Por coincidência, este é o ano de uma dupla comemoração de um dos ícones da Banda Desenhada: o octogésimo aniversário da série Blake e Mortimer, que surgiu pela primeira vez no primeiro número da revista belga Tintin, em 1946, e o septuagésimo aniversário da primeira publicação em álbum da mais importante aventura da dupla, “A Marca Amarela”, em 1956.
A esse propósito, aqui recordamos, em breve evocação, a
carreira do seu autor, Edgar Pierre Jacobs, da sua série e, em especial, desse
álbum “A Marca Amarela”, uma das grandes referências da 9ª arte.
Eu e Blake e Mortimer
Pessoalmente, o meu primeiro contacto com essa série teve
lugar na minha infância, aí pelos inícios da década de 1960, ao desfolhar uma
edição especial do “Cavaleiro Andante” do Natal de 1952, o nº 51 de 20 de
Dezembro desse ano, que existia lá por casa, espólio que a minha mãe tinha
trazido de casa dos meus avós quando se casou. Nessa edição pude apreciar uma
página, a duas cores, da primeira aventura da série Blake e Mortimer publicada
em Portugal, “O Mistério da Grande Pirâmide”, a página 22 da história, onde se
inicia a perseguição, nas ruas do Cairo, do misterioso carro preto guiado pelo
vilão Sharkey. Desconhecendo as peripécias anteriores e posteriores, pois esse
era o único exemplar daquela revista que estava em casa dos meus pais, essa
página mereceu-me especial atenção, destacando-se das restantes aventuras
publicadas na revista pela nitidez do desenho e pelo ritmo da decopagem dessa
prancha.
Fiquei a conhecer melhor a série através da revista “O Foguetão” que os meus pais me compraram desde o primeiro número de 4 de Maio de 1961 e que publicou, entre outras séries da escola franco-belga, e pela primeira vez em Portugal, a aventura “A Armadilha Diabólica”, quase em simultâneo com o início da publicação dessa aventura na Bélgica (teve estreia em Setembro de 1960). Infelizmente a publicação de “O Foguetão” foi interrompida na sua 13ª edição, em 27 de Julho de 1961, ficando a menos de meio a leitura dessa aventura, que continuou a ser publicada na revista Cavaleiro Andante, mas esta publicação nunca entrou lá em casa.
Curiosamente, “A Armadilha Diabólica” foi a primeira
aventura da série que consegui ler na integra, isto porque, quando comecei a
receber regularmente a revista Tintin, uma oferta do meu avô que tinha uma
livraria e papelaria , era essa aventura de Blake e Mortimer que estava a
começar a ser publicada em continuação.
O primeiro número que o meu avô me ofereceu, tinha eu
então os meus 14 anos, foi o nº 42 do 2º ano da revista portuguesa, publicado
em 14 de Março de 1970, onde se incluía a 2º prancha de “A Armadilha
Diabólica”, cuja aventura tinha começado a ser publicada no TinTin português no
número anterior, em 7 de Março de 1970,.
Já em relação às outras aventuras da série conheci-as ao
longo da década de 1970, publicadas em álbum, lidos nos verões da praia de Sant
Cruz, álbuns que me eram emprestados pelo Zico. Foi em álbum que li pela
primeira vez “A Marca Amarela”, aventura que me
“marcou” para sempre e que ainda hoje não me canso de reler.
No meu grupo de amigos, entusiastas pela Banda Desenhada
e muito marcados pela revista “TinTIn”, todos tentávamos imitar Jacobs e Hergé
e, de forma não muito rigorosa, dividamo-nos entre os fãs de TinTin e os de
Blake e Mortimer. Eu fazia parte deste último grupo e continuo a reler as
aventuras da série de Jacobs , não perdendo o aparecimento das novas aventuras
continuadas por alguns dos melhores autores da BD franco-belga.
Recentemente, em Fevereiro de 2025, fiz um roteiro belga
em memória de Jacobs, percorrendo Lasne, onde visitei o seu original túmulo no
cemitério dessa localidade, a Biblioteca Edgar Pierre Jacobs, assim intitulada
em sua homenagem, a antiga rua do “Bois des Pauvres”, onde se situou a sua
última morada (no local existe agora outra casa) e, já em Bruxelas, a casa onde
ele nasceu e, bem próximo, o mural que homenageia a série por si criada.]
Breve biografia de Jacobs
Edgar (aliás Edgard) Félix Pierre Jacobs nasceu em Bruxelas
em 30 de Março de 1904, no famoso bairro de Sablon, no nº5 da rua Ernest
Allard, bem perto do misterioso Palácio da Justiça. Uma placa colocada à
entrada do prédio ainda hoje assinala esse facto.
Desde cedo, e principalmente ao entrar para o liceu em 1915,
revelou o seu gosto pelo desenho e pela História.
É conhecida a qualidade das ilustrações com que ele decorou
os seus cadernos da sua disciplina preferida, a de História, em 1917 e 1918.
Mas, mais que o desenho, a sua grande paixão foi a ópera,
iniciada quando assistiu em 1917 à representação lírica de “Fausto” no Teatro Real
da Galerias de Saint-Hubert.
Nesse mesmo ano travou conhecimento escolar com Jacques Van
Melkebeke, amigo que o acompanhou toda a vida, figura marcante nas influências
artísticas e literárias de Jacobs.
Terá sido por essa altura que Jacobs leu uma das obras que
mais o influenciou no seu gosto pela ficção científica, “A Guerra dos Mundos”
de H.G. Weels (1866-1946).
Além da ópera, que ele frequentava nas soirées do Teatro de
“La Monnaie” (da Bolsa), era igualmente frequentador dominical das sessões de
cinema, exibidas nas mais variadas salas, apreciando em especial as obras de
René Clair, Abel Gance, Max Linder, Charles Chaplin, Buster Keaton, Harold
Lloyd, D. W. Griffith, Cecil B. De Mille, e praticamente todo o expressionismo
alemão de Fritz Lang, Murnau a Robert Wine, e filmes como “O Sinal de Zorro”,
“Os 4 Cavaleiros do Apocalipse”, “Bem-Hur” ou “O Gabinete do Dr. Caligari”.
Em 1919 , juntamente com o
amigo Van Melkebeke, entrou para a Academia Real das Belas Artes de
Bruxelas, então dirigida pelo famoso arquitecto Victor Horta, na secção de
“Decoração”, mas abandonou esses estudos em 1920.
Nas artes plásticas sentiu-se atraído pela obra de Dürer e
Holbein, apreciando em especial as ilustrações de Gutave Doré para o “Inferno”
de Dante.
Também visitava assiduamente o Museu do Cinquentenário,
localizado próximo da sua morada de infância e juventude, onde apreciou em
especial as pinturas de Brughel , Clouet, Rubens e Ingres.
Para ganhar a vida, tornou-se desenhador de joias,
ilustrador de imprensa, retocador de fotografias, criador de páginas
publicitárias.
No Inverno de 1921,
iniciou o seu sonho de sempre, participar como figurante na ópera Guilherme
Tell no Teatro de “La Monnaie”. Retocador de fotografias de dia, figurante de
ópera à noite, foi assim vivido este curto período de alguma estabilidade.
Sol de pouca dura, conseguindo apenas um contrato como
artista no teatro de revista, assinado em 25 de Agosto de 1922.
Em 1923 o seu amigo Van Melke cruzou-se com Jacques Laudy, o
filho do retratista real (Jean Laudy), apresentado o seu novo amigo a Jacobs,
uma tripla de amigos que se mantve até ao fim das suas vidas.
[O “Trio” Fantástico
Dois Jacques, Jacques Laudy (1907-1993) e Jacques Van
Melkebeke (1904-1983) foram os amigos de Jacobs para a vida. Os três conheceram-se nos anos 20
na Academia de Belas Artes de Bruxelas, embora o conhecimento entre Jacobs e Van
Melkebeke já viesse da infância.
Homens cultos e entusiastas pela pintura, ambos os
Jacques foram figuras influentes para a carreira de Jacobs, embora tivessem
destinos diferentes.
Laudy foi autor de várias séries de BD na revista Bravo,
para a qual convidou Jacobs a colaborar e foi um dos fundadores da revista
TinTin, que deixou em 1962 por divergências com Hergé. Nessa revista foi
responsável por várias séries passadas em ambiente histórico, como a série com
que se estreou na revista TinTin, “Légende des quatre fils Aymon” (publicada
entre 26 de Setembro de 1946 e 16 de Outubro de 1947), “Rob Roy MacGregor”,
baseada no personagem criado por Walter Scott (publicada entre 23 de Outubro de
1947 e 22 de Abril de 1948) e “Hassan et Kaddour”, publicada a partir de 29 de
Abril de 1948 com argumento de Van Melkbeke, passada no século XVIII. Foi ainda
autor de várias capas da revista. Depois de sair da revista dedicou-se também à
pintura e à poesia. Em 1993, antes de falecer, deixou uma obra ilustrada de
homenagem ao seu amigo Edgar , “Le Royaume d’Edgar J.”.
Van Melkebeke foi muito activo em revistas
colaboracionistas durante a ocupação da Bélgica pelos nazis, como nos
germanófilos La Nation Belge e Le Soir “Volé”,
o que lhe custou perder uma carreira promissora como pintor e como
ilustrador de Banda Desenhada, sendo condenado a vários anos de prisão após a
libertação como “incívico”. Em 1943 editou um livro de memórias, Imageries
bruxelloises, onde relata a sua relação com Ludy e Jacobs.Foi o responsável por
Hergé e Jacobs se terem conhecido. Pouco tempo antes de ser julgado e condenado
ainda pertenceu à equipa fundadora da revista TinTin em 1946, como primeiro
redactor chefe da revista, embora por pouco tempo, até ao nº 13 dessa revista,
de 19 de Dezembro de 1946, sendo substituído por André D. Fernandez. Continuou
a colaborar de forma incógnita com a revista, com várias ilustrações não
assinadas, nos cenários de algumas aventuras de TinTin , de Blake e Mortimer e
de Corentin, entre outras. Só em 1957 conseguiu realizar a sua 1ª exposição de
pintura no pós-guerra, obra classificada entre o surrealismo e o fantástico.]
Tempo de “vacas magras”
Em 1923, Jacobs arranjou emprego numa empresa de publicidade
como ilustrador e desenhador para os catálogos de moda dos grandes armazéns em
Bruxelas, (Grande Armazéns de La Bourse), actividade que encarou apenas como um
ganha pão garantido, experiência que se prolongou, com algumas interrupções,
até 1940.
Ao mesmo tempo decidiu tornar-se cantor de ópera. Aquela
actividade deixou-lhe tempo para se dedicar ao estudo de canto na Academia de
Etterbeek.
Voltou a interromper a sua actividade quando foi chamado
para o serviço militar em Novembro de 1924, que cumpriu até Janeiro de 1925.
Durante esse tempo participou na trupe do Teatro do seu regimento e ocupou o
tempo com a leitura de obras de Mérimée, Stendhal, Voltaire, Flaubert e
Tolstoi, entre outros, por recomendação do seu amigo Van Melkebeke, fixando
nessas leituras as suas referência literárias.
Desmobilizado, a sua vida parecia fadada para a carreira na
ópera, ainda mais evidente quando, em 29 de junho de 1929, ganhou um importante
prémio de canto, tornando-se 2º barítono e entrando para a Ópera de Lille em
1931, pouco depois de se casar pela primeira vez, em 27 de Setembro de 1930,
casamento que durou até aos finais dos anos 40. Nessa sala de ópera tornou-se
responsável pelos projectos de indumentária e pelas maquetes dos cenários das
óperas aí exibidas. Uma lei de carácter xenófoba, saída em França no inicio dos
anos 30, obriga-o a abandonar a sua
carreira naquela cidade francesa e a
voltar à Bélgica, onde regressou ao seu trabalho como ilustrador publicitário,
uma actividade que o próprio classificou como de “desenhador-mercenário”.
Com o início da 2ª Guerra Mundial voltou a ser mobilizado,
cumprindo o serviço militar em França, perto de Carcassonne. Poucos meses antes
de voltar a ser desmobilizado, devido à rendição da Bélgica ao ocupante nazi em
28 de Maio de 1940, e de regressar ao
seu país em 3 de Agosto de 1940, recebeu a notícia do falecimento, em
consequência de ferimentos sofridos em combate, em Maio de 1940, do seu único
irmão, André, 9 anos e meio mais novo (nascido em 9 de Dezembro de 1913).
Jacobs chega à Banda Desenhada
Desempregado, para sobreviver, aceitou, em 1941, a sugestão
do seu amigo Jacques Laudy de mostrar os seus desenhos ao director artístico da
revista “Bravo”, Jean Dratz (1905-1967), que o
aceitou como ilustrador, tendo publicado cerca de 20 ilustrações nessa
revista entre 1941 e 1943.
A revista “Bravo!” iniciou a sua edição em holandês em 1936,
publicou-se como semanário em língua francesa entre 1940 e 1951 e foi, antes do
lançamento da revista TinTin, a mais importante revista de BD francófona, com
tiragens de dezenas de milhares de exemplares. Nas suas páginas começou por
misturar clássicos da BD norte-americana com autores belgas.
A proibição da publicação das séries norte-americanas, imposta
pelo ocupante nazi, teve, ironicamente, o condão de lançar muitos jovens
autores belgas, dando origem à afirmação daquilo a que se veio a designar por
escola franco-belga (ou, talvez mais justamente, a escola belgo-francesa), como
o próprio Jacobs , para além de Uderzo, Sirius, Vandersteen, Jacques Martin,
Rob-Vel, Paul Cuvelier, Calvo, Alain Saint-Ogan
e Laudy, entre outros. A concorrência da revista TinTin foi fatal para a
sua sobrevivência.
Foi considerada uma das “5 gloriosa” revistas pioneiras da
BD belgo-francesa, ao lado de Le Petit Vingtiéme (1928-1940), Le Journal du
Spirou (1938- 202…), Heroic Album (1945-1956 e 1969-1970) e TinTin (1946-1988).
Essa revista publicava nas suas páginas a série norte-americana
Flash Gordon de Alex Raymond (“Gordon l’ Intrépide”, na versão belga). Com a
entrada dos Estado Unidos na Guerra, em 1942, as pranchas daquela série deixaram
de chegar à revista a qual, como recurso para acabar a última aventura em
publicação, pediu a Jacobs para continuar e terminar a edição da aventura de
Flash Gordon que estava em publicação.
A aventura de Flash Gordon que estava a ser publicada
intitulava-se, na sua origem, “Power Men of Mongo” ( em francês, “Les
Techniciens de Mongo”), inicialmente publicada em páginas dominicais da
imprensa norte-americana entre 7 de Abril de 1940 e 29 de Junho de 1941:
Os nºs 50, 51, 52, 53 e
54 dessa revista, de Novembro de 1942, publicaram as últimas páginas da
aventura, a primeira (do nº50) ainda da
autoria de Alex Raymond, a última publicada antes da obra ser censurada, e as
restantes quatro da autoria de Jacobs.
Foi assim que Jacobs entrou no universo da BD, um meio que
ele desconhecia, não sendo um grande admirador do género.
[A série Flash Gordon surgiu na imprensa norte-americana
em 7 de Janeiro de 1934. Alex Raymond (1909-1956) contou com a colaboração, no
argumento, de Don Moore (1904-1986).
A série foi criada para concorrer com a série Buck
Rogers, criada em 1928 por Philips Francis Nowlan (1888-1940), que começou a
ser publicada em 7 de Janeiro de 1929 com desenho de Dick Calkins (1894-1962).
Raymond foi igualmente criador, nesse mesmo ano de 1934,
de outras séries icónicas da BD : Jungle Jim (Jim da Selva em Portugal) e o
Agente Secreto X-9, esta com argumento do conhecido escritor de séries
policiais Dashiell Hammet (1894-1961).
Raymond começou em 1920 como assistente dos irmão Lyman
(1893-1984) e Chic Young (1901-1973) nas séries Blondie, criada em 1930, e Tim
Tyler’s Luck, criada em 1932, tendo sido o responsável por esta série em 1932 e
1933.
Depois de combater na 2ª Guerra Mundial, Alex Raymond
criou em 1946 a série Rip Kirby, aportuguesado entre nós como “Ruben Quirino”.]
Em 1943 a censura alemã proibiu definitivamente a publicação
de séries norte-americanas na Bélgica ocupada e Jacobs foi convidado, pelo
editor da revista “Bravo”, a criar uma série parecida com Flash Gordon. Nasceu
assim “Raio U”, a primeira aventura totalmente original criada por Jacobs e que
foi publicada nas páginas daquela revista até 1944.
Entre 1944 e 1946 realizou também várias ilustrações
históricas para a enciclopédia “Voir et Savoir”. Em 1945 realizou várias
ilustrações e capas, alusivas à Segunda Guerra Mundial para a revista “ABC”.
A Relação com Hergé
Foi no dia 15 de Abril de 1941, numa deslocação para
assistir a uma ópera baseada na já então
famosa série TinTin, “TinTin nas Indias”, que o amigo comum Jacques Van Melkebeke o apresentou
a Hergé.
Van Melkebeke escreveu essa obra em colaboração com Hergé,
uma peça em 3 actos, apesentada no Teatro das Galerias. Até esse momento Jacobs
nunca tinha ouvido falar de TinTIn ou de Hergé e os seus interesses ainda não
estavam virados para a Banda Desenhada.
Mais tarde, em finais de 1943, já Jacobs se tinha revelado
com “O Raio U” na revista Bravo, Hergé, bem impressionado coma as qualidades
gráficas de Jacobs, convidou-o a colaborar na renovação dos cenários e na
coloração de novas versões das aventuras de Tintin, anteriormente a preto e
branco: “TinTin no Congo”, “TinTin na
América”, “O Lótus Azul” e “O Ceptro de
Ottokar”.
N’ “O Lótus Azul” Jacobs foi responsável pela total
reformulação dos décors, o mesmo acontecendo n’”O Ceptro de Ottokar”, tendo
sido, neste último caso, o responsável pelo cenário da sala do trono e pelos
trajes dos guardas e dos habitantes.
Jacobs acompanhou-o ainda como colorista em novas aventuras
, como “As 7 Bolas de Cristal”, aventura pela qual foi responsável pela total
renovação gráfica e decorativa, baseando-se em investigações que o próprio
Jacobs fez no Museu do Cinquentenário, e também n’“O Templo do Sol”, n’“O
Segredo do Licorne” e n’ “Tesouro de Rackan o Terrivel”.
Esta colaboração iniciou-se formalmente em 1 de Janeiro de
1944 e durou até 31 de Janeiro de 1947.
No início, Jacobs dedicava metade do dia a continuar o “Raio
U” e a outra metade a trabalhar para Hergé.
Mais tarde, na nova versão de “Cigarros do Faraó”, editada
em 1955, e nas novas aventuras “O Caso Girassol” e “Objectivo Lua”, Hergé
caricaturou o próprio Jacobs, num sarcófago, como o “egiptólogo E.P. Jacobini”
naquele álbum, e como
engenheiro/desenhador nesta. Hergé chegou a caricaturar-se junto de Jacobs e do
amigo comum Van Melkbeke entre os “jornalistas” que recebem TinTin das suas
aventuras no Congo, na versão renovada dessa aventura.
A personagem de Bianca Castafiore também surge como
homenagem a Jacobs e ao gosto deste pela ópera.
Em 1945 Hergé e Jacobs chegaram a ensaiar uma série de BD
feita em comum, assinando com o pseudónimo de “Olav”. Com essa finalidade
ensaiam três sinopse e três pranchas, de temáticas diferentes: uma aventura
passada no Pólo Norte (em 1937 Hergé chegou a pensar realizar uma aventura de
Tintin passada no Alasca), um policial passado em Shangai, cuja sinopse serviu de base para a edição em álbum e
colorida de 1946 de Lótus Azul, e um Western, cujo projecto serviu de modelo a
Paul Cuvelier, “pai” de Corentin, para a série Tom Colby criada em 1947.
Com Hergé e outros autores tornou-se cofundador da revista
TinTin, em cujo nº 1, publicado em 26 de Setembro de 1946, iniciou a série
Blake e Mortimer, na aventura “O Segredo do Espadão”, sendo igualmente
responsável pelas ilustrações de “A Guerra dos Mundos”, uma adaptação em jeito
de novela da obra de H.G. Wells, publicada a partir dessa edição da revista.
A capa desse primeiro número, anunciando a aventura “O
Templo do Sol” de Tintin, foi também uma realização conjunta de Hergé e Jacobs.
[O primeiro número do “jornal TinTin”, na sua edição
belga, editado em 26 de Setembro de 1946, tinha 12 páginas e teve uma tiragem
de 40 mil exemplares .
Abrindo as suas páginas, a primeira aventura que aparece
é uma estreia, “L’Extraordinaire odyssée de Corentin Feldóe”, uma página a
preto e branco em continuação da autoria então de um jovem estreante, Paul
Cuvelier (1923-1978).
Segue-se o início da publicação, em continuação e em duas
páginas, de “A Guerra dos Mundos”, famosa novela de ficção científica de H.G.
Wells, texto ilustrado com gravuras a preto e branco da autoria de Jacobs.
As 2 páginas centrais, a cores, incluem “O Templo do Sol”
de Hergé, apresentado como a continuação de “As Sete Bolas de Cristal”, cuja
publicação no jornal colaboracionista “Le Soir” tinha ficado interrompida após
a libertação.
Segue-se o excerto de uma novela de Voltaire, “Zadig”,
ilustrada a preto e branco por Jacobs.
A terceira banda desenhada em continuação a surgir é “La
Légend des Quatre Fils Aymon”, da autoria de Jacques Laudy, em ambiente
histórico e a preto e branco.
Finalmente, na última página, a cores, estreou-se a série
Blake e Mortimer de Edgar Pierre Jacobs, com a publicação da primeira prancha
de “O Segredo do Espadão”, onde ficamos a conhecer, pela primeira vez, o “vilão” Olrik, ainda antes de conhecermos os
dois heróis da série.
Essa importante revista, que se publicou até 1993,
conheceu uma edição em flamengo, Kuifje, que, no seu primeiro número, publicado
em simultâneo com a edição belga, saiu com uma tiragem de 20 mil exemplares e,
a partir de 28 de Outubro de 1948, uma edição em França. Portugal também
conheceu uma versão portuguesa da revista TinTin a partir de 1968 e que durou
até 1982.]
Não se pense, contudo, que as relações entre Hergé e Jacobs
foram sempre pacíficas, principalmente devido à influência do pai de TinTin na
revista com este nome e nas edições da Lombard, subalternizando a importância
da série Blake e Mortimer. Hergé chegou a confessar que “um álbum de Blake e
Mortimer comprado é um álbum de Tintin que não se vende” e, por sua influência,
as primeiras edições em álbum da série de Jacobs foram muito limitadas na
tiragem e na qualidade da impressão, que era mais fraca, para se distinguir da
qualidade dos álbuns do TinTin.
Também por influência de Hergé a série Blake e Mortimer foi
alvo de censura nas capas da revista TinTin que divulgavam esta série.
Essa má vontade de Hergé deveu-se, em grande parte, ao facto
deste pretender que Jacobs trabalhasse a tempo inteiro para a série TinTin, em
detrimento da série Blake e Mortimer, mas Jacobs impôs como condição aparecer
como coautor da novas aventuras de TinTin. Hergé não aceitou essas condições e
Jacobs saiu do projecto, situação que levou à criação dos estúdios Hergé em
Abril de 1950, para suprir a falta de
colaboração de Jacobs.
Inicialmente Jacobs pensou criar uma série passada na Idade
Média, intitulada “Roland le Hardi”, chegando mesmo a escrever um argumento
para ela, mas Hergé convenceu-o a publicar uma história passada na época
contemporânea, nascendo assim a série Blake e Mortimer, considerada a primeira
banda desenhada belga para adultos.
Em 23 de Maio de 1950 Jacobs iniciou a publicação, na
revista TinTin, da segunda aventura de Blake e Mortimer, “O Mistério da Grande
Pirâmide”, confirmando assim que a série tinha continuação. Em 6 de Agosto de
1953 surgiu naquela revista a aventura mais icónica da série, “A Marca
Amarela”, à qual voltamos mais à frente.
Autor prefeccionista, demorava bastante tempo a produzir as
aventuras de Blake e Mortimer, pelo que, a seguir àquelas três primeiras
aventuras, apenas criou mais quatro, a última delas incompleta: “O Enigma da
Atlântida” (1955), “S.O.S. Meteoros” (1958), “O Caso do Colar” (1965) e a 1ª
parte de “As 3 Fórmulas do Professor Sato” (1971).
A partir de 1952 passou a viver com a sua segunda esposa,
Jeanne Quittelier, com quem foi habitar em Lasne a partir de 1955, localidade
onde irá viver para o resto da sua vida. Apesar de viverem várias décadas
juntos só se casaram oficialmente em 5 de Junho de 1974. A morte de Jeanne, 3
anos depois, em 31 de Outubro de 1977 abalou bastante Edgar.
Em 1982 foram editadas as suas memórias, intituladas “Uma
Ópera de Papel”, com uma capa feita por Tardi.
No ano seguinte, após a morte de dois amigos, Hergé (3 de
Março de 1983) e Van Melkebeke (8 de Junho de 1983), e sentindo-se a
envelhecer, temendo pelo destino da sua obra, criou a Fundação Jacobs em 23 de
Dezembro de 1983 e, mais tarde, em 24 de Junho de 1986, os Estúdios Jacobs.
Tendo aparecido publicamente pela última vez em 16 de Abril
de 1986, por ocasião da inauguração do Centro Belga de Banda Desenhada em
Bruxelas, Jacobs faleceu em 20 de Fevereiro de 1987 devido a complicações
cardíacas, que o acompanhavam hà algum tempo, estando sepultado em Lasne.
O seu falecimento deixou por finalizar a 2ª parte daquela
última aventura, que ele já tinha esboçado, e que foi terminada, em 1990, por Bob de Moor (1925-1992).
Por testamento, Jacobs tinha instituído o seu afilhado René
como herdeiro legitimo e este deixou os arquivos da obra na vivenda de Lasne
para os entregar ao cuidado da Fundação.
Contudo, pouco tempo depois os familiares depararam-se com
um assalto à vivenda de Jacobs, de onde desapareceram os valiosos arquivos da
sua obra. Mais tarde, em 2004, parte desses arquivos foram encontradas na casa
de um meio irmão de um membro da Fundação, entretanto falecido.
No testamento, Jacobs apenas referia os projectos para
terminar “As 3 Fórmulas do Professor
Sato” e sobre a malograda série “Roland le Hardi”, nada indicando a
possibilidade da continuação da série Blake e Mortimer.
Jacobs tinha pensado no modelo usado por Hergé de uma
Fundação e um Estúdio, que gerisse o marketing e os arquivos da série, sem
continuarem as aventuras da sua famosa dupla.
A ambiguidade do testamento e da sua interpretação acabou
por permitir a continuação da série por outros autores, pelo que, até à
actualidade, já se publicaram mais álbuns do que aqueles que ele desenhou.
Além de Bob de Moor, Ted Benoit, Jean Van Hamme, André
Juillard e Yves Sante foram alguns desses continuadores.
Caracteristicas gerais da obra de Jacobs
A obra de Jacobs, conjuntamente com a de Hergé, é
classificada como exemplo fundador da chamada “linha clara”, estilo assim
baptizado pelo autor holandês de BD Joost Swarte (nascido em 1947), em artigo
de 1977, para designar um estilo de desenho que utiliza linhas fortes, que tem
a mesma espessura para contornar as figuras e objectos, sem sombreados (ou sem
o chamado esfumato), com cores vivas, combinando personagens em cenário
realista. Literalmente “linha clara” quer dizer um desenho que recusa qualquer
sombreado.
Refira-se, contudo, que foi o próprio Jacobs a contestar
essa classificação da sua obra, e muitos consideram que apenas as duas primeiras
aventuras da dupla por si criada seguem os “cânones” desse estilo.
Para Jacobs o chamado estilo “linha clara” foi “imposto”
pelas limitações do processo de reprodução em offset, que exigia um tratamento
e uma coloragem do desenho bem definido e destacado.
Entre outras características da sua obra, destacam-se o
realismo e o rigor dos cenários, que foi beber à sua experiência na ópera, a
obsessão pelo pormenor, a importância dada à ciência, transformando a temática
de ficção científica, presente na sua obra, em teoria científica plausível.
A forma como colocou os seus personagens nas vinhetas e nas
pranchas remete para a teatralidade da ópera, onde se iniciou na actividade
artística e à qual continuou a dedicar todo o seu entusiasmo como espectador ao
longo da sua vida.
Toda a sua obra foi construída na relação triangular dos personagens,
Blake, Mortimer e Orlik.
O “capitão” Francis Blake é apresentado como tendo
“estudado” em Oxford, antes de seguir a carreira militar na RAF, membro do M
15, os serviços secretos britânicos .
O “professor” Philip Mortimer, figura dominante na série,
escocês de origem, professor de Física nuclear, um intelectual de espírito
cavalheiresco, aficionado do desporto equestre, praticante de boxe e judo,
coleccionador e conhecedor de armas, tendo a arqueologia como hobbie, dominando
várias línguas e inveterado fumador de cachimbo.
Em contraponto com os dois “heróis” da série, o coronel
Olrik é o “mau da fita”, sobressaindo da longa lista de vilãos que vão
aparecendo na série (de entre os quais se destaca o cientista Septimus da “A Marca
Amarela”), um aventureiro sem escrúpulos, amador de arte, inteligente e
perspicaz, que usa monóculo e fuma cigarrete.
Para caracterizar física e psicologicamente esses e outros
personagens, Jacobs baseou-se em figuras reais de amigos e familiares e na sua
própria figura.
O nascimento de “A Marca Amarela”
“A Marca Amarela” foi uma das aventuras mais marcantes e
icónicas da série, ainda hoje considerada mundialmente uma das obras primas da
9ª arte.
Terceira aventura da dupla Blake e Mortimer, começou a ser publicada na edição
de 6 de Agosto de 1953 da revista TinTin, concluindo-se em 10 de Novembro de
1954, só sendo editada num álbum de 66 páginas em Fevereiro de 1956.
Muitos estudiosos da obra de Jacobs, relacionam a escolha do
tema dessa aventura com a transmissão televisiva da coroação da Rainha Isabel
II, situando-a no reino britânico e tendo como ponto de partida o roubo da
coroa.
Contudo, a coroação oficial de Isabel II, um dos primeiros
acontecimentos a ser transmitido em directo pelas televisões, ocorreu em 2 de Junho de 1953, apenas dois
meses antes do início da publicação dessa aventura na revista TinTin.
Sabe-se que a elaboração dessa aventura não se produziu
apenas em dois meses, tendo em conta a forma como o autor trabalhava, com
bastante lentidão e com uma grande preocupação pelos pormenores e pelo trabalho
de investigação documental.
Aliás, um ano antes da coroação, no Verão de 1952, o autor,
na companhia de Jeanne Quittelier, deslocou-se a Londres num passeio turístico,
a sua primeira saída do mundo francófono, mas com o objectivo de se documentar
para a sua nova aventura.
Confirma-se assim que a ideia não surgiu, como muitos dizem,
porque o autor se lembrou do tema ao ver na televisão a coroação da rainha, mas
terá surgido pelo menos um ano antes, embora estivesse relacionada com a subida
ao trono da nova rainha, logo após a morte do rei Jorge VI, em 6 de Fevereiro
de 1952, tendo a coroação ocorrido mais de um ano depois.
A morte de Jorge VI e a curiosidade à volta da nova rainha e
dos preparativos para a sua coroação, foram alvo de várias reportagens sobre a
corte britânica na imprensa da época, destacando-se as várias edições dedicadas
ao assunto pela revista Paris Match, consultada por Jacobs para se documentar,
este sim um facto comprovado pelo autor.
Essa revista dedicou ao assunto, ao longo do ano de 1952,
vários números, alguns em edição especial, como o nº 153 de 16 de Fevereiro de
1952, um especial dedicado ao monarca falecido, o nº 163 de 26 de Abril de 1952,
com uma grande reportagem sobre o Palácio Real e o muito citado nº 197 de 30 de
Dezembro de 1952, que exibia na capa uma fotografia da coroa e, no interior,
pela primeira vez divulgada ao público, uma fotografia do tesouro real, que
serviu de base a uma das vinhetas da aventura. Há ainda um número especial
dessa revista dedicada à coroação, mas já em Junho de 1953.
Outras fontes documentais de Jacobs para a criação da
aventura e para o reconhecimento urbano e monumental de Londres foram o livro
de divulgação “Pictures Book of London”, editado em 1951 pela Country Life
Limited, o “The Pictorial Story of the Tower of London”, editado pela Pitkim já
em 1953, assim como vários guias turísticos de Londres.
Consultou ainda ilustrações de Londres da autoria de Gustave
Doré incluídas no livro de Jerrold Blanchard de 1872 intitulado “London a
PIlgrimage”.
Para a reprodução de cenas de polícia baseou-se na consulta
de um número da Science et Vie de Fevereiro de 1953, com imagens dos carros e
fardamentos da polícia. Essa consulta esteve, aliás, na origem de um dos mais
icónicos erros na feitura dessa obra. A reportagem era sobre a polícia francesa
e ele esqueceu-se que em Londres polícia conduzia pela esquerda, erro que surge
nalgumas vinhetas.
Quando começou a planificar a história, Jacobs não conhecia
Londres , a não ser de forma idealizada, nos romances de Charles Dickens que
tinha lido na sua juventude. Já com o guião inicial, como referimos acima, resolveu
visitar a capital britânica, em Agosto de 1952.
O percurso dessa visita é conhecido: numa 2ª feira, 25 de
Agosto, partiu às 7.33 da estação Bruxelles-Midi a caminho da localidade
costeira e balnear de Ostende, onde apanhou o barco que atravessou o Canal da Mancha
até Dover na Grã-Bretanha, numa viagem de 4 horas. Seguiu depois de comboio até
Londres, tendo-se hospedado na companhia da sua companheira no Royal Hotel, em
Lencaster Gate, próximo do Hyde Park.
Durante os dias que aí permaneceu fez um percurso em
autocarro turístico e visitou vários locais onde imaginava situar a nova
aventura de Blake e Mortimer, como os Castelos de Windsor e d’Hampton Court, o
Palácio de Buckingham, a Torres de Londres, Gordon Square e Tavistock Square.
Nesta última rua descobriu o décor ideal para situar o “laboratório de
Septimus”. Fez-se fotografar e à esposa junto de edifícios que ele pretendia
usar nos cenários da história, par melhor poder calcular as suas dimensões.
Para se documentar fotograficamente, Jacobs levou consigo
uma pequena máquina fotográfica de caixa de 6/9, e usou 4 rolos de 12 fotos
cada.
Segundo o autor, mais importante que a documentação
fotográfica, foi ter-se deixado impregnar pela atmosfera e pelo ambiente
londrino
Essa visita contribui para alterar alguns cenários e
escolher novos locais para situar a história e, noutros casos, adaptar o que
viu a cenários já imaginados.
De facto, são muitos os sítios da cidade de Londres que
podem ser identificados, alguns apenas de relance, n’ “A Marca Amarela”: a
Torres de Londres, Fleet Street, a Catedral de S. Paul, Law Street (Palácio da
Justiça), Piccadilly Circus, as docas de East End em Limehouse Dock, o nº 10 de
Downing Sreet, o British Museum, Park Lane (onde situou a casa de Blake),
Shaftesbury Avenue, os luxuosos apartamentos que ladeiam o Hyde Park, Green
Park, Lombard Street, Hulborn Circus e Tavistack Square (onde situou, com já
dissemos, o laboratório de Sptimus).
As cenas passadas nas docas de Limhouse Dock foram
preparadas a partir de uma recolha de fotografias que Jacobs fez do ambiente
das docas de Bruxelas.
Um dos aspectos que correu menos bem nessa visita foi não
ter encontrado o ambiente sombrio, que ele pretendia obter para os cenários
urbanos da sua obra, pois essa visita foi feita numa Londres cheia de sol e
calor, de céu azul, nada do famoso e idealizado nevoeiro e ambiente sombrio.
Para criar o ambiente sombrio reproduzido em “A Marca Amarela” teve de recorrer
à imaginação.
Para muitos dos seus leitores, Londres ficou sempre
idealizada como a cidade sombria e misteriosa imaginada pelo autor para
ambientar essa aventura.
Jacobs documentou-se também nas investigações cientificas
sobre o cérebro e as “ondas mentais” publicadas em artigos da revista Science
et Vie.
O título desta terceira aventura da dupla de heróis não foi
fácil. Ao todo o autor rascunhou 12 títulos possíveis, entre eles: “O Sinal
Amarelo”, “A Onda Misteriosa”, “A Onda Maléfica”, “O Homem das lunetas
amarelas”. No meio dessa lista, em 5º lugar, é que surgiu o título definitivo
de “A Marca Amarela”.
Outro dado curioso sobre a elaboração dessa obra está
relacionado com a escolha do célebre símbolo de “A Marca Amarela”. Jacobs
pretendia um símbolo fácil de fixar. Inicialmente pensou no sinal Z,
inspirando-se no Zorro, mas a sua companheira opôs-se porque achava que essa
marca era já muito conhecida.
Combinaram uma reunião familiar para debater esse tema, com
a presença do seu enteado, René Quittelier. Foi este que lhe propôs a escolha
de uma letra do alfabeto grego, que começou a recitar alfabeticamente na
presença de Jacobs, que foi recusando as várias letras até chegar à 12ª palavra
do alfabeto grego, o "Mu" (Μ/µ) (lê-se Miu).
Inicialmente o autor considerou que essa letra era
complicada de desenhar, pois pretendia uma letra em forma de O. Então surgiu a ideia
de rodear o Mu maiúsculo com um círculo. Acabou por aperfeiçoar o símbolo até
chegar ao M da Marca Amarela, decidindo colorir o M de amarelo.
Existem outras versões sobre a origem do M, como a possível
inspiração no filme de 1927, de Fritz Lang, M-Matou, muito apreciado por Jacobs, ou a
interpretação do M como o símbolo de Maléfico, do Mal, da Morte ou da Maldição.
Principais características de “A Marca Amarela”
Num total de 66 páginas e 752 vinhetas, Jacobs ensaiou nesta
obra um novo grafismo para as filoxeras, distinguindo a parte descritiva, em
quadros rectangulares coloridos, dos diálogos, em quadros brancos de contornos
dentados.
O texto tem uma grande importância na construção das
pranchas, pois a maior parte destas e dos quadradinhos é ocupada com um texto
narrativo complexo e pormenorizado, com comentários que acentuam a densidade
psicológica das cenas. Essa situação realça as influências do romance policial
(“polar”) , em especial da obra de Sherlock Holmes e da história de Jack o
Estripador, e da ficção científica, reforçando o lado literário da obra de
Jacobs que entendia a Banda Desenhada como “um romance desenhado”.
Cada cena está construída como um décor de teatro, uma
influência do seu trabalho na ópera, quer como figurante quer como autor de
cenários.
A iluminação dessas cenas, com jogos de luz e sombras, foi
fortemente influenciada pela linguagem cinematográfica, igualmente presente na
elaboração das várias vinhetas, com recurso a picados e contrapicados,
travellings, profundidade de campo e alteração de planos, com, por exemplo,
passagens de planos médios para grandes planos.
Recorde-se que, a seguir à ópera e muito antes da Banda
Desenhada, o cinema foi uma das grandes paixões de Jacobs, em especial as obras
do chamado expressionismo alemão, os filmes de ficção cientifica, de terror e
de suspense.
Muitas dessas influências são bem visíveis como inspiração
para a elaboração das cenas de “A Marca Amarela”, como “O Gabinete do Doutor
Caligari” realizado por Robert Wise em 1920, como “Doutor Mabuse” realizado por Fritz Lang em
1922, inspirações para a figura do cientista louco Septimus , da figura
manipulada de Olrik em Ginea Pig, e do esconderijo destes, como “Nosferatus”
realizado por Fredrich Murnau em 1922, inspiração para a figura do “marca
amarela”, cuja marca também parece inspirada na célebre marca “M” do filme “M-Matou”
realizado por Fritz Lang em 1931.
Muitas outras cenas e ambientes parecem inspiradas em filmes
como “O Homem Invisivel” realizado em 1933 por James Whale, “As Mãos d’Orlac”
realizado em 1935 por Karl Freuns, “O Homem sem Rosto” realizado por Richard Fleischer em 1949, ou “O Terceiro
Homem” realizado por Carol Reed em 1949, sem descartar a influência
cinematografia e ambiental de Hitchcock.
Dois actos de censura marcaram a edição da série na revista
“TinTin”.
O caso mais grave aconteceu em 1953 com um projecto de capa
para a revista TinTin, para anunciar a publicação de “A Marca Amarela”. Esse
projecto de capa tinha alguma influência na imagem de Nosferatus, filme
expressionista de F.W.Murnau de 1922, mas foi considerada muito violenta para
uma revista juvenil, sendo Jacobs obrigado a retirar essa figura sinistra e uma
pistola nas mãos de Blake, atitude censória que teve a mão de Hergé, agastado
com o êxito da série que, segundo este, apagava a importância de TinTin na
revista com o seu nome.
Mais tarde, por ocasião do 7º aniversário da revista TinTin,
em 26 de Setembro de 1953, Jacobs fez um desenho ironizando aquele acto de
censura, dedicado ao editor da revista, Raymond Leblanc, desenho intitulado “O
fantasma de TinTin”, para recordar o papel de Hergé nesse acto de censura.
Nesse desenho incluiu Olrik, Blake e
Mortimer, que aparecem em forma de pterodáctilo, um espião com chaves caricatura
Jacques Martin, “pai” de Alix e Lefranc, o próprio Jacobs, um espadão
sobrevoando o céu, uma Torre de Londres e uma Pirâmide, como referências às
três primeiras aventuras da série.
Outro acto de censura ocorreu com uma vinheta da prancha 18,
onde aparecia Septimus, sentado num compartimento do comboio, a ler a revista
inglesa “Illustrated” com uma corista em trajes ligeiros na capa. Edgar foi
advertido para essa cena, com a desculpa de estar a publicar numa revista
juvenil e teve de “cobrir” essa corista com uma trama, para disfarçar a
“ousadia”.
Em Portugal, essa vinheta
também sofreu um acto de censura embora de forma mais subtil. Na vinheta
publicada na última página do nº 174 de “Cavaleiro Andante”, onde aparece o
professor Septimus a ler a revista “Ilustratted”, a capa desta foi suprimida,
sendo sobreposta por um “selo” com a indicação de um número para o sorteio num
concurso promovido pela revista junto dos seus leitores.
Embora de forma subtil, penso que esse acto não foi
inocente, o qual, pela forma como foi feito, quase passou despercebido.
Recorde-se que o responsável pela revista “Cavaleiro
Andante”, Adolfo Simões Muller, fazia parte da Comissão Nacional de Censura da
ditadura portuguesa
A censura voltou a persegui-lo mais tarde quando a sua obra
“A Armadilha Diabólica” foi proibida em França por ser considerada muito
violenta para ser editada numa revista juvenil, como a edição francesa de
“TinTin”.
Em 2013 Jean Dufaux, Antoine Aubin e Étienne Schrider,
editaram A Onda Septimus, álbum da série
pós-jacobs, produzida como uma “continuação” de “A Marca Amarela”.
“Blake e
Mortimer” e “A Marca Amarela” em Portugal
A série Blake et Mortimer foi publicada pela primeira vez em
Portugal na revista Cavaleiro Andante, pioneira na apresentação da obra de
Jacobs, editando a segunda aventura da série, “O Mistério da Grande Pirâmide”,
a partir do nº 30 de 26 de Julho de 1952.
A primeira aventura da série, “O Segredo do Espadão”, foi
publicada pela primeira vez, com o título aportuguesado de “O Segredo do
Sabre”, na revista Titã, entre a edição nº 7, de 12 de Outubro de 1954, e a
edição nº 42 de 10 de Agosto de 1955, a última dessa revista, pelo que essa
aventura ficou incompleta.
Por sua vez, “A Marca Amarela” foi publicada em Portugal
pela primeira vez no nº 167, de 12 de Março de 1955, da revista “Cavaleiro
Andante”.
A Verbo editou esta aventura pela primeira vez em álbum na
década de 1970. Voltou a ser editada pela Bertrand em 1980, pela Meribérica em
1990 e em 2004 e pelo jornal Público em 2008.
Em 19 de Outubro de 1955 a revista belga TinTin começou a
publicar a quarta aventura da série, “O Enigma da Atlântida”, que teve como
cenário a Ilha de S. Miguel, nos Açores, a única que se passou em território
português.
Jacobs, ao contrário do que aconteceu com “A Marca Amarela”,
não esteve pessoalmente no cenário dessa aventura, baseando-se numa busca
documental para a realizar.
A última aventura da série, publicada no final do ano
passado, “A Ameaça Atlante” de Yves
Sente e Peter van Dongen apresenta-se como uma continuação daquela aventura açoreana.
Há, contudo, um misterioso enigma, à volta de uma entrevista
que Vasco Granja conseguiu obter de Jacobs, na casa deste em Lasne, em 12 de
Outubro de 1972, onde se refere uma hipotética visita aos Açores e a Portugal
por parte do autor belga, já em data posterior à realização e publicação d’”O
Enigma da Atlântida”.
Infelizmente, nessa entrevista, publicada ao longo de vários
números da edição portuguesa da revista TinTin nesse mesmo ano, não existe mais
nenhuma informação sobre aquela hipotética visita de Jacobs, nomeadamente em
que ano podia ter sido efectuada e que outros sítios pode ter visitado em Portugal.
Aqui reproduzimos essa “misteriosa” passagem da dita
entrevista (sublinhado meu):
“[…]
V.G. – Gostou de VISITAR OS AÇORES?
E.P.J – Sim, fiquei muito impressionado. Eu
não tinha conseguido obter a indispensável documentação acerca dos Açores
quando andava a prepara o Enigma da Atlântida. A cratera das Furnas
deixou-me uma profunda impressão. Na água do lago podem observar-se duas cores
diferentes: uma azul e outra verde, o que é bastante espantoso.
Verifica-se perfeitamente que os Açores estão situados no ponto ideal para
servirem de ligação entre a Europa e os Estados Unidos. Se a Atlântida existiu
(o que é perfeitamente possível e eu continuo a acreditar em tal facto), julgo
bem que os Açores é tudo o que resta do continente desaparecido. Estas ilhas
são muito atraentes do ponto de vista turístico e parece-me que há muitas
coisas a fazer nesse sentido, embora eu reconheça que o turismo é uma arma de
dois gumes…Penso igualmente numa zona perto de Lisboa que me agradou
particularmente, numa pequena montanha plena de verdura e frescura…
V.G. – Sintra, não é verdade?
E.P.J.- É isso mesmo. É um sítio verdadeiramente
esplendido! Gosto também dos pescadores portugueses, da sua maneira de se
vestirem e dos barcos com motivos decorativos. Nota-se neles uma
acentuada reminiscência do passado.
[…]”.
Perante essa enigmática referência de Jacobs a Portugal, que
parece indicar a sua presença neste país, consegui contactar, por mail, Viviane
Quittelier, biografa e neta da segunda esposa de Jacobs.
Em resposta, disse-nos que o seu avô nunca veio a Portugal:
“A viagem da qual ele falou [na entrevista] seria aquela dos seus personagens”
e que ele “acompanhava nos seus sonhos”. [“Désolée de vous décevoir. Mon
grand-père n'est pas allé au Portugal.Le voyage dont il a parlé serait celui de
ses personnages.Et aussi en les accompagnant dans ses rêves”- resposta que nos
foi dada por Viviane Quitellier em 13 de
Fevereiro de 2026].
A série Blake e Mortimer é uma das mais apreciadas em
Portugal e, ainda hoje, o lançamento de uma nova aventura da série, continuada
por outros autores, é sempre aguardada com grande expectativa e atinge elevados
valores de vendas.
Deixamos uma última questão: para quando, em Portugal, uma
grande exposição de homenagem e sobre a obra de Edgar P. Jacobs?
(NOTA FINAL : Agradecemos a Viviane Quitellier as sugestões
e correcções com que nos auxiliou na feitura deste texto).
ANEXO – Blake & Mortimer em Portugal (aventuras da autoria de Edgar
Pierre Jacobs):
|
Título |
Ano em que
situa a aventura |
1ª
publicação |
1ª Edição
em Álbum |
1ª
Publicação em Portugal |
1ª edição
em álbum em Portugal |
|
O Segredo
do Espadão |
1946 |
26 de
Setembro de 1946 no nº 1 da revista
belga Journal de Tintin. |
Tomo 1 – 1950 Tomo 2 e 3 –
1953 (em álbum
único em 1964). |
Titã nºs 7 a
42 em 1955 (incompleta) Tintin nº 48
do 13º ano (1981) ao nº52 do 14º (de 8 de Maio de 1982) |
1970, ed.
Ibis, em 2 volumes |
|
O Mistério
da Grande Pirâmide |
1950 |
23 de Março
de 1950 no Tintin belga. |
Tomo 1- 1954 Tomo 2 – 1955 (em álbum
único em 1959) |
26 de Julho
de 1952 no Cavaleiro Andante, do nº 30 a 132. |
1970,
ed.Verbo, 2 volumes |
|
A Marca
Amarela |
1953 |
6 de Agosto
de 1953 na revista belga de Tintin. |
1956 |
1 de Janeiro
de 1955 no Cavaleiro Andante, nº 157 a 219 |
1970 , ed.
Verbo. |
|
O Enigma
da Atlântida |
1955 |
19 de Outubro
de 1955 na revista belga de Tintin. |
1957 |
12 de Maio de
1956 no Cavaleiro Andante , nº 228 a 291 |
1970, ed.
Verbo |
|
S.O.S
Meteoros |
1958 |
8 de Janeiro
de 1958 na revista belga Tintin. |
1960 |
5 de Julho de
1958 no Cavaleiro Andante nº 340 a 398 |
1980, ed.
Bertrand |
|
A
Armadilha Diabólica |
1960 (também
no passado – Quaternário e Idade Média- e no futuro) |
22 de
Setembro de 1960 na revista belga Tintin. |
1962 |
4 de Maio de
1961 na revista Foguetão (incompleto) e 26 de Agosto de 1961 no Cavaleiro
Andante, nº 504 a 534 |
1981, ed.
Bertrand |
|
O Caso do
Colar |
1965 |
23 de Março
de 1965 na revista belga Tintin. |
1967 |
No
suplemento “Nau Catrineta”, nº 146 de
22 de Outubro de 1966 a 207 de 30 de Dezembro de 1967. |
1982, ed.
Bertrand |
|
As Três
Fórmulas do Professor Sato, tomo 1 (O tomo 2
será publicado a partir de 1990, com a autoria de Bob de Moor, com base nos
esboços deixados por Jacobs, falecido em 1987) |
1967 |
5 de Outubro
de 1971 na revista belga Tintin. |
1977 (1990) |
Na revista
TinTin nº 21 do 5º ano de 16 de Outubro de 1972 ao nº 14 do 6º ano de 25 de Agosto de 1973. |
1987,
Meribérica (1991,
Meribérica) |
Albuns da série editados após a morte de Jacobs em
1987:
·
1990 - As
Três Fórmulas do Professor Sato - Tomo 2, ( a partir de esboços de
Edgar P. Jacobs) por Bob de Moor
·
1996 - O
Caso Francis Blake de Jean Van Hamme & Ted Benoît
·
2000 - A
Conspiração Voronov de Yves Sente & André Juillard
·
2001 - O
Estranho Encontro de Jean Van Hamme & Ted Benoît
·
2003 - Os
Sarcófagos do 6.º Continente - Tomo 1, de Yves Sente & André
Juillard
·
2004 - Os
Sarcófagos do 6.º Continente - Tomo 2, de Yves Sente & André
Juillard
·
2008 - O
Santuário de Gondwana - de Yves Sente & André Juillard
·
2009 - A
Maldição dos Trinta Denários - Tomo 1, de Jean Van Hamme, René Sterne
& Chantal de Spiegeleer
·
2010 - A
Maldição dos Trinta Denários - Tomo 2, de Jean Van Hamme & Antoine
Aubin
·
2012 - O
Juramento dos Cinco Lords - de Yves Sente & André Juillard
·
2013 - A
Onda Septimus - de Jean Dufaux, Antoine Aubin e Étienne Schréder
·
2014 - O
Bastão de Licurgo - de Yves Sente & André Juillard
·
2016 - O
Testamento de William S. - de Yves Sente & André Juillard
·
2018 - O
Vale dos Imortais - Tomo 1, de Yves Sente, Teun Berserik e Peter Van
Dongen
·
2019 - O
Vale dos Imortais - Tomo 2, de Yves Sente, Teun Berserik e Peter Van
Dongen
·
2020 - O
Grito do Moloch - de Jean Dufaux, Thomas Gunzig, Francois Schuiten e
Laurent Durieux
·
2021 - O
Último Espadão - de Jean Van Hamme, Teun Berserik e Peter Van Dongen
·
2022 - Oito
Horas em Berlim - de José-Louis Bocquet, Jean-Luc Fromental e Antoine
Aubinref
·
2024 - Assinado
"Olrik" - de Yves Sente e André Juillard
·
2025 - A
Ameaça Atlante - Yves Sente e Peter van Dongen
Volumes extra:
(hors série,
no original).
·
2019 - O
Último Faraó - de François Schuiten, Jaco Van Dormael e Thomas Gunzig;
·
2023 - A
Flecha Ardente - de Jean Van Hamme, Christian Cailleaux e Étienne
Schréder (continuação de “O Raio U”);
·
2023 - A
Arte da Guerra - de Jean-Luc Fromental e José-Louis Bocquet .
BIBLIOGRAFIA (do meu arquivo pessoal)
BANG nº 4, Automne 2003, ed. Casterman/BeauxArts
BD Guide – Encyclopédie de la bande dessinée
international, ed omnibus, 2003
Blake et Mortimer – Deux aventuriers au coeur du XX.e
siècle, Geo Histoire Outubro/Novembro de 2019;
GALLO, Claude Le, Le Monde de Edgar P. Jacobs, ed.
Auters/Lombard, 2ª edição 2004 [1ª edição, Novembro de 1984]
JACOBS, Edgar P., [La Marque Jeune] – Une Histoire du
Journal TinTin [reprodução das pranchas originais publicadas na revista
TinTin], Editions Blake & Mortimer/Studio Jacobs (Darguad/Lombard), 1ª
edição Novembro de 2012;
JACOBS, Edgar Pierre, Un Opéra de Papier/Les Mémoires de
Blake et Mortimer, ed. Gallimard, 1981 (rééd. 2014);
LAMBEAU, Frans, Dictionnaire Illustré de La Bande
Dessinée Belge sous l’occupation, André Versailles editeur, 2013;
LAMBEAU, Frans, Dictionnaire Illustré de la Bande
Dessinée Belge – De La Libération aux fifties (1945-1950), Les Editions de La Province
de Liége, 2016;
La Marque Jaune – La Chef-d’oeuvre de Blake et Mortimer,
Les Cahiers de La BD, Hors-Série, Novembro 2020;
LENNE, Gérard, L’ Affaire Jacobs, ed.Megawave, 1990;
Les Personages de Blake et Mortimer dans l’Histoire – Les
événements qui ont inspire l’ouvre d’ Edgar P. Jacobs, Le Point/Historia,
Hors-Série, 2014;
Les Voyages de Blake et Mortimer – Deux aventuriers à
travers le monde, ed, Geo, 2023;
L’Integrale Flash Gordon, tomes 3 e 4, ed. Hachette;
MARICQ, Dominique (coordenação) Le Journal TinTin – Les
Coulisses d’un Aventure – avec le facsimilé du nº 1 Encarté, ed. Moulinsart,
2006;
MOUCHART, Benoit & RIVIÈRE, François, Edgar P. Jacobs
– Um Pacte avec Blake et Mortimer, Les Impressions Nouvelles, 2021 (trata-se da
renovação e aprofundamento de um anterior título dos mesmos autores, “La
Damnation d’Edgar P. Jacobs”, ed. Seuil/Archimbaud, de 2003);
QUITTELIER, Viviane, Edgar P. Jacobs. Témoignages
inédits, ed. Mosquito, 2009;
Schtroumpf – Les Cahiers de La Bande Dessinée, nº 30 –
Edgar Pierre Jacobs, ed. Jacques Glénat, 1976;
VASCO GRANJA, Uma vida… 100 imagens, ed. Asa,2003;
VERHOEST, Éric, Du Duo ao duel – L’histoire d’une aitié
créative, ed. Moulinsart/Casterman, 2026;

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