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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

No Centenário do nascimento de René GOSCINNY (14 de Agosto de 1926-5 de Novembro de 1977)


René Goscinny nasceu em Paris em 14 de Agosto de 1926, mas acompanhou os pais, judeus de origem ucraniana, a mãe, e polaca, o pai,  na sua emigração para a Argentina, onde viveu até 1945, quando foi viver para Nova Iorque,  junto de um tio, devido ao falecimento do pai. Sendo incorporado na armada americana, partiu para França, mas sem nunca ter entrado em combate. Regressado aos Estados Unidos, conheceu alguns dos mais importantes desenhadores que estiveram na origem da criação da revista MAD em 1952, entre eles Hervey Kurtzman.

Conheceu também, na ocasião, dois dos mais importantes autores da BD franco belga, Jijé, um dos desenhadores da série Spirou, e Morris, o criador de Lukcy Luke, que por essa altura viveram algum tempo em Nova Iorque. Estes apresentam-no a Georges Troisfontaine, director da agência World’s Press, uma agência belga especializada na divulgação de BD. Goscinny resolve ir a Bruxelas apresentar o seu trabalho, como desenhador, nesta agência, que o ignora. Apesar disso Troisfontaine entrega-lhe a responsabilidade pela sede da agência em Paris. É então que  Jean_Michel Charlier, criador da série Tenente Blueberry, o põe em contacto com o meio da banda desenhada franco-belga, onde conhece Albert Uderzo, com quem inicia uma profícua colaboração.

Desistindo em definitivo de se dedicar ao desenho,  inicia-se, em 1952,  como argumentista da série “As Belas Histórias do Tio Paul”, desenhada por Pierre Dupuis e Eddy Paape, e, a partir de 1955,  com o seu amigo Morris, nos argumentos de algumas das mais interessantes aventuras de Lucky Luke, publicadas na revista Spirou.

“Des Rails sur la Prairie”, foi a primeira aventura com o seu argumento, embora a sua autoria só fosse assumida mais de 6 aventuras depois . Foi responsável pelos argumentos de mais de 40 títulos da série, e pela criação de algumas das mais icónicas personagens da série com Calamity Jane  e os Primos Dalton. A ele também se deve a célebre frase do herói da série, “o homem que dispara mais rápido que a sua própria sombra”.

Em 1952 começou a colaborar com Uderzo  na série Jehan Pistolet e Luc Junior. Em 1955 escreve e desenha a  “Le capitaine Bibodou” para o efémero semanário “Risque-Tout”, editado pela Dupuis, com a intenção de lançar novos autores a integrar no futuro na revista Spirou. Em 1956 cria outra das suas  séries de marca, “Le Petit Nicolas”, desenhada por Sempé para a revita Le Moustique.  Colabora esporadicamente com Jijé, em 1956, na série Jerry Spring, no episódio “L’or du vieux Lender”.

Em 1956 entra para a revista TinTin, sendo responsável pelos argumentos de várias séries e histórias, entre elas o “Senhor Spaghetti” de Dino Attanasio, Monsieur Tric, com Bob De Moor, Prudence Petipas, com Maurice Maréchal, Modeste e Pompom de Franquin, num episódio de Chick Bill, com Tibet, Le Pére La Houl, com Macherot, Srampontin com Berck e, com Uderzo, criando a série Humpá-pá, que vai ser uma espécie de ensaio geral de Astérix.

Nesse momento de grande criatividade, colabora em revistas como Paris-Flirt (com Will). Jour de France (com Coce) e com Godard, na revista de BD francesa, ligada ao Partido Comunista,  Vaillant, antecessora da revista PIF.

Juntamente com Uderzo e outros jovens autores, lança-se em 1959 na aventura da criação de revista francesa Pilote,  para a qual criam Ásterix, que inicia a sua longa vida na 1ª edição dessa revista editada em 29 de Outubro de 1959.

Nessa revista, que vai colocar a BD num novo patamar qualitativo, retoma antigas personagens como Pistolin (1959), Le Petit Nicolas (1959) e Johan Soupolet (1960).

Quando se torna chefe de redacção da revista, lança uma nova e criativa geração de autores, colaborando como argumentista com alguns deles, como Martial em “Les Divagations de Monsieur Sait-Tout”, em 1961, Gotlib em Les Dingodossiers, em 1965, ou Mic Delinx em La Forêt de Chênebrau, em 1966. Uma das grandes novidades e conquistas que conseguiu para o prestígio da revista foi ter “roubado” à revista Spirou a série Lukcky Luke que desenvolvia há mais de uma década nesse semanário belga em coautoria com Morris. A primeira aventura de Lucky Luke publicada nas páginas de Pilote, em 4 de Abril de 1968, foi “Dalton City”.

Continua a colaborar noutras séries publicadas noutras revistas como no argumento do Califa Haroum et Poussaha, desenhado por Jean Tabary, para o mensário Record, série esta que tem o célebre Vizir Iznogoud como personagem icónica.

Contestado por vários jovens autores na sequência do Maio de 1968, e depois de uma saída em massa de vários deles para fundarem outras revistas icónica das BD francesa, como Charlie Hebdo, L’Echo des Savannes ou Fluide Glacial, acabou por sair da revista, dedicando-se ao cinema de animação e à série Ásterix, criando o Estúdio Idéfix, contribuindo para relançar a animação francesa, ao mesmo tempo que lança, com Uderzo a sua própria casa editorial

Na sequência de uma prova de esforço, recomendada pelo seu cardiologista, acaba por morrer de ataque cardíaco em 5 de Novembro de 1977, aos 51 anos, tendo deixado pronto o argumento para mais uma aventura de Asterix, “Astérix entre os Belgas”, que só foi publicada em 1979, a última aventura do irredutível gaulês, num total de 24, que contou com o seu argumento.

terça-feira, 8 de outubro de 2024

Recordar Pierre Christian (1938-2024)


Faleceu no passado dia 3 de Outubro, com 86 anos,  Pierre Christian, argumentista de conhecidas séries de Banda Desenhada, como Valérian e Laureline, esta em parceria com Jean- Claude  Méziéres(1938-2022).

Christian tinha formação em ciência política, diplomado pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris em 1963 e foi professor de jornalismo na Universidade de Bordéus.

Foi a sua amizade de infância com Mézières que o levou para o mundo da Banda Desenhada, tendo ambos realizado na juventude uma viagem pelos Estados Unidos.

Pierre Christian, que também escreveu os seus primeiros argumentos com o pseudónimo de Linus, uma homenagem à série Peanuts que ele muito admirava, era músico de Jazz nas horas vagas e um entusiasta pelo cinema, admirador de Kubrick, Fellini, Buñuel, Orson Welles e principalmente de Fritz Langa, que muito o influenciou na criação dos ambientes da sua série  mais conhecida, a já referida Valérin e Laureline.

O seu amor pelo cinema foi reciproco por parte por alguns grandes cineatas, como George Lucas que se confessou influenciado pelos ambientes da série Valérian para a elaboração da Guerra das Estrelas. Também Luc Besson se confessou influenciado pelos ambientes criados por Christian para o filme “o 5ª Elemento” (1997), acabando mesmo por adaptar a série Valerian ao cinema, com “A Cidade do Mil Planetas” (2017).

Confessava que não era grande leitor de Banda Desenhada, excepto as obras de Franquin, Hergé e Edgar Pierre Jacobs, e apesar da influência da série Buck Rogers, criada em 1928 por Philip Nowlan nas séries de BD para as quais escreveu o argumento.

Um convite de René Goscinny para colaborar na revista Pilote desde o seu início, em 1967, mudou-lhe a vida, tendo escrito o seu argumento para uma série de BD, exactamente a mencionada Valérian e Laureline, desenhada pelo seu amigo Meziéres.

Inicialmente conhecida apenas pela personagem masculina, Valérian, a forma como fez de Laureline uma das mais fortes  personagens femininas na BD levou a que a série começasse a ser designada oficialmente pela dupla : “Valérian e Laureline”.

A partir de aí cruzaram-se com eles alguns do grandes nomes da BD, que a ele recorreram para argumentista das suas criações, como Jean Giraud, Jacues Tardi, François Boucq ou Annie Goetzinger, entre outros.

Destaca-se, contudo, a sua  colaboração com Enki Bilai em 1975, atingindo o seu ponto alto com o argumento de “A Falange da Ordem Negra” (1979).

A sua última criação foi o argumento para a série em três volumes “Léna”, de 2020, desenhada por Andrei Juillard.

Pierre Christian escreveu ainda sete romances.

O autor fez parte de uma geração de argumentistas que contribuíram para tirara a banda desenhada do seu ghetto infantojuvenil, ( Jean Michel Charlier, René Goscinny, Greg…)para a transformarem na arte prestigiada e adulta que é hoje.

Podem saber mais sobre Christian AQUI, AQUI, e AQUI .

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Recordar Jean-Claude Mézières (1938-2022)


Faleceu, no passado dia 23 de Janeiro, um dos grandes nomes da Banda Desenhada europeia, Jean-Claude Mézières, “pai”, com Pierre Christin,  de Valerian, um dos mais icónicos heróis da banda desenhada de ficção científica.

As 23 aventuras da série contribuíram para dar uma nova dimensão à ficção científica, integrando nas aventuras da dupla de heróis, Valerian e Laureline, “agentes espaciotemporais”, temas de sempre, da luta de classes, à tirania, da injustiça à igualdade de sexos.

Esta foi, aliás, uma das raras séries onde uma heroína feminina mereceu tanto destaque como o herói principal.

Mézières nasceu em Paris em 23 de Setembro de 1938 e conheceu Pierre Christian, co-autor daquela série, num abrigo antiaéreo durante um bombardeamento da 2ª Guerra, em 1944, já que ambos viviam próximos.

Começou a desenhar nos cadernos escolares, e uma das primeiras “obras” foi a criação, aos 13 anos,  de aventuras alternativas de TinTin, com destaque para um inédito  “TinTin na Califórnia”, realizando também por essa altura,  um pequeno álbum, de tiragem única, um Western a cores, que enviou a Hergé para lhe pedir uma opinião, ao que este lhe respondeu para “continuar”, uma resposta idêntica dada a muitos outros jovens desenhadores que enviavam os seus trabalhos àquele autor.

(TinTin Na Califórnia)
(algumas das pranchas enviadas por Mézières a Hergé)
(resposta de Hergé)

Publicou a sua primeira banda desenhada, por essa altura, num suplemento do Le Figaro, em 1952.

Aos 15 anos Mézières começou a frequentar a Escola de Artes Aplicadas de Paris, onde estudou durante 4 anos, escola onde a Banda Desenhada era vista como uma arte menor. Nesse curso conheceu Jean Giraud, futuro “Moebius”, um amigo para a vida, partilhando ambos o mesmo gosto pelo Western e pela ficção científica.

Com Jean Giraud e outro futuro autor de BD, Patrick Mallet, que também frequentavam aquela escola, começou a colaborar nas revistas “Coeurs Vaillant” e “Fripounet et Marisette”, com aventuras em ambiente Western, ao mesmo tempo que trabalhava em publicidade para a Philips.

No Natal de 1958 a prestigiada revista Spirou (que ainda existe) publicou duas páginas de um conto de Natal desenhado por s, “La Première Chreche”.

Teve depois de ir cumprir o serviço militar, parte dele passado numa Argélia em ebulição, interrompendo a sua carreira de ilustrador durante dois anos e meio.

Regressado do serviço militar conseguiu, em 1963, trabalhou nos Estudios Hachette, ilustrando, durante dois anos, uma enciclopédia sobre a história das civilizações. Nessa editora, para além de ilustrador, foi assistente de fotografia, maquetista e gráfico.

Por essa altura, com Benoit Gillan, lançou “Total Journal”, interrompendo a sua participação para ir trabalhar para os Estados Unidos. Quando regressou, em 1966, continuou a colaborar nessa publicação, juntamente com Christian, conseguindo que nela  colaborassem também autores como Brétécher, Gotlib, Mandryka, Giraud ou Jijé.

O seu espírito de aventura e a sua paixão pelo Western levou-o aos Estados Unidos, para onde partiu em 1965, onde esteve ano e meio,  para trabalhar como verdadeiro cowboy num rancho entre o Montana e o Arizona. Em Salt Like City reencontrou o seu amigo de infância Pierre Christian, que ensinava literatura francesa na universidade d’Utah. Desse encontro resultou uma primeira colaboração conjunta numa história curta, “no espírito da revista Mad”, intitulada “Le Rhum du Punch”, que foi aceite para publicação na revista Pilote (nº 335 de 24 de Março de 1966), dirigida por René Goscinny (um dos pais de Astérix).

(Mézières, cow-boy nos Estados Unidos)
(Le Rhum du Punch, primeira colaboração na revista Pilote)

Iniciou-se aí uma colaboração que nunca mais foi interrompida com a célebre e inovadora revista Pilote, tendo Mézières publicado várias histórias curtas com argumentos, não apenas de Christian (aliás Linus), mas também de Fred, Reiser,Lob, Clavé, Gébè e do próprio Goscinny.

Tendo-lhe sido proposto criar uma nova série de Banda Desenhada, com argumento de Christian, chegaram a ponderar um Western, ambiente bem conhecido do autor, mas esta temática já estava ocupada, no mundo da BD franco-belga, por Blueberry, do seu amigo Giraud (também Moebius), Lucky Luke (com argumentos de Goscinny) ou Jerry Spring (do seu amigo Jijé).Acabaram por optar pela ficção científica.

Foi assim que, no nº 420 de Pilote, de 9 de Novembro de 1967, nasceram as Aventuras de Valerian, desenhos seus e argumento de Christian, que deu origem a mais de 20 aventuras, publicadas naquela revista e, pela primeira vez em álbum, a partir de 1970.

A primeira aventura intitulou-se “Contre Les Mauvais Rêves” ("Sonhos Maus" em português). Nessa história de estreia Valerian, agente espacio-temporal no ano de 2720 é enviado para a Idade Média em perseguição de um vilão, encontrando Laureline que, tornando-se igualmente agente espacio-temporal o acompanhará em toda as futuras aventuras da série. A 2º aventura, publicada em 1968, "La Cité des Eaux Mouvantes",talvez uma das mais icónicas da série, conduz os dois herois ao ano de 1986, a uma Nova Iorque pós apocaliptica. 


Depois de receber o Grande Prémio do Festival de Angoulême em 1984, em 1987 publica, em parceria com Christian, o romance gráfico “Lady Polaris”, o nome de um navio afundado no Báltico, imaginado a vida e os segredos de personagens que viajaram nesse barco pelos portos da Europa.

Em 1991, quando começava a trabalhar numa nova aventura de Valerien, foi contactado pelo cineasta Luc Besson para a ralização de um filme de ficção cientifica, trabalhando nesse projecto ao longo de todo o ano de 1992. Demorando-se a sua concretização, desse trabalh resultou uma nova aventura de Valerian, intitulada “Les Cercles du Povoir” ("Os Círculos do Poder"), publicado em 1994.Finalmente essa colaboração acabou por dar frutos, em 1997, com a estreia do filme “O Quinto Elemento”.


A influência da série de Mézières e Christian no mundo do cinema não se esgotou neste projecto. A série “Guerra das Estrelas” baseou-se em ambientes, cenários e figuras da série Valerian, da qual George Lucas era fã.

Foi, contudo, preciso esperar pelo ano de 2017, para ver uma adaptação cinematográfica da série, realizada por Luc Bessson, “Valérian e a Cidade dos Mil Planetas”, adaptada dos álbuns “O Embaixador das Sombras” e parte de “O Império dos Mil Planetas”.



A série Valérian foi publicada pela primeira vez em Portugal na revista “TinTin”, no nº 36 do 3º ano, em 30 de Janeiro de 1971, sendo também publicado, posteriormente, nas revistas “Jornal da BD”, “Flecha 2000” e “Selecção BD” e editado pela primeira vez em álbum pela Meribérica. Em 2017 a Asa editou  integralmente a série.


Em 2008, o Festival de Banda Desenhada da Amadora, dedicado à Ficção Científica na BD, reservou uma das suas exposições à série Valérian.

Mas foi no IX Festival Internacional de Beja, no dia 1 de Junho de 2013, que Mézières em pessoa pode conviver com o publico português.

O trabalho de Mézières voltou a estar em destaque em Portugal no ComicCon de 2016, onde a esposa de Luc Besson, Virginie Besson, apresentou, em exclusivo, imagens do filme “Valérian e a Cidade dos Mil Planetas”, que estreou no ano seguinte.

Mézières foi um dos autores mais marcantes da BD franco-belga, renovando um género, a ficção científica, de forma original, sem cair nos excessos comercias da Marvel ou da DC Comics, que hoje dominam o género na BD e no cinema.

Fontes:

- Site "Mézières" (com muito material de consulta - cilcar AQUI):

- Schtroumpf - Les Cahier de La Bande Dessinée, nº7 - Linus-Mézières.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Astérix faz 60 anos



Descobri a Banda desenhada lendo séries como o  “Principe Valente”, de Hal Foster, série criada em 1937, que lia avidamente nas páginas coloridas do suplemento dominical do “Primeiro de Janeiro” , onde também seguia o  “Reizinho” de Otto Soglow, criado em 1930, igualmente publicado a cores nesse mesmo suplemento.

Também “conhecia” o  Pato Donald e o Mickey, em edições brasileiras, séries que transitaram do cinema de animação para a banda desenhada,  no princpio do século XX.

Mais tarde deliciava-me com as tirinhas do Peanuts nas páginas diárias do Diário de Lisboa, série nascida em 1950.

Pela década de 1960 descobri o Tintin, criado em 1929, ou o Blake e Mortimer, criado em 1946.

Ou seja, todas as bandas desenhadas que me marcaram tinham nascido antes de mim.

Todas?

Todas não!. Uma houve que nasceu depois de mim.

Refiro-me à série Astérix, que comemora hoje o seu 60º aniversário.

A idéia dessa série nasceu de uma conversa entre Goscinny e Uderzo, à volta de umas cervejas, durante o Verão de 1959. O objectivo era criar um personagem de Banda Desenhada tipicamente francesa para integrar a primeira edição na nova revista Pilote, que surgia como contraponto francês à revista belga TinTin.

Logo aí Uderzo esboçou o primeiro estudo daquela que se tornou a personagem principal que deu nome à série, o pequeno Astérix.
(o 1º esboço para Astérix)

(prancha onde os autores de auto representam, ironizando com o momento em que idealizaram Astérix)

Foi no dia 29 de Outubro de 1959 que a revista “Pilote” iniciou a publicação das aventuras desse pequeno gaulês, intituladas “Astérix o Gaulês” e onde se traçavam desde logo os temas recorrentes da série.
(Capa do nº 1 da Revista Pilote)


Era a história de uma pequena aldeia de gauleses irredutíveis, dirigida pelo chefe Abraracourcix,  que resistia ao domínio do Império de Roma, situada por volta do ano 50 a.C.

Cercados por vários acampamentos romanos, resistiam graças à poção mágica fabricada pelo druida Panoramix.

Astérix é o herói da série, pequeno, mas inteligente, é ele que está no centro das aventuras, sempre acompanhado pelo seu amigo, o gigante Obélix, fabricante e vendedor de menires, que não precisa de tomar a poção mágica porque caiu no caldeirão da poção mágica quando era pequeno.

Essa aventura inaugural traça logo o universo de situações e personagens que vão ser o ponto de partida para as dezenas de aventuras da série que terminam sempre com um banquete e a tentativa falhada do bardo Assurancetourix cantar para o grupo.


É só na quinta aventura da série, “A Volta à Gália”, que vai aparecer uma das personagens mais populares da série, o cão Idéafix (na página 13 da revista Pilote nº 172, em Fevereiro de 1963), cujo nome foi escolhido por concurso aberto aos leitores da revista Pilote.
Ao longo das várias aventuras vai aparecendo um infindável número de personagens que caracterizam o divertido universo de Astérix.

Ao longo das várias histórias, Astérix e Óbelix percorrem quase todo o mundo antigo associado ao período do Império Romano, da Bretanha , à “Hispania”, da “Helvécia”, à “Corsega”, da Bélgica à Normandia, do Egipto aos Góticos…

Nessas viagens são parodiadas até ao absurdo os estereótipos relativos aos particularismos nacionais, muitas vezes de forma assumidamente anacrónica, remetendo para situações contemporâneas.



A metáfora, os jogos verbais os gags visuais devem-se à criatividade dos seu autores, o argumentista René Goscinny e o desenhador Albert Uderzo.

Curiosamente a série não conheceu o êxito imediato que se pode pensar. O seu primeiro álbum, reproduzindo a aventura inaugural publicada em continuação durante vários números da revista Pilote, editado pela Dargaud em 1961, “Astérix o Gaulês”,  teve uma tiragem de apenas 6 mil exemplares, sendo hoje avidamente disputado no mercado do coleccionismo.






Só em 1966 é que a série atingiu o êxito absoluto, com a edição do álbum “Astérix entre os Bretões”, com uma tiragem de 600 mil exemplares esgotada em duas semanas.

A última aventura da série, lançada no passado dia 24 de Outubro, tem uma tiragem de …5 milhões de exemplares!

Astérix é a série de Banda Desenhada francesa mais vendida no mundo, um total de 380 milhões de álbuns.

Foi traduzida para 111 países, sendo a BD mais traduzida do mundo.

Portugal está no top 10 dos países onde se vendem mais exemplares da série, em 9º lugar, com 6 milhões de álbuns vendidos, à frente do Brasil, com 3 milhões. A lista é liderada pela França e países francófonos, com 141 milhões de exemplares vendidos.

A série começou a ser publicada em Portugal na revista “Foguetão”, no seu 1º número, editado em 4 de Maio de 1969, sendo o primeiro país não francófono a editá-la.




 A revista “Foguetão” só durou 13 números e essa primeira história ficou incompleta. Voltou a ser publicado em Portugal ao longo dos anos 60 nas revistas “Cavaleiro Andante”, “Zorro” e “TinTin”, sendo nesta última que conheceu maior êxito entre nós.

Em 1967 foi publicado o primeiro álbum em português.

No primeiro álbum da série, não aparece uma única figura feminina, a não ser um criança da aldeia, numa única vinheta.

Contudo, rapidamente começa a aparecer uma galeria de personagens femininas, que se tornam cada vez mais importantes na série.

O momento alto do papel feminino na série é na histórias “Astérix e Cleópatra”, editada em álbum em 1965.


Destaquemos figuras como Falbala, a paixão platónica de Óbelix, que faz a sua aparição em “Astérix Legionário” (1967), Bonemine, a esposa do chefe da aldeia, figura dominante, a tal “grande mulher atrás de um grande homem”, que surgiu pela primeira vez em “Escudo de Averne” (1967), entre tantas outras. Uma nova personagem feminina é a figura principal do novo álbum editado na semana passada.

Em 1972, no álbum “O Adivinho” (1972) elas obtem o direito de beber a poção mágica e, em 1974, no álbum “O Presente de César” (1974) passam a participar nos debates públicos da aldeia e no banquete final.




Muitos identificam a êxito de Astérix como metáfora da afirmação dos franceses numa europa dominada pelo imperialismo norte-americano.

De facto, Astérix surge no ano a seguir à fundação da 5ª República, no início do mandato de dez anos no General DeGaulle, que retirou a França do comando da NATO e seguindo uma politica internacional de oposição à politica norte-americana.

As referências à situação politica internacional é abordada muitas vezes, de forma indirecta e irónica em vários momentos da série Astérix.

OS AUTORES:


GOSCINNY
Se há série de banda desenhada que muito deve ao talento do argumentista, talvez mais do que ao do desenhador, ela é “Astérix”.

René Goscinny foi o argumentista que criou a série, homem que já tinha uma vasta experiência nesse campo, tendo trabalhado como tal em muitas das séries mais famosas da BD francófona.

Nasceu em Paris em 14 de Agosto de 1926, mas acompanhou os pais, judeus de origem ucraniana, a mãe, e polaca, o pai,  na sua emigração para a Argentina, onde viveu até 1945, quando foi viver para Nova Iorque,  para junto de um tio, devido ao falecimento do pai. Sendo incorporado na armada americana, partiu para França, mas sem nunca ter entrado em combate. Regressado aos Estados Unidos, conheceu alguns dos mais importantes desenhadores que estiveram na origem da criação da revista MAD em 1950, entre eles Hervey Kurtzman.

Conheceu também, na ocasião, dois dos mais importantes autores da BD franco belga, Jijé, um dos  desenhadores da série Spirou, e Morris, o criador de Lukcy Luke, que por essa altura viveram algum tempo em Nova Iorque. Estes apresentam-no ao director da agência World’s Press, uma agência belga especializada na divulgação de BD. Goscinny resolve ir a Bruxelas apresentar o seu trabalho, como desenhador, nesta agência, que o ignora. É Jean_Michel Charlier, criador do Tenente Blueberry, que o põe em contacto com o meio da banda desenhada franco-belga, onde conhece Albert Uderzo, com quem inicia uma profícua colaboração.

Desistindo em definitivo de se dedicar ao desenho,  inicia-se como argumentista na série “As Belas Histórias do Tio Paul”, desenhada por Pierre Dupuis e Eddy Paape, e com o seu amigo Morris, nos argumentos de algumas das mais interessantes aventuras de Lucky Luke, publicadas na revista Spirou.

Em 1952 começa a colaborar com Uderzo  na série Jehan Pistolet e Luc Junior. Em 1956 cria a série “Le Petit Nicolas”, desenhada por Sempé e colabora esporadicamente com Jijé na série Jerry Spring.


Em 1956 entra para a revista TinTin, sendo responsável pelos argumentos de várias séries e histórias, entre elas o “Senhor Spaghetti” de Dino Attanasio, Modeste e Pompom de Franquin e, com Uderzo, Humpá-pá, que vai ser uma espécie de ensaio geral de Astérix.

Juntamente com Uderzo e outros jovens autores, lança-se em 1959 na aventura do lançamento de revista francesa Pilote,  para a qual criam Ásterix, que inicia a sua longa vida na 1ª edição dessa revista editada em 29 de Outubro de 1959, tonando-se chefe de redacção da revista.

É nesta série e nesta revista que Goscinny se torna mais conhecido, mas continua a colaborar em muitas outras séries, como no argumento do Califa Haroum et Poussaha, desenhado por Jean Tabary, que tem o célebre Vizir Iznogoud como personagem icónica.

Contestado por vários jovens autores na sequência do Maio de 1968, e depois de uma saída em massa de vários deles para fundarem outras revistas icónica das BD francesa, como Charlie Hebdo, L’Echo des Savannes ou Fluide Glacial, acabou por sair da revista, dedicando-se ao cinema de animação e à série Ásterix, contribuindo para relançar a animação francesa.

Na sequência de uma prova de esforço, recomendada pelo seu cardiologista, acaba por morrer de ataque cardíaco em 5 de Novembro de 1977, aos 51 anos, tendo deixado pronto o argumento para mais uma aventura de Asterix, “Astérix entre os Belgas”, que só foi publicada em 1979, a última aventura do irredutível gaulês, num total de 24, que contou com o seu argumento.





UDERZO

Albert Uderzo, nascido numa pequena localidade francesa do Marne, em 25 de Abril de 1927, felizmente ainda vivo, com 92 anos, continuou a série, mantendo-se fiel ao estilo de argumentos impostos por Gocinny e que fizeram o êxito da série.



Uderzo é, como o nome indica, de origem italiana. Começou a desenhar aos 13 anos, copiando bandas desenhadas da sua infância. A partir de 1945 trabalha como ilustrador, desenha anúncios publicitários e pequenas histórias para vários jornais e revistas e inicia-se no cinema de animação.

Em 1957 iniciou a sua colaboração com Goscinny na série Luc Junior, colaboração que se torna mais importante na série Humpá-pá, publicada na revista Tintin a partir de 1958, embarcando com Goscinny , no ano seguinte, na aventura do lançamento da revista Pilote, para a qual criam conjuntamente a série Astérix. Em paralelo, Uderzo cria a série Tanguy e Lavardure, esta com argumento de Charlier. A sua crescente dedicação à série Astérix leva-o a abandonar a dupla realista de aviadores franceses que, a partir de 1966 é continuada por Jijé.




(várias séries e histórias da autoria de Uderzo, entre elas uma biografia de Marco Polo que foi publicada em Portugal, em fascículos, salvo erro, no suplemento PimPamPum do jornal "O Século", na décadada de 1960)


Em 1974 funda os estúdios Idéfix, juntamente com Goscinny, para gerir a realização dos filmes de animação de Astérix, que se tinha iniciado neste meio em 1967.

Após a morte de Goscinny em 1977, Uderzo continua a série Astérix, mantendo sempre o nome do amigo falecido nos cabeçalhos da série.

Uderzo publica um total de 8 albuns com argumento próprio, abandonando a série em 2005 com a aventura “O Dia em que o Céu lhe caiu sobre a cabeça”.

Lançou ainda em 2009 um livro comemorativo do 50º aniversário da série.

A partir de 2013 a série foi retomada com desenho de Didier Conrad e argumento  de Jean-Yves Ferri, que publicaram nesse ano “Asterix entre os Pictos”.

Depois disso essa dupla já publicou mais três aventuras da série, a última das quais no final da passada semana, em 24 de Outubro, intitulada “A Filha de Vercigéntorix”.

Mais informações sobre as comemorações do 60º aniversário da série podem ser encontradas AQUI, no site oficial de Ásterix.

Algumas capas e páginas da Revista Pilote com referências à série Astérix: