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quinta-feira, 18 de outubro de 2018

O regresso de Blake & Mortimer.



Está marcado para 18 de Novembro o regresso da série Blake & Mortimer, os célebres heróis da Banda Desenhada franco-belga criadas por Edgar Pierre Jacobs.

Enquanto se aguarda a edição em álbum dessa nova aventura, a revista L’Immanquable, na sua 93ª edição deste mês de Outubro, iniciou a publicação em fascículos dessa nova aventura, revelando as primeiras 16 páginas deste álbum.

Esta nova aventura intitula-se “Le Vallée Des Immortels” e é a continuação da primeira aventura da série, “O Segredo do espadão”.

Tem argumento de Yves Sante e é desenhada pela dupla holandesa Peter Van Dangen e Teun Berserik, cabendo ao primeiro destes dois a colorização e o desenho dos cenários deste álbum passado em grande parte em Hong Kong, e ao segundo o desenho das personagens.



Recorde-se que “O Segredo do Espadão” foi uma das aventuras que saiu no primeiro número da revista Tintin em 1946, dando origem à célebre série Blake e Mortimer.

Aquela aventura foi publicada no Tintin entre o nº1, saído em 26 de Setembro de 1946 e o nº 36, de 16 de Setembro de 1949, com um total de 144 pranchas.

Curiosamente Jacobs não pensava dar continuidade à história, e nos primeiros tempos da sua publicação não vinha indicada como uma aventura de Blake e Mortimer, mas apenas com o título da história, “O Segredo do Espadão”.

Aliás, na publicidade a essa história, nos primeiros tempos, não surge nenhuma referência a Blake e Mortimer e quem surge logo em primeiro e na primeira página é Orlik, o vilão da série, curiosamente um autorretrato físico do próprio Jacobs.

Só na terceira prancha, que corresponde à terceira semana de publicação, é que surgem  Blake e Mortimer. Para estas duas personagens Jacobs inspirou-se em dois amigos e desenhadores Jacques Laudy para Blake e Van Melkebeke para Mortimer.

No inicio da revista TinTin, Jacobs teve de desempenhar várias tarefas com desenhador, colaborando igualmente com Hergé que publicou nesse primeiro número o inicio do “Templo do Sol”, com cenários da autoria do pai de Blake e Mortimer.

O seu trabalho era tanto que deixou para o seu amigo Van Melkebeke a tarefa de desenhar os cenários e passar a tinta as primeiras 18 páginas do “Segredo do Espadão”.

A primeira edição em álbum desta aventura só aconteceu em 1950, dividida em dois álbuns. Mais tarde, por razões editoriais, esta aventura passou a ser editada dividida em três álbuns.

A primeira aventura da série foi muito marcada pelo final então ainda recente da Segunda Grande Guerra.

Narra a história de uma hipotética terceira Guerra Mundial provocada pelo “Império Amarelo” com sede no Tibet, governado pelo ditador Basam-Damdu, aconselhado militarmente por Olrik.

A História é uma história de resistência ao domínio mundial desse Império que tem em Blake e Mortimer as figuras de destaque na organização dessa resistência e na construção da nova arma que era o "Espadão".

O “Império Amarelo” é uma curiosa mistura do regime nazi e do crescente “perigo amarelo” preconizado pela China.

Contudo a série esteve em risco de nunca ter existido.

Anteriormente Jacobs trabalhava para a revista Bravo, onde acabou, em plena guerra e durante a ocupação da Bélgica pelos nazis, uma história da série norte-americana Flash Gordon, proibida pela censura fascista, e onde veio a criar uma nova história, inspirada nos ambientes de Flash Gordon, “O Raio U”. Era esta série e os seus personagens que Jacobs pretendia continuar, mas um problema de direitos de autor com aquela revista e  o aparecimento da revista “Tintin” levaram-no a desistir da continuação daquela aventura, na qual se inspirou para o “Segredo o Espadão”.

Por outro lado, ao entrar para a revista TinTin, Jacobs propôs uma série passada na Idade Média, “Roland le Hardi”, mas que foi recusada porque muitas outras histórias e séries a publicar na revista se passavam também nessa época.

Foi contrariado que Jacobs começou a escrever um novo argumento, baseado nas suas leituras de Conan Doyle e H.G. Wells, próximo da Ficção Cientifica, nascendo assim a série Blake e Mortimer.´

O novo álbum da série a publicar em Novembro, continua assim aquela história, pegando nela no momento em que o Império Amarelo e o seu ditador são definitivamente destruídos por uma esquadrilha de “espadões”.

Contudo, no meio do caos, Orlik consegue escapar mais uma vez.

Em paralelo, enquanto a China se encontra em plena Guerra civil entre as forças nacionalistas de Chiang Kai-shek e os comunistas de Mao, um misterioso senhor da guerra, Xi-Li, apodera-se do chamado Império do Meio. Olrik , por sua vez, coloca-se ao serviço de Xi-Li, que pretende tomar Hong Kong. É na defesa da colónia britânica face a esta nova ameaça que surgem novamente os heróis Blake e Mortimer.

O resto… é  aguardar pela edição dessa nova aventura.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Lançada edição a cores de "Tintin no país dos Soviéticos"

(montagem com a fotografia de Hergé quando criou Tintin e as capas da actual edição a cores e da primeira edição a preto e branco de "Tintin no país dos Soviéticos)


Acaba de ser lançado em Bruxelas a edição colorida de “Tintin no país dos soviéticos”, a primeira aventura de Tintin.

Escrito sobre a influência fortemente anti-comunista que se vivia nos meios católicos belgas de então, este álbum foi proscrito pelo próprio Hergé que sempre se recusou reedita-lo em vida, até porque o jornal onde a  história foi publicada, o Jornal católico Le Vingtième Siècle, acabou a colaborar com o ocupante nazi, situação que, por arrasto, custaria acusações de colaboracionismo a Hergé, a seguir à guerra, situação apenas ultrapassada graças ao apoio de amigos com Edgar Pierra Jacobs e à fundação do jornal TINTIN em 1946 (ver AQUI).

Sobre a polémica política gerada pelo conteúdo desse álbum, será curioso ler AQUI o artigo do jornal conservador francês Le Figaro.
Hoje o álbum, que já tinha sido editado a preto e branco depois da morte de Hergé, é uma curiosidade “arqueológica” sobre as origens de TinTin e da chamada “linha clara”.

Aliás, a colorização daquela história publicada originalmente a preto e branco está a gerar um debate entre os defensores da versão original de da nova versão colorida, que pode ser lida AQUI   e AQUI (ver também AQUI a reportagem do Liberation sobre o evento).
O jornalista da  TSF João Francisco Ribeiro foi ao museu da Banda Desenhada na cidade natal de Tintin, em Bruxelas, onde o livro já está à venda e o resultado é a reportagem divulgada naquela rádio e publicada no site  da TSF, a qual transcrevemos em baixo:

 
"Tintin: Primeiro livro lançado em versão colorida

Por João Francisco Ribeiro
inTSF 11 de JANEIRO de 2017
"Chegou hoje às livrarias a versão a cores do primeiro livro de Hergé. Tintin no País dos Sovietes foi editado, pela primeira vez, em 1929. Ao contrário do que fez com todas as obras que desenhou a seguir, traço a preto e branco, neste livro, nunca viria a ser alterado, até hoje.

"A empresa Moulinsart, que administra os direitos de exploração da obra do desenhador belga, coloca hoje nas prateleiras das livrarias uma edição totalmente colorida.
"A belga Carine Schmitz, apaixonada pela banda desenhada e que há 27 anos se dedica à coordenação do museu, descreve Tintin no país dos sovietes como um livro encantador, até pelas suas imperfeições.

"Este é o primeiro livro de toda [a série] Tintin. Vemos bem que não o mesmo traço de Hergé quando chegou ao décimo álbum. Já não desenhava da mesma maneira. Mas, aqui, ele tinha apenas 21 anos. É a primeira banda desenhada dele. É normal que tenha defeitos", nota a diretora do museu.
E"m Tintin no país dos sovietes, encontramos por exemplo bananas em Moscovo, postos de combustível da Shell na Rússia e algumas personagens têm nomes com origem na Polónia. Nada disto existia na Rússia de 1929. Mas, é isso "que lhe dá o charme, ao vermos que ele era tão jovem quando fez o primeiro livro", nota Carine Schmitz.

"Aos 21 anos, Hergé inaugurou um novo estilo que, a partir daí, marcaria a banda desenhada. Os traços fortes, sem sombreados, pouco contraste são "o princípio do que chamamos a linha clara".
"Na verdade, em Tintin no país dos sovietes, o mais interessante é o movimento e a forma como ele faz mexer as personagens, as perseguições de carro, Milu que já tem imensa graça. Francamente é o início de uma grande aventura de Tintin", afirma.

"No início da história, Tintin é enviado de Bruxelas em reportagem para Moscovo. Por sabotagem dos serviços secretos russos, uma bomba destrói o comboio, durante a passagem pela Alemanha. Tintin é detido sob acusação de atentado terrorista. Algumas semelhanças com a atualidade poderiam levar a pensar que é um livro recente. Mas, Schmitz considera que se trata de um livro confinado no seu tempo e "Tintin no país dos sovietes já não tem atualidade".
Hergé escreveu sob as orientações da direção do Jornal católico, conservador, anti-comunista, Le Vingtième Siècle. A história da investigação ficcionada, do repórter imaginário, que se tornou num dos principais heróis da banda desenhada, foi publicada semanalmente, em capítulos, entre 1929 e 1930, como um instrumento de propaganda anti-soviética.

"Misturadas com as peripécias do repórter, ao longo das 140 páginas, encontram-se as conclusões da investigação, do enviado à Rússia, por exemplo, quando descobre a forma como o regime soviético iludia o povo sobre o Paraíso Vermelho.

"Hergé escreveu a história sem nunca ter estado na Rússia, com base nos escritos do consul belga, em Moscovo, naquela época. Isso mesmo nota-se quando Tintin descobre que os bolcheviques ameaçavam o povo para conseguirem a vitória nas eleições. É uma transcrição quase integral dos relatos do cônsul que viveu nove anos em Moscovo.
Numa das passagens o repórter vai parar a um esconderijo, cheio das riquezas supostamente roubadas ao povo por Lenin, Trotsky e Stalin. Tintin consegue escapar daqui com a ajuda do companheiro inseparável, o cão Milu.

"O repórter imaginário ficou conhecido, ao longo de mais de duas dezenas de alguns que se seguiriam, pelo andar ligeiramente curvado, as pernas fletidas e pela madeixa de cabelo levantado. Mas, não é exatamente esta a figura apresentada nas primeiras vinhetas do livro. Esta imagem de marca do repórter é lhe atribuída mais adiante na história.
"É durante uma perseguição de carro que os cabelos dele ficam para trás e o Hergé continuou a desenhar-lo desse maneira. É em Tintin no país dos sovietes que Tintin fica com a sua pequena madeixa", lembra a diretora do museu.

"Carine Schmitz acredita que a reedição colorida vai ser um sucesso, relançando as vendas das Aventuras de Tintin. "O facto de se fazer Tintin no país dos sovietes [em edição] colorida, aqui no museu da Banda Desenhada, [acredito] que as pessoas que são amantes da Banda Desenhada possam descobrir, ao mesmo tempo, o livro a preto e branco", afirma.
"Schmitz acredita que a paixão dos mais novos com o Tintin ainda é como dantes e, aos 88 anos, o famoso repórter belga ainda encanta os jovens de hoje. E, isso nota-se nas vendas.

"Aqui, pelo que vemos, continua ainda a ser o melhor. O Tintin e os Estrunfes são os "Bestsellers". É importante saber que estamos no museu da Banda Desenhada. E, muitas das pessoas que aqui veem querem os clássicos. O Tintin mantém-se como a nossa melhor venda", garante”."

Excertos da edição original da primeira aventura de Tintin:
 







 

Edições "piratas", coloridas, de Tintin no País dos Soviéticos:





Excertos da actual edição a cores:





Um estudo sobre o álbum:
 

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Faleceu Ted Benoît, criador de Ray Banana

Faleceu de AVC, na passada 6ª feira, Ted Benoît, autor da série de culto "Ray Banana" e cultor da chamada "Linha Clara".
 
Ted Benoît, pseudónimeo de Thierry Benoît, nasceu e Niort, em França, em 25 de Julho de 1947 e iniciou a sua carreira como assistente de realização na televisão.
 
O cinema foi uma das suas grandes paixões, principalmente o chamado "cinema negro", paixão que muito se reflectiu nos ambientes das suas obras.
 
Iniciou-se no mundo da BD na revista "Actuel" e na revista underground Géranonymo, colaborando igualmente no jornal Liberation, mas foi a sua colaboração na revista L`Écho des Savannes, a partir de 1975, que o tornaram conhecido.
 
Nesta última publicação foi responsável por "Hôpital", série premiada em Angoulême em 1976.
 
Benoît foi uma dos mais entusiastas cultores da chamada "linha clara", crida por Hergé e E.P.Jacobs, intitulando uma obra editada em 1981, em homenagem ao criador de Tintin, onde reagrupou alguns dos seus trabalhos, de "Vers La Ligne Claire".
 
A sua personagem mais famosa foi "Ray Banana", surgida nas páginas do "´L'Echo des Savannes" em 1977 e que conheceu posteriormente publicação nas páginas de (À Suivre) em 1980.
 
 


 
Foi nesta mítica revista dos anos 80 que Benoît continuou a sua colaboração, com "Cité Lumiére" e "L'homme que ne transpirait pas".
 
Benoît teve igualmente uma interessante carreira como ilustrador publicitário, cujos trabalhos de ilustração foram reunidos em "La Peau du Léopard", obra editada em 1985. Nesta área foi responsável por uma série de desenhos para a marca irlandesa de whisky Jamson.
 
 
Mais recentemente Benoît foi  escolhido para iniciar a continuidade da série Blake e Mortimer, após o falecimento de E.P.Jacobs em 1987.
 
Foi assim responsável por dois dos três primeiros títulos da série pós-Jacobs, "O Caso Francis Blake", em 1995, e "O Estranho Encontro", em 2001, ambos com argumento de Jean Van Hamme.
 
 
 
Ted Benoît ficará na história da BD como um dos mais competentes seguidores e divulgadores da chama "linha clara" (ver mais informações AQUI).