quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Recordar Jean-Claude Mézières (1938-2022)


Faleceu, no passado dia 23 de Janeiro, um dos grandes nomes da Banda Desenhada europeia, Jean-Claude Mézières, “pai”, com Pierre Christin,  de Valerian, um dos mais icónicos heróis da banda desenhada de ficção científica.

As 23 aventuras da série contribuíram para dar uma nova dimensão à ficção científica, integrando nas aventuras da dupla de heróis, Valerian e Laureline, “agentes espaciotemporais”, temas de sempre, da luta de classes, à tirania, da injustiça à igualdade de sexos.

Esta foi, aliás, uma das raras séries onde uma heroína feminina mereceu tanto destaque como o herói principal.

Mézières nasceu em Paris em 23 de Setembro de 1938 e conheceu Pierre Christian, co-autor daquela série, num abrigo antiaéreo durante um bombardeamento da 2ª Guerra, em 1944, já que ambos viviam próximos.

Começou a desenhar nos cadernos escolares, e uma das primeiras “obras” foi a criação, aos 13 anos,  de aventuras alternativas de TinTin, com destaque para um inédito  “TinTin na Califórnia”, realizando também por essa altura,  um pequeno álbum, de tiragem única, um Western a cores, que enviou a Hergé para lhe pedir uma opinião, ao que este lhe respondeu para “continuar”, uma resposta idêntica dada a muitos outros jovens desenhadores que enviavam os seus trabalhos àquele autor.

(TinTin Na Califórnia)
(algumas das pranchas enviadas por Mézières a Hergé)
(resposta de Hergé)

Publicou a sua primeira banda desenhada, por essa altura, num suplemento do Le Figaro, em 1952.

Aos 15 anos Mézières começou a frequentar a Escola de Artes Aplicadas de Paris, onde estudou durante 4 anos, escola onde a Banda Desenhada era vista como uma arte menor. Nesse curso conheceu Jean Giraud, futuro “Moebius”, um amigo para a vida, partilhando ambos o mesmo gosto pelo Western e pela ficção científica.

Com Jean Giraud e outro futuro autor de BD, Patrick Mallet, que também frequentavam aquela escola, começou a colaborar nas revistas “Coeurs Vaillant” e “Fripounet et Marisette”, com aventuras em ambiente Western, ao mesmo tempo que trabalhava em publicidade para a Philips.

No Natal de 1958 a prestigiada revista Spirou (que ainda existe) publicou duas páginas de um conto de Natal desenhado por s, “La Première Chreche”.

Teve depois de ir cumprir o serviço militar, parte dele passado numa Argélia em ebulição, interrompendo a sua carreira de ilustrador durante dois anos e meio.

Regressado do serviço militar conseguiu, em 1963, trabalhou nos Estudios Hachette, ilustrando, durante dois anos, uma enciclopédia sobre a história das civilizações. Nessa editora, para além de ilustrador, foi assistente de fotografia, maquetista e gráfico.

Por essa altura, com Benoit Gillan, lançou “Total Journal”, interrompendo a sua participação para ir trabalhar para os Estados Unidos. Quando regressou, em 1966, continuou a colaborar nessa publicação, juntamente com Christian, conseguindo que nela  colaborassem também autores como Brétécher, Gotlib, Mandryka, Giraud ou Jijé.

O seu espírito de aventura e a sua paixão pelo Western levou-o aos Estados Unidos, para onde partiu em 1965, onde esteve ano e meio,  para trabalhar como verdadeiro cowboy num rancho entre o Montana e o Arizona. Em Salt Like City reencontrou o seu amigo de infância Pierre Christian, que ensinava literatura francesa na universidade d’Utah. Desse encontro resultou uma primeira colaboração conjunta numa história curta, “no espírito da revista Mad”, intitulada “Le Rhum du Punch”, que foi aceite para publicação na revista Pilote (nº 335 de 24 de Março de 1966), dirigida por René Goscinny (um dos pais de Astérix).

(Mézières, cow-boy nos Estados Unidos)
(Le Rhum du Punch, primeira colaboração na revista Pilote)

Iniciou-se aí uma colaboração que nunca mais foi interrompida com a célebre e inovadora revista Pilote, tendo Mézières publicado várias histórias curtas com argumentos, não apenas de Christian (aliás Linus), mas também de Fred, Reiser,Lob, Clavé, Gébè e do próprio Goscinny.

Tendo-lhe sido proposto criar uma nova série de Banda Desenhada, com argumento de Christian, chegaram a ponderar um Western, ambiente bem conhecido do autor, mas esta temática já estava ocupada, no mundo da BD franco-belga, por Blueberry, do seu amigo Giraud (também Moebius), Lucky Luke (com argumentos de Goscinny) ou Jerry Spring (do seu amigo Jijé).Acabaram por optar pela ficção científica.

Foi assim que, no nº 420 de Pilote, de 9 de Novembro de 1967, nasceram as Aventuras de Valerian, desenhos seus e argumento de Christian, que deu origem a mais de 20 aventuras, publicadas naquela revista e, pela primeira vez em álbum, a partir de 1970.

A primeira aventura intitulou-se “Contre Les Mauvais Rêves” ("Sonhos Maus" em português). Nessa história de estreia Valerian, agente espacio-temporal no ano de 2720 é enviado para a Idade Média em perseguição de um vilão, encontrando Laureline que, tornando-se igualmente agente espacio-temporal o acompanhará em toda as futuras aventuras da série. A 2º aventura, publicada em 1968, "La Cité des Eaux Mouvantes",talvez uma das mais icónicas da série, conduz os dois herois ao ano de 1986, a uma Nova Iorque pós apocaliptica. 


Depois de receber o Grande Prémio do Festival de Angoulême em 1984, em 1987 publica, em parceria com Christian, o romance gráfico “Lady Polaris”, o nome de um navio afundado no Báltico, imaginado a vida e os segredos de personagens que viajaram nesse barco pelos portos da Europa.

Em 1991, quando começava a trabalhar numa nova aventura de Valerien, foi contactado pelo cineasta Luc Besson para a ralização de um filme de ficção cientifica, trabalhando nesse projecto ao longo de todo o ano de 1992. Demorando-se a sua concretização, desse trabalh resultou uma nova aventura de Valerian, intitulada “Les Cercles du Povoir” ("Os Círculos do Poder"), publicado em 1994.Finalmente essa colaboração acabou por dar frutos, em 1997, com a estreia do filme “O Quinto Elemento”.


A influência da série de Mézières e Christian no mundo do cinema não se esgotou neste projecto. A série “Guerra das Estrelas” baseou-se em ambientes, cenários e figuras da série Valerian, da qual George Lucas era fã.

Foi, contudo, preciso esperar pelo ano de 2017, para ver uma adaptação cinematográfica da série, realizada por Luc Bessson, “Valérian e a Cidade dos Mil Planetas”, adaptada dos álbuns “O Embaixador das Sombras” e parte de “O Império dos Mil Planetas”.



A série Valérian foi publicada pela primeira vez em Portugal na revista “TinTin”, no nº 36 do 3º ano, em 30 de Janeiro de 1971, sendo também publicado, posteriormente, nas revistas “Jornal da BD”, “Flecha 2000” e “Selecção BD” e editado pela primeira vez em álbum pela Meribérica. Em 2017 a Asa editou  integralmente a série.


Em 2008, o Festival de Banda Desenhada da Amadora, dedicado à Ficção Científica na BD, reservou uma das suas exposições à série Valérian.

Mas foi no IX Festival Internacional de Beja, no dia 1 de Junho de 2013, que Mézières em pessoa pode conviver com o publico português.

O trabalho de Mézières voltou a estar em destaque em Portugal no ComicCon de 2016, onde a esposa de Luc Besson, Virginie Besson, apresentou, em exclusivo, imagens do filme “Valérian e a Cidade dos Mil Planetas”, que estreou no ano seguinte.

Mézières foi um dos autores mais marcantes da BD franco-belga, renovando um género, a ficção científica, de forma original, sem cair nos excessos comercias da Marvel ou da DC Comics, que hoje dominam o género na BD e no cinema.

Fontes:

- Site "Mézières" (com muito material de consulta - cilcar AQUI):

- Schtroumpf - Les Cahier de La Bande Dessinée, nº7 - Linus-Mézières.

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