobressaindo da longa lista de vilãos que vão aparecendo na série (de entre os quais se destaca o cientista Septimus da “A Marca Amarela”), um aventureiro sem escrúpulos, amador de arte, inteligente e perspicaz, que usa monóculo e fuma cigarrete.

Para caracterizar física e psicologicamente esses e outros personagens, Jacobs baseou-se em figuras reais de amigos e familiares e na sua própria figura.

O nascimento de “A Marca Amarela”

“A Marca Amarela” foi uma das aventuras mais marcantes e icónicas da série, ainda hoje considerada mundialmente uma das obras primas da 9ª arte.

Terceira aventura da dupla Blake  e Mortimer, começou a ser publicada na edição de 6 de Agosto de 1953 da revista TinTin, concluindo-se em 10 de Novembro de 1954, só sendo editada num álbum de 66 páginas em Fevereiro de 1956.

Muitos estudiosos da obra de Jacobs, relacionam a escolha do tema dessa aventura com a transmissão televisiva da coroação da Rainha Isabel II, situando-a no reino britânico e tendo como ponto de partida o roubo da coroa.

Contudo, a coroação oficial de Isabel II, um dos primeiros acontecimentos a ser transmitido em directo pelas televisões,  ocorreu em 2 de Junho de 1953, apenas dois meses antes do início da publicação dessa aventura na revista TinTin.

Sabe-se que a elaboração dessa aventura não se produziu apenas em dois meses, tendo em conta a forma como o autor trabalhava, com bastante lentidão e com uma grande preocupação pelos pormenores e pelo trabalho de investigação documental.

Aliás, um ano antes da coroação, no Verão de 1952, o autor, na companhia de Jeanne Quittelier, deslocou-se a Londres num passeio turístico, a sua primeira saída do mundo francófono, mas com o objectivo de se documentar para a sua nova aventura.

Confirma-se assim que a ideia não surgiu, como muitos dizem, porque o autor se lembrou do tema ao ver na televisão a coroação da rainha, mas terá surgido pelo menos um ano antes, embora estivesse relacionada com a subida ao trono da nova rainha, logo após a morte do rei Jorge VI, em 6 de Fevereiro de 1952, tendo a coroação ocorrido mais de um ano depois.

A morte de Jorge VI e a curiosidade à volta da nova rainha e dos preparativos para a sua coroação, foram alvo de várias reportagens sobre a corte britânica na imprensa da época, destacando-se as várias edições dedicadas ao assunto pela revista Paris Match, consultada por Jacobs para se documentar, este sim um facto comprovado pelo autor.

Essa revista dedicou ao assunto, ao longo do ano de 1952, vários números, alguns em edição especial, como o nº 153 de 16 de Fevereiro de 1952, um especial dedicado ao monarca falecido, o nº 163 de 26 de Abril de 1952, com uma grande reportagem sobre o Palácio Real e o muito citado nº 197 de 30 de Dezembro de 1952, que exibia na capa uma fotografia da coroa e, no interior, pela primeira vez divulgada ao público, uma fotografia do tesouro real, que serviu de base a uma das vinhetas da aventura. Há ainda um número especial dessa revista dedicada à coroação, mas já em Junho de 1953.

Outras fontes documentais de Jacobs para a criação da aventura e para o reconhecimento urbano e monumental de Londres foram o livro de divulgação “Pictures Book of London”, editado em 1951 pela Country Life Limited, o “The Pictorial Story of the Tower of London”, editado pela Pitkim já em 1953, assim como vários guias turísticos de Londres.

Consultou ainda ilustrações de Londres da autoria de Gustave Doré incluídas no livro de Jerrold Blanchard de 1872 intitulado “London a PIlgrimage”.

Para a reprodução de cenas de polícia baseou-se na consulta de um número da Science et Vie de Fevereiro de 1953, com imagens dos carros e fardamentos da polícia. Essa consulta esteve, aliás, na origem de um dos mais icónicos erros na feitura dessa obra. A reportagem era sobre a polícia francesa e ele esqueceu-se que em Londres polícia conduzia pela esquerda, erro que surge nalgumas vinhetas.

Quando começou a planificar a história, Jacobs não conhecia Londres , a não ser de forma idealizada, nos romances de Charles Dickens que tinha lido na sua juventude. Já com o guião inicial, como referimos acima, resolveu visitar a capital britânica, em Agosto de 1952.

O percurso dessa visita é conhecido: numa 2ª feira, 25 de Agosto, partiu às 7.33 da estação Bruxelles-Midi a caminho da localidade costeira e balnear de Ostende, onde apanhou o barco que atravessou o Canal da Mancha até Dover na Grã-Bretanha, numa viagem de 4 horas. Seguiu depois de comboio até Londres, tendo-se hospedado na companhia da sua companheira no Royal Hotel, em Lencaster Gate, próximo do Hyde Park.

Durante os dias que aí permaneceu fez um percurso em autocarro turístico e visitou vários locais onde imaginava situar a nova aventura de Blake e Mortimer, como os Castelos de Windsor e d’Hampton Court, o Palácio de Buckingham, a Torres de Londres, Gordon Square e Tavistock Square. Nesta última rua descobriu o décor ideal para situar o “laboratório de Septimus”. Fez-se fotografar e à esposa junto de edifícios que ele pretendia usar nos cenários da história, par melhor poder calcular as suas dimensões.

Para se documentar fotograficamente, Jacobs levou consigo uma pequena máquina fotográfica de caixa de 6/9, e usou 4 rolos de 12 fotos cada.

Segundo o autor, mais importante que a documentação fotográfica, foi ter-se deixado impregnar pela atmosfera e pelo ambiente londrino

Essa visita contribui para alterar alguns cenários e escolher novos locais para situar a história e, noutros casos, adaptar o que viu a cenários já imaginados.

De facto, são muitos os sítios da cidade de Londres que podem ser identificados, alguns apenas de relance, n’ “A Marca Amarela”: a Torres de Londres, Fleet Street, a Catedral de S. Paul, Law Street (Palácio da Justiça), Piccadilly Circus, as docas de East End em Limehouse Dock, o nº 10 de Downing Sreet, o British Museum, Park Lane (onde situou a casa de Blake), Shaftesbury Avenue, os luxuosos apartamentos que ladeiam o Hyde Park, Green Park, Lombard Street, Hulborn Circus e Tavistack Square (onde situou, com já dissemos, o laboratório de Sptimus).

As cenas passadas nas docas de Limhouse Dock foram preparadas a partir de uma recolha de fotografias que Jacobs fez do ambiente das docas de Bruxelas.

Um dos aspectos que correu menos bem nessa visita foi não ter encontrado o ambiente sombrio, que ele pretendia obter para os cenários urbanos da sua obra, pois essa visita foi feita numa Londres cheia de sol e calor, de céu azul, nada do famoso e idealizado nevoeiro e ambiente sombrio. Para criar o ambiente sombrio reproduzido em “A Marca Amarela” teve de recorrer à imaginação.

Para muitos dos seus leitores, Londres ficou sempre idealizada como a cidade sombria e misteriosa imaginada pelo autor para ambientar essa aventura.

Jacobs documentou-se também nas investigações cientificas sobre o cérebro e as “ondas mentais” publicadas em artigos da revista Science et Vie.

O título desta terceira aventura da dupla de heróis não foi fácil. Ao todo o autor rascunhou 12 títulos possíveis, entre eles: “O Sinal Amarelo”, “A Onda Misteriosa”, “A Onda Maléfica”, “O Homem das lunetas amarelas”. No meio dessa lista, em 5º lugar, é que surgiu o título definitivo de “A Marca Amarela”.

Outro dado curioso sobre a elaboração dessa obra está relacionado com a escolha do célebre símbolo de “A Marca Amarela”. Jacobs pretendia um símbolo fácil de fixar. Inicialmente pensou no sinal Z, inspirando-se no Zorro, mas a sua companheira opôs-se porque achava que essa marca era já muito conhecida.

Combinaram uma reunião familiar para debater esse tema, com a presença do seu enteado, René Quittelier. Foi este que lhe propôs a escolha de uma letra do alfabeto grego, que começou a recitar alfabeticamente na presença de Jacobs, que foi recusando as várias letras até chegar à 12ª palavra do alfabeto grego, o "Mu" (Μ/µ) (lê-se Miu).

Inicialmente o autor considerou que essa letra era complicada de desenhar, pois pretendia uma letra em forma de O. Então surgiu a ideia de rodear o Mu maiúsculo com um círculo. Acabou por aperfeiçoar o símbolo até chegar ao M da Marca Amarela, decidindo colorir o M de amarelo.

Existem outras versões sobre a origem do M, como a possível inspiração no filme de 1927, de Fritz Lang,  M-Matou, muito apreciado por Jacobs, ou a interpretação do M como o símbolo de Maléfico, do Mal, da Morte ou da Maldição.

Principais características de “A Marca Amarela”

Num total de 66 páginas e 752 vinhetas, Jacobs ensaiou nesta obra um novo grafismo para as filoxeras, distinguindo a parte descritiva, em quadros rectangulares coloridos, dos diálogos, em quadros brancos de contornos dentados.

O texto tem uma grande importância na construção das pranchas, pois a maior parte destas e dos quadradinhos é ocupada com um texto narrativo complexo e pormenorizado, com comentários que acentuam a densidade psicológica das cenas. Essa situação realça as influências do romance policial (“polar”) , em especial da obra de Sherlock Holmes e da história de Jack o Estripador, e da ficção científica, reforçando o lado literário da obra de Jacobs que entendia a Banda Desenhada como “um romance desenhado”.

Cada cena está construída como um décor de teatro, uma influência do seu trabalho na ópera, quer como figurante quer como autor de cenários.

A iluminação dessas cenas, com jogos de luz e sombras, foi fortemente influenciada pela linguagem cinematográfica, igualmente presente na elaboração das várias vinhetas, com recurso a picados e contrapicados, travellings, profundidade de campo e alteração de planos, com, por exemplo, passagens de planos médios para grandes planos.

Recorde-se que, a seguir à ópera e muito antes da Banda Desenhada, o cinema foi uma das grandes paixões de Jacobs, em especial as obras do chamado expressionismo alemão, os filmes de ficção cientifica, de terror e de suspense.

Muitas dessas influências são bem visíveis como inspiração para a elaboração das cenas de “A Marca Amarela”, como “O Gabinete do Doutor Caligari” realizado por Robert Wise em 1920, como  “Doutor Mabuse” realizado por Fritz Lang em 1922, inspirações para a figura do cientista louco Septimus , da figura manipulada de Olrik em Ginea Pig, e do esconderijo destes, como “Nosferatus” realizado por Fredrich Murnau em 1922, inspiração para a figura do “marca amarela”, cuja marca também parece inspirada na célebre marca “M” do filme “M-Matou” realizado por Fritz Lang em 1931.

Muitas outras cenas e ambientes parecem inspiradas em filmes como “O Homem Invisivel” realizado em 1933 por James Whale, “As Mãos d’Orlac” realizado em 1935 por Karl Freuns, “O Homem sem Rosto” realizado  por Richard Fleischer em 1949, ou “O Terceiro Homem” realizado por Carol Reed em 1949, sem descartar a influência cinematografia e ambiental de Hitchcock.

Dois actos de censura marcaram a edição da série na revista “TinTin”.

O caso mais grave aconteceu em 1953 com um projecto de capa para a revista TinTin, para anunciar a publicação de “A Marca Amarela”. Esse projecto de capa tinha alguma influência na imagem de Nosferatus, filme expressionista de F.W.Murnau de 1922, mas foi considerada muito violenta para uma revista juvenil, sendo Jacobs obrigado a retirar essa figura sinistra e uma pistola nas mãos de Blake, atitude censória que teve a mão de Hergé, agastado com o êxito da série que, segundo este, apagava a importância de TinTin na revista com o seu nome.

Mais tarde, por ocasião do 7º aniversário da revista TinTin, em 26 de Setembro de 1953, Jacobs fez um desenho ironizando aquele acto de censura, dedicado ao editor da revista, Raymond Leblanc, desenho intitulado “O fantasma de TinTin”, para recordar o papel de Hergé nesse acto de censura. Nesse desenho incluiu  Olrik, Blake e Mortimer, que aparecem em forma de pterodáctilo, um espião com chaves caricatura Jacques Martin, “pai” de Alix e Lefranc, o próprio Jacobs, um espadão sobrevoando o céu, uma Torre de Londres e uma Pirâmide, como referências às três primeiras aventuras da série.

Outro acto de censura ocorreu com uma vinheta da prancha 18, onde aparecia Septimus, sentado num compartimento do comboio, a ler a revista inglesa “Illustrated” com uma corista em trajes ligeiros na capa. Edgar foi advertido para essa cena, com a desculpa de estar a publicar numa revista juvenil e teve de “cobrir” essa corista com uma trama, para disfarçar a “ousadia”.

Em Portugal, essa vinheta também sofreu um acto de censura embora de forma mais subtil. Na vinheta publicada na última página do nº 174 de “Cavaleiro Andante”, onde aparece o professor Septimus a ler a revista “Ilustratted”, a capa desta foi suprimida, sendo sobreposta por um “selo” com a indicação de um número para o sorteio num concurso promovido pela revista junto dos seus leitores.

Embora de forma subtil, penso que esse acto não foi inocente, o qual, pela forma como foi feito, quase passou despercebido.

Recorde-se que o responsável pela revista “Cavaleiro Andante”, Adolfo Simões Muller, fazia parte da Comissão Nacional de Censura da ditadura portuguesa

A censura voltou a persegui-lo mais tarde quando a sua obra “A Armadilha Diabólica” foi proibida em França por ser considerada muito violenta para ser editada numa revista juvenil, como a edição francesa de “TinTin”.

Em 2013 Jean Dufaux, Antoine Aubin e Étienne Schrider, editaram  A Onda Septimus, álbum da série pós-jacobs, produzida como uma “continuação” de “A Marca Amarela”.

 “Blake e Mortimer” e “A Marca Amarela” em Portugal

A série Blake et Mortimer foi publicada pela primeira vez em Portugal na revista Cavaleiro Andante, pioneira na apresentação da obra de Jacobs, editando a segunda aventura da série, “O Mistério da Grande Pirâmide”, a partir do nº 30 de 26 de Julho de 1952.

A primeira aventura da série, “O Segredo do Espadão”, foi publicada pela primeira vez, com o título aportuguesado de “O Segredo do Sabre”, na revista Titã, entre a edição nº 7, de 12 de Outubro de 1954, e a edição nº 42 de 10 de Agosto de 1955, a última dessa revista, pelo que essa aventura ficou incompleta.

Por sua vez, “A Marca Amarela” foi publicada em Portugal pela primeira vez no nº 167, de 12 de Março de 1955, da revista “Cavaleiro Andante”.

A Verbo editou esta aventura pela primeira vez em álbum na década de 1970. Voltou a ser editada pela Bertrand em 1980, pela Meribérica em 1990 e em 2004 e pelo jornal Público em 2008.

Em 19 de Outubro de 1955 a revista belga TinTin começou a publicar a quarta aventura da série, “O Enigma da Atlântida”, que teve como cenário a Ilha de S. Miguel, nos Açores, a única que se passou em território português.

Jacobs, ao contrário do que aconteceu com “A Marca Amarela”, não esteve pessoalmente no cenário dessa aventura, baseando-se numa busca documental para a realizar.

A última aventura da série, publicada no final do ano passado, “A Ameaça Atlante” de  Yves Sente e Peter van Dongen apresenta-se como uma continuação daquela aventura açoreana.

Há, contudo, um misterioso enigma, à volta de uma entrevista que Vasco Granja conseguiu obter de Jacobs, na casa deste em Lasne, em 12 de Outubro de 1972, onde se refere uma hipotética visita aos Açores e a Portugal por parte do autor belga, já em data posterior à realização e publicação d’”O Enigma da Atlântida”.

Infelizmente, nessa entrevista, publicada ao longo de vários números da edição portuguesa da revista TinTin nesse mesmo ano, não existe mais nenhuma informação sobre aquela hipotética visita de Jacobs, nomeadamente em que ano podia ter sido efectuada e que outros sítios pode ter  visitado em Portugal.

Aqui reproduzimos essa “misteriosa” passagem da dita entrevista (sublinhado meu):

“[…]

V.G. – Gostou de VISITAR OS AÇORES?

E.P.J – Sim, fiquei muito impressionado. Eu não tinha conseguido obter a indispensável documentação acerca dos Açores quando andava a prepara o Enigma da Atlântida. A cratera das Furnas deixou-me uma profunda impressão. Na água do lago podem observar-se duas cores diferentes: uma azul e outra verde, o que é bastante espantoso. Verifica-se perfeitamente que os Açores estão situados no ponto ideal para servirem de ligação entre a Europa e os Estados Unidos. Se a Atlântida existiu (o que é perfeitamente possível e eu continuo a acreditar em tal facto), julgo bem que os Açores é tudo o que resta do continente desaparecido. Estas ilhas são muito atraentes do ponto de vista turístico e parece-me que há muitas coisas a fazer nesse sentido, embora eu reconheça que o turismo é uma arma de dois gumes…Penso igualmente numa zona perto de Lisboa que me agradou particularmente, numa pequena montanha plena de verdura e frescura…

V.G. – Sintra, não é verdade?

E.P.J.- É isso mesmo. É um sítio verdadeiramente esplendido! Gosto também dos pescadores portugueses, da sua maneira de se vestirem e dos barcos com motivos decorativos. Nota-se neles uma acentuada reminiscência do passado.

[…]”.

Perante essa enigmática referência de Jacobs a Portugal, que parece indicar a sua presença neste país, consegui contactar, por mail, Viviane Quittelier, biografa e neta da segunda esposa de Jacobs.

Em resposta, disse-nos que o seu avô nunca veio a Portugal: “A viagem da qual ele falou [na entrevista] seria aquela dos seus personagens” e que ele “acompanhava nos seus sonhos”. [“Désolée de vous décevoir. Mon grand-père n'est pas allé au Portugal.Le voyage dont il a parlé serait celui de ses personnages.Et aussi en les accompagnant dans ses rêves”- resposta que nos foi dada por Viviane  Quitellier em 13 de Fevereiro de 2026].

A série Blake e Mortimer é uma das mais apreciadas em Portugal e, ainda hoje, o lançamento de uma nova aventura da série, continuada por outros autores, é sempre aguardada com grande expectativa e atinge elevados valores de vendas.

Deixamos uma última questão: para quando, em Portugal, uma grande exposição de homenagem e sobre a obra de Edgar P. Jacobs?

(NOTA FINAL : Agradecemos a Viviane Quitellier as sugestões e correcções com que nos auxiliou na feitura deste texto).

ANEXO – Blake & Mortimer  em Portugal (aventuras da autoria de Edgar Pierre Jacobs):

Título

Ano em que situa a aventura

1ª publicação

1ª Edição em Álbum

1ª Publicação em Portugal

1ª edição em álbum em Portugal

O Segredo do Espadão

1946

26 de Setembro de 1946 no  nº 1 da revista belga Journal de Tintin.

Tomo 1 – 1950

Tomo 2 e 3 – 1953

(em álbum único em 1964).

Titã nºs 7 a 42 em 1955 (incompleta)

Tintin nº 48 do 13º ano (1981) ao nº52 do 14º (de 8 de Maio de 1982)

1970, ed. Ibis, em 2 volumes

O Mistério da Grande Pirâmide

1950

23 de Março de 1950 no Tintin belga.

Tomo 1- 1954

Tomo 2 – 1955

(em álbum único em 1959)

26 de Julho de 1952 no Cavaleiro Andante, do nº 30 a 132.

1970, ed.Verbo, 2 volumes

A Marca Amarela

1953

6 de Agosto de 1953 na revista belga de Tintin.

1956

1 de Janeiro de 1955 no Cavaleiro Andante, nº 157 a 219

1970 , ed. Verbo.

O Enigma da Atlântida

1955

19 de Outubro de 1955 na revista belga de Tintin.

1957

12 de Maio de 1956 no Cavaleiro Andante , nº 228 a 291

1970, ed. Verbo

S.O.S Meteoros

1958

8 de Janeiro de 1958 na revista belga Tintin.

1960

5 de Julho de 1958 no Cavaleiro Andante nº 340 a 398

1980, ed. Bertrand

A Armadilha Diabólica

1960 (também no passado – Quaternário e Idade Média- e no futuro)

22 de Setembro de 1960 na revista belga Tintin.

1962

4 de Maio de 1961 na revista Foguetão (incompleto) e 26 de Agosto de 1961 no Cavaleiro Andante, nº 504 a 534

1981, ed. Bertrand

O Caso do Colar

1965

23 de Março de 1965 na revista belga Tintin.

1967

No suplemento  “Nau Catrineta”, nº 146 de 22 de Outubro de 1966 a 207 de 30 de Dezembro de 1967.

1982, ed. Bertrand

As Três Fórmulas do Professor Sato, tomo 1

(O tomo 2 será publicado a partir de 1990, com a autoria de Bob de Moor, com base nos esboços deixados por Jacobs, falecido em 1987)

1967

5 de Outubro de 1971 na revista belga Tintin.

 

1977

(1990)

Na revista TinTin nº 21 do 5º ano de 16 de Outubro de 1972  ao nº 14 do 6º ano de 25 de Agosto de 1973.

 

1987, Meribérica

(1991, Meribérica)

Albuns da série editados após a morte de Jacobs em 1987:

·         1990 - As Três Fórmulas do Professor Sato - Tomo 2, ( a partir de esboços de Edgar P. Jacobs) por Bob de Moor

·         1996 - O Caso Francis Blake de Jean Van Hamme & Ted Benoît

·         2000 - A Conspiração Voronov de Yves Sente & André Juillard

·         2001 - O Estranho Encontro de Jean Van Hamme & Ted Benoît

·         2003 - Os Sarcófagos do 6.º Continente - Tomo 1, de Yves Sente & André Juillard

·         2004 - Os Sarcófagos do 6.º Continente - Tomo 2, de Yves Sente & André Juillard

·         2008 - O Santuário de Gondwana - de Yves Sente & André Juillard

·         2009 - A Maldição dos Trinta Denários - Tomo 1, de Jean Van Hamme, René Sterne & Chantal de Spiegeleer

·         2010 - A Maldição dos Trinta Denários - Tomo 2, de Jean Van Hamme & Antoine Aubin

·         2012 - O Juramento dos Cinco Lords - de Yves Sente & André Juillard

·         2013 - A Onda Septimus - de Jean Dufaux, Antoine Aubin e Étienne Schréder

·         2014 - O Bastão de Licurgo - de Yves Sente & André Juillard

·         2016 - O Testamento de William S. - de Yves Sente & André Juillard

·         2018 - O Vale dos Imortais - Tomo 1, de Yves Sente, Teun Berserik e Peter Van Dongen

·         2019 - O Vale dos Imortais - Tomo 2, de Yves Sente, Teun Berserik e Peter Van Dongen

·         2020 - O Grito do Moloch - de Jean Dufaux, Thomas Gunzig, Francois Schuiten e Laurent Durieux

·         2021 - O Último Espadão - de Jean Van Hamme, Teun Berserik e Peter Van Dongen

·         2022 - Oito Horas em Berlim - de José-Louis Bocquet, Jean-Luc Fromental e Antoine Aubinref

·         2024 - Assinado "Olrik" - de Yves Sente e André Juillard

·         2025 - A Ameaça Atlante - Yves Sente e Peter van Dongen

Volumes extra:

 (hors série, no original).

·         2019 - O Último Faraó - de François Schuiten, Jaco Van Dormael e Thomas Gunzig;

·         2023 - A Flecha Ardente - de Jean Van Hamme, Christian Cailleaux e Étienne Schréder (continuação de “O Raio U”);

·         2023 - A Arte da Guerra - de Jean-Luc Fromental e José-Louis Bocquet .

BIBLIOGRAFIA (do meu arquivo pessoal)

 

BANG nº 4, Automne 2003, ed. Casterman/BeauxArts

BD Guide – Encyclopédie de la bande dessinée international, ed omnibus, 2003

Blake et Mortimer – Deux aventuriers au coeur du XX.e siècle, Geo Histoire Outubro/Novembro de 2019;

GALLO, Claude Le, Le Monde de Edgar P. Jacobs, ed. Auters/Lombard, 2ª edição 2004 [1ª edição, Novembro de 1984]

JACOBS, Edgar P., [La Marque Jeune] – Une Histoire du Journal TinTin [reprodução das pranchas originais publicadas na revista TinTin], Editions Blake & Mortimer/Studio Jacobs (Darguad/Lombard), 1ª edição Novembro de 2012;

JACOBS, Edgar Pierre, Un Opéra de Papier/Les Mémoires de Blake et Mortimer, ed. Gallimard, 1981 (rééd. 2014);

LAMBEAU, Frans, Dictionnaire Illustré de La Bande Dessinée Belge sous l’occupation, André Versailles editeur, 2013;

LAMBEAU, Frans, Dictionnaire Illustré de la Bande Dessinée Belge – De La Libération aux fifties (1945-1950), Les Editions de La Province de Liége, 2016;

La Marque Jaune – La Chef-d’oeuvre de Blake et Mortimer, Les Cahiers de La BD, Hors-Série, Novembro 2020;

LENNE, Gérard, L’ Affaire Jacobs, ed.Megawave, 1990;

Les Personages de Blake et Mortimer dans l’Histoire – Les événements qui ont inspire l’ouvre d’ Edgar P. Jacobs, Le Point/Historia, Hors-Série, 2014;

Les Voyages de Blake et Mortimer – Deux aventuriers à travers le monde, ed, Geo, 2023;

L’Integrale Flash Gordon, tomes 3 e 4, ed. Hachette;

MARICQ, Dominique (coordenação) Le Journal TinTin – Les Coulisses d’un Aventure – avec le facsimilé du nº 1 Encarté, ed. Moulinsart, 2006;

MOUCHART, Benoit & RIVIÈRE, François, Edgar P. Jacobs – Um Pacte avec Blake et Mortimer, Les Impressions Nouvelles, 2021 (trata-se da renovação e aprofundamento de um anterior título dos mesmos autores, “La Damnation d’Edgar P. Jacobs”, ed. Seuil/Archimbaud, de 2003);

QUITTELIER, Viviane, Edgar P. Jacobs. Témoignages inédits, ed. Mosquito, 2009;

Schtroumpf – Les Cahiers de La Bande Dessinée, nº 30 – Edgar Pierre Jacobs, ed. Jacques Glénat, 1976;

VASCO GRANJA, Uma vida… 100 imagens, ed. Asa,2003;

VERHOEST, Éric, Du Duo ao duel – L’histoire d’une aitié créative, ed. Moulinsart/Casterman, 2026;