sexta-feira, 25 de setembro de 2026

No 80º Aniversário da revista belga "Tintin"


Há 80 anos, numa 5ª feira, 26 de Setembro de 1946, numa Bruxelas com 25 graus de temperatura, o “pequeno Roger Goens teve duas boas razões para sorrir. Primeiro, ele tinha acabado de assistir, em companhia da sua mãe, à projecção de “Pinóquio”, desenho animado adaptado pelo célebre Walt Disney, no cinema “Eldorado” na praça De Brouckère. Segundo, um acontecimento registado em todo o território belga da época, foi o dia oficial do lançamento duma nova publicação para a juventude: o “jornal TinTin”, publicado com uma semana de atraso em relação à data prevista, 19 de Setembro (1).

Nesse mesmo dia 26 de Setembro saiu para a rua o nº441 do “Journal de Spirou”, que veio a tornar-se o grande rival editorial da recém-nascida “TinTin”.

A iniciativa da fundação da revista “TinTin” partiu das “éditions du Lombard”, criada de propósito para a ocasião, dirigida por Raymond Leblanc, um católico que tinha participado na resistência ao ocupante nazi durante a 2ª Guerra.

A revista conheceu outra versão em holandês, lançada na mesma data, dirigida à comunidade flamenga, intitulada “Kuifje”.

Esse primeiro número custou 3,50 francos, tinha 12 páginas e uma tiragem de 60 mil exemplares, 40 mil na versão belga e 20 mil na versão flamenga.

Nesse primeiro número surgiu uma nova aventura de “Tintin”, “O templo do Sol”, e estrearam-se novas séries, Blake e Mortimer, de Edgar Pierre Jacobs, em “O Segredo do Espadão”, Corentin, de Paul Cuvelier e “La Légende des quatre fils Aymon” de Jacques Laudy.

Hergé, Jacobs, Cuvelier e Laudy ficaram conhecidos como os “4 Mosqueteiro” da nova revista.

A capa desse primeiro número, assinada por Hergé, mas feita em colaboração com Jacobs, anunciava a nova aventura de TinTin, “O Templo do Sol”, que era a continuação de “As Sete Bolas de Cristal”, cuja publicação, no jornal colaboracionista “Le Soir”, tinha sido interrompida em 3 de Setembro de 1944 com a libertação de Bruxelas e a suspensão daquele jornal.

Publicada a cores nas páginas centrais da revista, no chamado “formato italiano”, Hergé inclui uma coluna escrita, dividida em 4 partes, resumindo “As Sete Bolas de Cristal”.

A outra aventura a cores, publicada na última página, dava início a uma das séries mais icónicas de BD franco-belga, Blake e Mortimer, na sua primeira aventura “O Segredo do Espadão”. Esta série tornou-se, na revista, a principal concorrente de TinTin, o que motivou, ao longo da existência da revista, alguns conflitos entre os dois autores e amigos. Inicialmente Jacobs tinha proposto a criação de uma aventura em ambiente medieval, mas como já existiam duas outras séries programadas passadas em ambiente histórico, Jacobs enveredou então por uma série entre o policial e a ficção científica. Curiosamente os dois heróis da série, Balke e Mortimer, não surgiram nessa página fundadora da série. O vilão Olrik foi o primeiro personagem da série a ser conhecida pelos leitores.

As outras duas séries publicadas, a preto e branco foram, como já dissemos, “A Extraordinária Odisseia de Corentin Faldoe”, da autoria de Paul Cuvelier, uma das que veio a ter maior êxito, e “A Lenda dos quatro filhos Aymon”, ambas em ambiente histórico, uma serie pouco conhecida em Portugal.


Jacobs ilustrou ainda a publicação de “A Guerra dos Mundos” de H.G. Wells, assim como de uma adaptação do conto “Zadig” de Voltaire, como título de “A Cadela da Rainha e o Cavalo do Rei”.
Anunciava-se ainda um espaço dedicado à aviação e à marinha, “apresentada” pelo capitão Haddock, para a parte da marinha, e por Wings, o piloto do hidroavião de “A Estrela Misteriosa”, ilustrações assinadas por Hergé, mas que tiveram a valiosa colaboração anónima de Jacobs.

Hergé era o director artístico e Jaccques Van Melkebeke foi nomeado chefe de redacção. Contudo, este último foi substitudo por André Fernez em Dezembro desse ano de 1946, por estar a contas com a justiça, acusado de colaboracionista com o ocupante nazi.

A revista foi conhecendo sucessivos aumentos de tiragem, acompanhados pelo aumento do número de páginas e a inclusão de novos autores.

Em 1947, na edição de 3 de Abril, numa edição especial de 24 páginas, apareceu pela primeira vez o slogan que popularizou a revista : “Tintin é o jornal de todos os jovens…dos 7 aos 77 anos”.

No ano seguinte foi editada a versão francesa da mesma revista, publicada pela primeira vez em 28 de Outubro de 1948.

Aquilo que ficou conhecido como escola franco-belga ou a “linha-clara” confunde-se com a histórias desta revista, partilha que esse movimento tem de fazer com duas outras revistas, uma mais antiga, o “Spirou”, revista belga editada desde 1938 e ainda em publicação, e uma posterior, “Pilote”, semanário francês, entre 1959 e 1974, passando posteriormente a mensário (1974-1986).

O semanário “TinTin” durou até 29 de Novembro de 1988, publicando-se um total de 690 edições dessa revista.

Em Portugal a revista “Tintin” conheceu uma versão editada pela Bertrand, nascida em 1 de Junho de 1968 e que durou até 2 de Outubro de 1982.

Muitas das séries da  edição belga original foram publicadas, antes do aparecimento da versão portuguesa, em várias revistas que surgiram, entretanto, em Portugal, nomeadamente no “Cavaleiro Andante” (1952-1962) e na revista “Zorro” (1962-1966), entre outras.

(1)    – in Le Journal TinTin – Les Coulisses dúne aventure, ed. Moulinsart, Bruxelas, 2006, pág. 16 (tradução adaptada);

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